Quando, em maio de 2019, Andreia C. Faria publicou uma antologia que reúne três dos seus livros e alguns textos inéditos e decidiu chamar-lhe Alegria para o Fim do Mundo (Porto Editora), não sabia quão perto estávamos, não do fim do mundo mas do fim de um  certo mundo. Não sabia, mas de certa forma pressentiu o que, para lá do espírito do tempo, para lá dos sedimentos e do pó dos milhares de acontecimentos com que diariamente, os media, a literatura, a história, a ciência nos anestesiam,  há uma constelação de histórias imóveis ao olhar, gestos que se desenham para ninguém, movimentos geológicos que fogem à racionalidade crescente e coisas fixas, alicerces milenares que já todos esquecemos, mas cujo fogo lento da Terra se prepara  para destruir num dia qualquer. Da garganta aberta do pavão, à magreza dos pulsos de uma mulher, ao cheiro de uma camisola que despimos, aos objetos sem qualidades, ao rebentar do cio nos frutos, nos animais e na carne, tudo contém uma vida secreta que nos confronta com o lado falhado, inacabado, desistido e, ao mesmo tempo, fulgurante, na nossa existência, porque “só curvada no íntimo se esclarece a fome”.

O universo poético de Andreia C. Faria não comparece à poesia urbana e às suas neuroses, não é realista mas é intensamente político e confrontativo; onde se escava cada aparição até que ela revele, não a sua origem, mas apenas uma das suas muitas máscaras que acumulou ao longo do tempo. Ela própria, a poeta, assume a sua máscara e, num gesto cada vez mais estranho à poesia e à literatura atual, Andreia não fala de si mesma, da sua vida, do seu ínfimo, das suas suites ou das suas cidades preferidas. Mesmo quando parece confessar-nos segredos seus, ela deixa-nos ouvir um murmúrio longínquo que nos diz que a voz que ouvimos não pertence a ninguém em particular mas à corrente de um rio subterrâneo onde somos nós mesmos que vagamos sempre  iguais e sempre outros. Como Zaratrusta, Andreia C.Faria aceitou o que em si e o que nas coisas não pode falar.Por isso, está atenta aos sinais deste Antropoceno; ela percebe que”o mundo não aguenta a narração de mais nada”, que é preciso que “deixar que as intempéries terraplanem tudo” e que a única alegria pertence à Terra, ela que é o chão de todo o pensamento. Se há um outro caminho na nova poesia portuguesa ele começa aqui.

Antologia que reúne os livros Flúor, Um Pouco Acima do Lugar onde Melhor se escuta o Coração, Tão Bela como Qualquer Rapaz mais alguns textos inéditos foi publicada na coleção de poesia “Elogio da Sombra” da Porto Editora

Quem é a Andreia C. Faria? O que é o C? De onde vem, para onde vai? O que estudaste? por que caminhos andaste? Quando começaste a escrever? Quando te tornaste poeta? Ou já nasceste assim?
O C. oculta, mas assinala, uma pertença geracional e de classe. Como um sotaque, que faço questão de não perder. Em termos práticos, o C. divide as águas: cai na minha vida profissional, fica na escrita.

Este artigo é exclusivo para os nossos assinantes: assine agora e beneficie de leitura ilimitada e outras vantagens. Caso já seja assinante inicie aqui a sua sessão. Se pensa que esta mensagem está em erro, contacte o nosso apoio a cliente.