Kay foi violada por três homens em setembro no quarto onde vivia no Star Motel um complexo hoteleiro de estrada que se transformou pós confinamento sanitário num gueto de gangues e traficantes de droga, em Kissimmee, Estados Unidos.

“Fui violada por três homens. Aguentei demasiado tempo no Star Motel. Não quis sair do sítio para não abandonar os meus cães porque aqui há poucos motéis que aceitam animais. Não sou capaz de sair à rua”, disse Kay à Lusa no quarto onde vive encerrada, na cidade de Orlando, no Estado da Florida. A mulher, desempregada, chamou a polícia, acusou os homens que a violaram mas não conseguiu provar o crime tendo a polícia abandonado a investigação.

O Star Motel no n.º 4880 da rua 192 em Kissimmee, Orlando, e que faz esquina com a avenida Seven Dwarfs (“Sete Anões”) é hoje um escombro com lixo amontoado nos quartos e refúgio noturno de traficantes de droga e grupos de delinquentes.  Até ao princípio do mês de outubro albergava famílias que ficaram subitamente desempregadas devido ao confinamento sanitário e que baixou drasticamente os números do turismo, o único setor económico que fazia mover “o motor da pior cidade da América”.

A rua 192 é a principal via de acesso ao parque de diversões Disney World que despediu uma grande parte dos trabalhadores em fevereiro por causa da pandemia de covid-19. De acordo com organizações não-governamentais locais calcula-se que cerca de “oito mil pessoas ficaram sem trabalho” sendo que “pelo menos 300 famílias precisam de apoio urgente” para se manterem nos quartos dos motéis onde residem e que podem custar quase 1.000 dólares por mês, com pagamentos semanais.

“Neste momento tudo isto é uma cidade fantasma. Como se vê não há carros nos parques de estacionamento. Os únicos que aqui estão são famílias que perderam as casas e são obrigadas a viver nestes quartos alugados”, explica Barbie Austria fundadora da organização Kissimmie Poinciana Homeless Outreach (KPHO)

Sobrevivente dos ataques do 11 de setembro em 2001, em Nova Iorque, Barbie tem conseguido angariar fundos para pagar o aluguer dos quartos a centenas de famílias. “Em princípio os motéis não podem negar o direito às pessoas de se manterem nos quartos. Eu pago a renda à maior parte destas pessoas e há outra organização que faz o mesmo”, diz Barbie, que fornece refeições duas vezes por dia a 300 famílias, muitas com crianças ou idosos com graves problemas de saúde.

“Eu comecei a ajudar em junho porque vi que havia pessoas de idade muito doentes e os quartos já não tinham eletricidade. A recolha de lixo é um outro problema. Num motel aqui perto cheguei a pagar uns milhares de dólares para remover 30 toneladas de lixo, para ajudar as pessoas que se recusavam a sair simplesmente porque não tinham onde ficar a viver”, explica.

O motel onde o lixo se acumulava teve de ser encerrado por motivos de higiene e as pessoas foram mudadas para outros motéis na mesma rua. “Só aqui na rua 192 há mais de 300 famílias nesta situação e se virmos a lista espera de pessoas que pediram apoio para uma habitação social descobrimos que há entre quatro mil e a cinco mil famílias. A ajuda estadual para a habitação não é eficaz. Há pessoas que estão na lista de espera há 12 anos e agora tudo se agravou”, lamenta.

Barbie diz mesmo que a rua 192 “é o lado negro do parque de diversões da Disney” que fica “mesmo do outro lado da porta”. “A maior parte destas pessoas trabalhavam na Disney, foram despedidas. Nunca recebi nenhum donativo da Disney World. É uma vergonha, assim como os políticos locais que olham para o outro lado. A campanha eleitoral é ativa em Orlando não na cidade Kissimmee que fica na rua de acesso ao parque de diversões dos bonecos de desenhos animados”, acusa.

“Eu começo o dia a distribuir comida. Felizmente recebemos muitos donativos de estabelecimentos comerciais e restaurantes. Ontem andei até às dez da noite a recolher comida para distribuir hoje, mas também temos de comprar muitos alimentos. Estas pessoas não têm dinheiro para pagar a renda do quarto e alimentar os filhos”, diz Barbie Austria.

A ajuda começou no Star Motel até ao dia em que a violência expulsou as famílias dos quartos sendo que a realidade dos motéis não se vê de fora, tal como ninguém vê Kay, a mulher violada por três homens no Star Motel, onde vive sozinha com dois cães. Kay vive com medo e não consegue afastar-se do motel, por isso, vai até ao limite: vai com os cães e às vezes senta-se nas escadas que ficam frente ao novo quarto. Pouco depois volta a fechar-se. “Neste momento Kay não tem futuro”, lamenta Barbie quando a porta se fechou.