O universo do escritor português José Saramago serviu de inspiração aos bailarinos e coreógrafos São Castro e António M Cabrita na criação do espetáculo de dança “Sinais de Pausa”, que se estreia sexta-feira, no Teatro Viriato, em Viseu.

Neste espetáculo – cujo título é uma referência à forma como o Prémio Nobel da Literatura português preferia chamar o ponto final e a vírgula – São Castro e António M Cabrita mostram ainda mais intensamente a relação que sempre tiveram com a palavra do ponto de vista da criação.

“Já é uma ferramenta inerente ao nosso trabalho. No entanto, aqui tornou-se muito mais evidente e visceral, porque a peça passou a ser quase uma escrita com o corpo, transformar a palavra em fisicalidade no corpo”, explicou António M Cabrita.

É com este “trabalho mais complexo e mais aprofundado” de “trabalhar a palavra no corpo” que os dois diretores artísticos da Companhia Paulo Ribeiro (residente no Teatro Viriato) regressam como dupla à interpretação, o que já não acontecia desde 2016.

“Quando fomos convidados para dirigir artisticamente a Companhia Paulo Ribeiro, desenhámos logo este plano em que este ano iríamos regressar os dois a palco, iríamos ser intérpretes e criadores de novo”, contou o coreógrafo, acrescentando que sabiam que isso teria de ser “com algo que fosse muito especial e Saramago é, de facto, muito especial”.

Durante o seu percurso coreográfico, São Castro e António M Cabrita têm trabalhado o universo de autores de várias áreas artísticas.

Para “Play False” (2014), o casal foi buscar “as palavras, os textos e as obras de Shakespeare”, quando quis trabalhar a imagem, em “Rule of Thirds” (2016), recorreu à obra fotográfica de Henry Cartier Bresson, e depois, em “Last” (2019), os quartetos de Beethoven foram “o fio condutor para o movimento do corpo”, explicou São Castro.

Segundo a coreógrafa, o regresso tinha de ser com um autor português e consideraram que fazia “todo o sentido” levar para os seus corpos “as palavras, os temas, a forma como escreve e descreve, as fragilidades, a brutalidade, a realidade de Saramago”.

António M Cabrita esclareceu que o objetivo não foi “que o espectador esteja a fazer esse exercício exaustivo de estar a tentar compreender” e identificar as várias obras e personagens em que se inspiraram.

“Mas, quem for conhecedor de alguma das obras, provavelmente vai reconhecer, em várias partes da peça, essas âncoras, que são âncoras criativas para nós”, referiu, dando como exemplo a luz branca que permanece em palco durante boa parte do espetáculo, remetendo para a obra “Ensaio sobre a Cegueira”.

“Objeto Quase”, “Memorial do Convento”, “A Viagem do Elefante”, “As Intermitências da Morte” e alguns textos dos “Cadernos de Lanzarote” foram algumas das obras que serviram de inspiração.

São Castro frisou que “Saramago faz belissimamente a ponte entre ele próprio como escritor e o leitor”.

“Ele convida o leitor a entrar nas suas obras, ele desafia o leitor, por isso, acho que é a nossa peça que mais tem contacto com o público no sentido do olhar, de entrarmos na plateia e querermos que o público suba até onde nós estamos e que consigamos viver aquele momento juntos”, realçou.

“Sinais de Pausa”, que volta a ser apresentado no sábado, integra a programação da 9.ª edição da mostra de dança New Age New Time, a realizar entre sexta-feira e dia 28 de novembro.

A Companhia Paulo Ribeiro tinha duas estreias previstas para 2020, em que está a comemorar 25 anos, mas, devido à pandemia de covid-19, só foi possível concretizar “Sinais de Pausa”.

“Mantivemos esta por termos a particularidade de sermos dois e um casal. Na do Paulo (Ribeiro) era mais gente e tivemos que adiar”, justificou António M Cabrita.

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