Um surto com dez imigrantes, trabalhadores agrícolas, infetados pelo vírus que provoca a doença Covid-19 foi detetado na cidade alentejana de Serpa, no distrito de Beja, disse esta segunda-feira à agência Lusa o presidente do município.

Os infetados fazem parte de um grupo de cerca de 30 imigrantes que residem em duas casas situadas na cidade e trabalham juntos em explorações agrícolas no distrito de Beja, explicou o presidente da Câmara de Serpa, Tomé Pires.

Após ter sido confirmada a infeção num dos imigrantes, foram feitos testes de despiste da presença do vírus da Covid-19 aos restantes elementos do grupo, tendo mais nove tido resultados positivos e os restantes negativos, disse.

Por indicação da autoridade de saúde, os cerca de 30 imigrantes foram divididos em dois grupos que estão separados e provisoriamente alojados em diferentes equipamentos municipais dedicados à Covid-19 na cidade de Serpa, sendo um grupo constituído pelos dez infetados e outro pelos restantes que tiveram resultados negativos nos testes, explicou.

Trata-se do terceiro surto de Covid-19 identificado nos últimos dois meses entre imigrantes trabalhadores agrícolas temporários residentes no concelho de Serpa, sendo que os dois primeiros estão resolvidos, disse Tomé Pires. Segundo o autarca, até domingo, no concelho de Serpa, havia registo de 124 pessoas infetadas pelo vírus da Covid-19, das quais 83 já recuperaram, 39 estão com infeções ativas e duas morreram.

Autarca quer lei para garantir condições de habitação a imigrantes

O presidente do município de Serpa defendeu a criação urgente de legislação nacional para garantir condições mínimas de habitabilidade a estas pessoas em Portugal.

“Urge uma legislação a nível nacional que dê resposta à situação problemática destas pessoas que vivem em Portugal sem condições mínimas de habitabilidade”, disse à agência Lusa Tomé Pires, presidente da Câmara de Serpa, no distrito de Beja. Segundo o autarca comunista, se Portugal precisa de imigrantes temporários para trabalhos em explorações agrícolas, “tem de criar condições para que vivam condignamente enquanto cá estão”.

Atualmente, não existe legislação específica que regulamente o alojamento de imigrantes trabalhadores agrícolas temporários, “o que faz com que muitas destas pessoas vivam em casas sem as mínimas condições, dentro de localidades ou em zonas isoladas, em situações desconhecidas e que dificultam a intervenção das autoridades”, lamentou.

Há casos de “dezenas de imigrantes a viverem numa única casa superlotada”, frisou, dando como exemplo um caso registado no concelho de Serpa de um grupo de “44 imigrantes que viviam numa só casa, onde, com muito boa vontade, podiam viver dez pessoas”.

Tomé Pires frisou que “há muito tempo” que a Câmara de Serpa tem vindo a manifestar a sua preocupação com a situação, que, atualmente, “é ainda mais preocupante”, devido à pandemia de Covid-19.

Segundo o autarca, Serpa “tem assistido a um aumento do número de casos de infeção” pelo novo vírus que provoca a Covid-19 e “uma das preocupações” do município é a propagação da doença entre comunidades de imigrantes temporários que residem no concelho e trabalham em explorações agrícolas.

De acordo com Tomé Pires, nos casos dos três surtos, o município “arranjou soluções” para alojar temporariamente tanto os trabalhadores infetados como os que testaram negativo para os separar e até permitir a desinfeção das casas onde vivem, “suportando os custos associados”.

“Quem traz estas pessoas para Portugal, quer sejam empresas de trabalho temporário, quer sejam os próprios empresários que necessitam da mão-de-obra, não revelam preocupação nenhuma” com os imigrantes quando aparecem casos de infeção pelo vírus da Covid-19, sublinhou.

Até hoje, nos casos dos três surtos, “não houve nenhuma empresa de trabalho temporário ou empresário que tenha criado condições para que não haja contacto entre quem está infetado e quem não está para evitar a propagação da doença”, lamentou.

“Essa responsabilidade, até hoje, tem sido suportada quase na íntegra pelo município”, afirmou, referindo que “isto não é nada justo, em primeiro lugar para os imigrantes, porque quem os contrata não devia preocupar-se apenas em ter mão-de-obra a um preço convidativo, devia preocupar-se também em garantir-lhes as devidas condições, quer no local de trabalho, quer na habitação, enquanto eles cá estão”.