A tendência actual da maior parte dos governos europeus vai no sentido de fazer uma primeira distribuição da vacina à população dos grupos de risco, mas num trabalho de um professor universitário e engenheiro químico espanhol, surgem evidências de que poderá haver benefícios em seguir outros critérios de distribuição, dada a escassez das vacinas que irão estar disponíveis.

O modelo de estudo conduzido pelo professor de Eng. Química, Javier Rodriguez, da Universidade Khalifa em Abu Dhabi , sugere que vacinar primeiro a população mais activa, que tem mais interações sociais, permitirá reduzir substancialmente o número total de óbitos face a um plano de vacinação tradicional, onde os mais vulneráveis têm prioridade na inoculação.

Aplicado a dados demográficos espanhóis, o modelo de Javier Rodriguez, que assume que é possível que as vacinas, para além de inocularem um indivíduo, também contribuam directamente na quebra das maiores cadeiras de transmissão, se administradas a uma população específica, contribuindo assim para que a criação de imunidade de grupo seja mais rápida, retirou estas conclusões.

A modelação matemática de processos biológicos é o foco deste cientista e das suas equipas e algo semelhante já teria sido alvo da reflexão de Rodriguez, quando em 2009 publicou na revista Science um trabalho sobre a gripe suína nos EUA, em que defendia estratégias similares – vacinar primeiro os mais novos, visto que se tratavam dos principais transmissores.

Rodriguez recusa-se indicar números em concreto, visto que o trabalho ainda terá que ser corretamente revisto pelos pares e ressalva que o seu estudo contempla apenas a população em geral e não os profissionais de saúde. Ainda assim, adianta que “os nossos resultados contradizem os planos de vacinação para a população geral e sugerem quase o inverso ao proposto. Se a vacina é também eficaz contra a transmissão [do Covid-19], o nosso modelo indica, de forma inequívoca, que a vacinação prioritária aos grupos da população com mais interações iria permitir a um país como Espanha uma redução enorme no número total de óbitos face a um plano
de vacinação orientado por critérios de mortalidade.”

O académico enfatiza que, de acordo com o seu modelo, “o critério primordial” não deve ser a idade. E acrescenta:

Se temos 10 vacinas e 30 pessoas, metade delas idosas, quem devemos vacinar primeiro? O senhor de 90 anos que passa a maior parte do seu tempo em casa, protegido ou a menina de 26 anos que trabalha num supermercado, onde atende esse idoso, a minha mãe e outros vizinhos? Se uma pessoa maior tem muitas interações também deveria estar no grupo prioritário. Se os transmissores são vacinados, cortam-se as transmissões independentemente da idade e acaba-se com a expansão exponencial da doença.”

Os cientistas disponibilizaram o código do seu programa de forma gratuita, o que permite que esteja disponível para qualquer um que o queira utilizar e, neste momento,  o governo dos EAU já requisitou uma aplicação do modelo aos dados do país.