Ao centro da sala encontra-se uma plataforma espelhada com cinco caixas também revestidas a espelho. O visitante sente-se convidado a espreitar pelas frestas das caixas, como se fosse o buraco da fechadura, e é então que se depara com miniaturas de cenários de teatro.

É esta a proposta do cenógrafo e arquiteto José Capela através da exposição Windows, que abre ao público nesta sexta-feira na Sala dos Passos Perdidos do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), em Lisboa. A entrada faz-se pela lateral do museu e custa seis euros, sendo gratuita aos domingos e feriados até às 14h00.

Trata-se de uma instalação de cinco metros por cinco, em acrílico e linóleo, que em junho do ano passado, com comissariado da Direção-Geral das Artes, representou Portugal na 14ª Quadrienal de Praga, considerada a mais importante mostra internacional de cenografia e arquitetura teatral. Tanto o dispositivo (a plataforma e as caixas de espelhos) como os cenários teatrais representados têm assinatura de José Capela.

José Capela nomeado para representação portuguesa na Quadrienal de Praga 2019

Pela primeira vez, a instalação está à vista em Portugal, mas numa versão ligeiramente diferente da que viajou até à Chéquia. Os cenários que o visitante pode espreitar são agora outros e procuram ligação à arte antiga. “Estas cenografias são feitas de imagens do património, o que é um claro diálogo dos materiais visuais dos cenários com a temática deste museu”, disse o autor durante uma visita guiada à imprensa na quinta-feira de manhã.

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Windows é a primeira de várias exposições temporárias de arte contemporânea que o MNAA vai organizar nos próximos meses. “A direção do MNAA está interessada em desenvolver este género de exposições. A Sala dos Passos Perdidos era parte integrante das nossas grandes exposições. Tendencialmente, deixará de ter essa função e passará a contar com intervenções de artistas contemporâneos, que cruzam olhares com a coleção do MNAA”, informou o diretor-adjunto da instituição, durante a visita da imprensa.

Ao Observador, Anísio Franco acrescentou que as propostas da Sala dos Passos Perdidos podem tomar a forma de acolhimentos ou de criações de raiz. As próximas já estão decididas, mas a divulgação só será feita nas vésperas de cada inauguração, disse o diretor-adjunto. Também presente na visita esteve Maria João Soares, subdiretora da Direção-Geral das Artes.

[instalação Windows esteve em Praga no verão do ano passado]

Ver uma coisa do lado de fora

As caixas espelhadas, a que José Capela chama “contentores”, procuram “refletir, de um modo um pouco especulativo, os mecanismos de visão que são explorados nos cenários que estão lá dentro”. Ou seja, temas como a perspetiva e a visão, a construção geométrica e a maneira como o público está habituado a olhar para o palco.

“Faz-se cenografia para muitos espaços diferentes, é um campo muito aberto e interdisciplinar, não estamos numa época em que se possa entender a cenografia como fazer cenários para um palco”, explicou o criador. “No entanto, esta é uma exposição que entende a cenografia de um modo tradicional, a cenografia de palco. Vejo um paralelismo muito forte entre a ideia de o público do teatro estar fora do palco a ver um espetáculo pela janela, que é o arco do proscénio, e o estarmos permanentemente a olhar para uma janela, seja o ecrã do telefone ou do computador. A ideia de que estamos a ver uma coisa do lado de fora e temos contacto com essa coisa através de uma janela é comum à nossa vivência quotidiana.”

Conhecido como fundador e diretor artístico do grupo portuense de teatro Mala Voadora (ao lado de Jorge Andrade), José Capela é professor na Escola de Arquitetura da Universidade do Minho e estreou-se na cenografia precisamente com a Mala Voadora, em 2003. “Não sou unicamente um profissional da cenografia, faço cenografia por prazer e porque me diverte e tenho esperança de que possa divertir o público”, resumiu. “A cenografia é um campo de liberdade e é aí que gosto de a manter.”

A acompanhar a instalação, como parte integrante dela, encontra-se um catálogo bilingue, português-inglês, que é em rigor um livro de fotografia com 260 páginas. As imagens são assinadas por José Carlos Duarte, colaborador da Mala Voadora, e dão a conhecer o trabalho de José Capela nos últimos 16 anos. A ministra da Cultura, Graça Fonseca, assina um texto nas páginas inicias do catálogo, onde se refere a Windows como “um olhar atento ao teatro enquanto mecanismo de ilusão” e a José Capela como “exemplo maior do tanto que a dramaturgia portuguesa deve à imaginação dos cenógrafos”.

A instalação mantém-se no MNAA até 28 de fevereiro, depois vai ao Porto para se apresentar no espaço da Mala Voadora, de 12 de março a 4 de abril de 2021, e também aí os cenários exibidos estarão adaptados ao contexto.