A história

Quando Bruno Caseiro e Filipa Gonçalves aterraram no Cavalariça na Comporta, em 2017, depois de um período gastronómico em Londres, já vinham com a intenção de abrir um espaço na capital portuguesa. O desafio, que demoraria cerca de três anos a cumprir, encontrou forma e espaço no Cais do Sodré — e nem uma pandemia o conseguiu travar, sobretudo a julgar pela afluência no dia em que o Observador visitou o restaurante.

O Cavalariça versão lisboeta e pop up vai estar aberto, se tudo correr bem, até ao final de março do próximo ano. O projeto é, de certa forma, encarado como um test-drive para o real deal, uma vez que Bruno e Filipa — juntamente com o sócio inglês Christopher Morell — equacionam abrir um espaço permanente na cidade. A morada já está escolhida: será no Largo Luís de Camões, sendo que as obras arrancam em 2021.

A vontade em ter um restaurante em Lisboa estava alicerçada ao receio de que o espaço na Comporta sofresse muito com a sazonalidade, uma realidade não observada e combatida com rigor graças à visibilidade que o projeto recebeu.

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Mas, para aqui chegarmos, as vidas de Bruno e Filipa deram uma grande volta. Conheceram-se na Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa, mas só muito mais tarde tornaram-se num casal (noutra vida Bruno foi até psicólogo). A cozinha juntou-os em Londres — ele estagiou n’O Viajante, projeto de Nuno Mendes, e ela com a chefe de pastelaria Sarah Barber no ME London, entre outros projetos onde chegaram até a trabalhar juntos —, mas foi em Portugal que encontraram um projeto onde brilhar com mais intensidade.

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O espaço pop up do Cavalariça está aberto até março do próximo ano (©DR)

O espaço

O restaurante que veio da Comporta trazer alguns sabores já familiares para muitos foodies ocupou-se do antigo Optimista, na concorrida rua da Boavista, onde funcionou entre 2017 e 2020. O projeto de arquitetura é de Jorge Guimarães e o de interiores ficou a cargo de Rita Andringa, designer de interiores e sócia do antigo Optimista. A decoração permaneceu inalterada e inclui a presença inigualável da Pureza, isto é, a cabeça de um unicórnio presa à parede que, curiosamente, serve de divisória entre a sala e a cozinha/bar.

Ao contrário do que acontece na Comporta, este é um espaço bastante mais urbano, dominado por tons terra, texturas e jogos de luz que produzem um ambiente intimista mesmo em plena luz do dia. Os grandes quadros pendurados nas paredes — fotografias de Duarte Netto e Márcio Vilela, obras de Valter Ventura, um díptico de Manuel Caeiro e uma aguarela de Duda Moraes — ajudam a compor o cenário e criam pontos focais aditivos.

O projeto de arquitetura é de Jorge Guimarães e o de interiores ficou a cargo de Rita Andringa, designer de interiores (©DR)

Os arcos, o mosaico hidráulico do pavimento, o lambril em pedra e o pé direito alto ajudam a contar a história daquela que foi, noutra vida, uma antiga loja de motores elétricos. As almofadas coloridas emprestam-lhe ainda uma vivacidade moderna. E depois da zona de refeições, lá ao fundo, fica a cozinha apenas separada do resto da sala por uma parede de vidro, pelo que é possível ficar com um olho na confeção.

A comida

Nesta edição lisboeta do Cavalariça a cozinha adota um estilo mais bistro, dado o ambiente urbano onde é servida, e pratos que habitualmente eram para partilhar são, agora, apresentados numa versão mais individualista (nada que impeça, no entanto, o cliente de ir petiscando ali e acolá). Apesar das diferenças na carta marcada por muitos pratos novos — ainda que algumas propostas sejam revisitadas com um twist —, a dupla continua a primar pelos produtos da época e por produtores previamente selecionados.

Croquetes de cachaço de porco alentejano com maionese, amêijoa e mostarda, servidos à unidade, mas também o brioche torrado, parfait de fígados de galinha e chutney de laranja (em conjunto com os croquetes é um dos pratos mais icónicos do Cavalariça; deve ser comido tal qual uma sanduíche de maneira a saborear integralmente todas as camadas) e o tortellini de galinha, cogumelos silvestres e caldo de presunto são boas propostas de arranque.

Nos pratos principais salta à vista a abóbora hokkaido bio assada, com castanha, cevada e leitelho — resulta do aproveitamento do soro que resta da manteiga do couvert, fermentada no restaurante pela equipa. Importante é não esquecer o mil-folhas de batata, pimenta preta e toucinho de porco fumado caseiro, uma reinterpretação das famosas batatas fritas do Cavalariça na Comporta, cuja confeção tem em conta a técnica das três cozeduras celebrizada pelo chef britânico Heston Blumenthal.

A cozinha adota um estilo mais bistro, dado o ambiente urbano onde é servida, e os pratos são de carácter mais individual (© DR)

Pêra escaldada, pistáchio caramelizado e redução de romã, choux de castanha e cogumelos e parfait de baunilha e ainda bolo de sésamo negro e merengue compõem a sobremesa. Embora em Lisboa não haja serviço de take-away, ao contrário do que acontece na Comporta, o pão caseiro de fermentação lenta continua a ser vendido para fora. Na carta há ainda produtos tão diversos como o porco alentejano da Salsicharia Estremocense, o salmonete do Algarve ou o sarrajão dos Açores.

O que interessa saber

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Nome: Cavalariça
Abriu em: 24 de novembro de 2020
Onde fica: rua da Boavista 86, Lisboa
O que é: um restaurante pop up irmão do Cavalariça, aberto na Comporta desde 2017
Quem manda: Bruno Caseiro, Filipa Gonçalves e Christopher Morell
Quanto custa: cerca de 35 euros por pessoa sem bebidas e 50 euros com bebidas
Uma dica: o restaurante é em formato pop up, só o pode visitar até ao final de março
Contacto: 213 460 629
Horário: de segunda a sexta, das 12h30 às 15h30 e das 18h30 às 22h30
Links importantes: site

A carta de vinhos é feita essencialmente a pensar na região vitivinícola de Lisboa, considerando rótulos biológicos e biodinâmicos. A escolha está a cargo do chefe de sala, sommelier e mixologista Fábio Nobre, pessoa de extrema confiança de Bruno e Filipa e que, na ausência do casal, fica aos comandos do restaurante.

“Cuidado, está quente” é uma rubrica do Observador onde se dão a conhecer novos (e renovados) restaurantes.