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Por alguns momentos foi novamente possível viver o ambiente entusiasta de uma campanha eleitoral na Baixa da Banheira, em Setúbal. João Ferreira, que tem evitado ao máximo comentar ou responder a “populismos” e a quem “ataca a Constituição” fez um discurso empolgado em terreno comunista e a assistência respondeu com entusiasmo. Para apoteose só mesmo uma “carta na manga”, ou na versão do candidato: “Constituição no bolso”.

Depois de o candidato da direita atacado todos os adversários na corrida, num tom muito pouco comum, João Ferreira disse que ia manter-se afastado de “despiques estéreis” e afirmou que não se ia “desviar um milímetro” desse objetivo, mas com uma onda de solidariedade a Marisa Matias — na sequência do ataque de Ventura — a escalar nas redes sociais, João Ferreira avançou para a resposta. Diz o candidato que as “manifestações de ódio, insultos, má educação grosseira e desbragada” não têm como alvo qualquer candidato, mas sim a Constituição da República Portuguesa.

E vai mais longe (ainda que assegure que o discurso utilizado por Ventura não vai mudar a sua atitude) para dizer que quem tem mantido essa postura “odeia o Portugal que está inscrito nas páginas da Constituição” que, aliás, “quer combater”. Enquanto João Ferreira acenava com Constituição da República Portuguesa os camaradas cheios de entusiasmo gritavam: “João avança, com toda a confiança”.

Esta manhã, João Ferreira já tinha ensaiado uma resposta mais discreta a André Ventura. Sem mencionar o candidato apoiado pelo Chega, João Ferreira tinha falado daqueles que “tentam instrumentalizar a revolta que os portugueses sentem”. Uma instrumentalização que, disse, não é feita para resolver os problemas que estão na origem dessa revolta, mas sim para continuar com “políticas iguais às que criaram os problemas”.

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“É necessário recuperar essas pessoas revoltadas e é com esperança que combatemos a desesperança. É necessária uma mudança de políticas, temos de resgatar para o controlo público democrático as empresas estratégicas para o país, das quais dependem setores estratégicos para o país”, afirmou João Ferreira para mostrar que não é insensível ao facto de eleitores descontentes estarem a migrar para opções políticas opostas às suas. E, decidido a segurar os eleitores, decidiu subir ao o tom em terreno comunista ao final da tarde.

Na ação que decorreu na Baixa da Banheira, ainda se ouviu muita contestação ao novo aeroporto do Montijo. Num tom irónico, sempre que a expressão era “aeroporto do Montijo” os intervenientes (quer o presidente da junta de freguesia da Baixa da Banheira, quer João Ferreira) corrigiam para “apeadeiro do Montijo”, notando que a solução sempre defendida pelo PCP do Campo de Tiro de Alcochete é a única solução possível para resolver o problema do aeroporto da Portela, em Lisboa.

Antes de atravessar para a margem sul do Tejo (onde passará parte do fim de semana), João Ferreira deixou o Minho para trás. Com uma primeira paragem em Coimbra para ouvir trabalhadores dos CTT e profissionais da saúde. O candidato, apoiado pelo PCP e PEV, já tinha dito que a partir do momento em que o confinamento geral começasse a campanha seria ao lado de quem não pode fechar-se em casa e está a cumprir.

Começou o dia numa das avenidas principais de Coimbra, com um grupo de trabalhadores dos CTT a lamentar as condições de trabalho “muito piores” agora do que no tempo da gestão estatal. “Os ordenados são piores, as horas de trabalho muito mais”, lamentava um deles enquanto António Pereira, também funcionário da empresa, deixava ainda um alerta: “as pessoas pagam taxas como as do correio azul e não estamos a cumprir o que é suposto, estão a pagar por algo que não é feito”.

Segundo os funcionários há atrasos na distribuição postal de “semanas”, que podem chegar “a um mês” depois do aumento de trabalho que se criou com a pandemia da Covid-19 e o primeiro confinamento. Impedidas de sair de casa, a generalidade das pessoas passou a fazer mais compras online e a recorrer mais ao serviço postal do país. Serviço esse, como lembrou João Ferreira, que conta mais de 500 anos de existência e que estão a ser destruídos com a gestão privada. “Os CTT chumbam nos critérios definidos pela ANACOM é incompreensível que se renove a concessão quando a empresa não cumpre”, afirmou João Ferreira frisando que “é essencial” que o Estado recupere o “controlo público democrático dos correios”.

E em clima de “catástrofe” — na expressão utilizada pela administração do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra — João Ferreira ouviu Francelina Cruz, auxiliar de ação médica, perguntar “quem cuida dos profissionais de saúde”. Depois de meses a fio a “cuidar dos portugueses”, os profissionais alertam também para o facto de não terem tempo para “cuidar da família” também ela doente e com necessidade de atenção.

O pedido de reforço de profissionais não cessa, dos auxiliares de ação médica aos enfermeiros. Paulo Anacleto, enfermeiro no hospital Sobral Cid, diz que a pandemia só veio colocar em evidência o erro que foi a fusão dos hospitais de Coimbra. “No hospital dos Covões há doentes a esperar 7, 8 e 9 horas na ambulância para dar entrada na urgência. É uma situação calamitosa, a própria administração fala em catástrofe”, alertou o profissional.

Da parte de João Ferreira a garantia de que, na condição de Presidente da República, tudo fará para garantir “a compatibilização da vida profissional e pessoal e do direito à saúde através do Serviço Nacional de Saúde”, conforme está inscrito na Constituição.

Na última ação do dia, João Ferreira esteve com trabalhadores da recolha de resíduos, em Palmela. Uma vez mais, pode ouvir lamentos de más condições de trabalho, horários desregulados e baixos salários. A ação, no primeiro dia em que foi imposto novamente aos portugueses a obrigatoriedade de ficar em casa, pretendia também alertar para o “trabalho invisível” que os trabalhadores deste setor desempenham diariamente.

Artigo atualizado ao longo do dia