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Fernanda Simões nem queria falar na sessão dedicada às mulheres, estava “demasiado emocionada” para ir ao púlpito partilhar algumas palavras. Mas lá acedeu ao convite, de pé no lugar, explicou o motivo da emoção. Tem 83 anos é “comunista há muitos anos e tem lutado por um país mais humano”. Conta que a primeira vez que viu o candidato presidencial foi em Bruxelas, quando integrou uma delegação de mulheres que foram ao Parlamento Europeu.

Esta quarta-feira em São João da Madeira relatou emocionada o que lhe aconteceu há pouco tempo no cabeleireiro. “Estava uma jovem de 19 anos a dizer que ia votar em André Ventura porque era preciso haver, pelo menos, meia mão do Salazar”, começou por partilhar acrescentando que lhe perguntou a idade e a idade dos pais que já não viveram “nesse tempo”. Fernanda Simões aconselhou-a a ir procurar coisas sobre o Tarrafal, mas marchas da fome e a guerra colonial e nesta quarta-feira partilhou a história com João Ferreira que foi acenando com a cabeça.

“Temo muito porque continuo a ver na televisão muitos jovens que vão atrás de ilusões que são muito perigosas”, disse ainda Fernanda Simões agradecendo a João Ferreira ser “um homem de esperança para todos”. João Ferreira falou em seguida, respondeu com memória aos perigos para os quais Fernanda tinha alertado. Lembrou Maria Lamas, resistente antifascista, mas sem se alongar e no meio da enumeração de outros momentos em que sinalizou a importância das mulheres e a necessidade de promover a igualdade entre homens e mulheres.

Destacou a necessidade ainda existente de que haja uma “genuína partilha de tarefas entre homens e mulheres” e que não se continuem a verificar “retrocessos” que a Constituição nem sequer admitiria.

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“O Presidente da República tem de conhecer a realidade, tem que se identificar com as dificuldades sentidas por estas mulheres quando ainda continua a ser aquela versão em que alguns homens ajudam. Não é isso que a gente quer, o que a gente quer é uma genuína partilha de tarefas entre homens e mulheres”, apontou João Ferreira que aproveitou a presença de Cristina Tavares na plateia para lamentar que Marcelo nunca tenha recebido a funcionária da corticeira (que foi despedida e depois reintegrada) ou as trabalhadoras da Triumph. “Esqueceu-se de dar os afetos a estas mulheres trabalhadoras que o momento que estavam a viver exigia”, atirou João Ferreira.

Antes da sessão no museu da Chapelaria, João Ferreira já tinha tido um “encontro surpresa”, que de surpresa teve pouco, com Cristina Tavares na estação de comboios da cidade. “Não me esqueço das pessoas que me ajudam e fazem bem”, disse a trabalhadora para depois ouvir elogios de João Ferreira: “A Cristina Tavares consegue personificar os valores desta campanha. A confiança, a coragem, a esperança”.

Mas esta tarde houve espaço para mais temas na campanha de João Ferreira. Todos eles revisitados, incluindo os protagonistas das ações.

“- O senhor já não se deve lembrar, mas já estive consigo há muitos anos!

– Está a ver, eu não cheguei aqui hoje.”

Quem recordou João Ferreira de encontros anteriores foi o dono da exploração agrícola que o candidato visitou ao início da tarde desta quarta-feira. Afinal, além de agricultor também é homem do mar e esteve envolvido na defesa da Arte Xávega, uma técnica de pesca centenária que ainda sobrevive em algumas praias do país. Ainda que esta quarta-feira o tema fosse a terra, João Ferreira aproveitou a dica inicial de Silvino Tomás para puxar dos galões: não chegou ao contacto com a população hoje, nem os alertas que deixa durante a campanha eleitoral são coisas novas.

Nesta reta final da campanha voltou à problemática da falta de apoios a pequenos agricultores, que são ultrapassados por concorrência estrangeira a preços mais baixos. “Já nem as cooperativas nos valem”, lamentou Silvino Tomás notando que as antigas cooperativas, constituídas apenas por agricultores agora têm também os comerciantes como associados. Lamentou que essa concentração dos vários agentes da cadeia entre a produção e a venda o prejudique porque “já não é agricultor que manda”.

E quem mandou, foi Passos Coelho, recordou João Ferreira depois de uma curta viagem na linha do Vouga. Embarcou em Oliveira de Azeméis e saiu em São João da Madeira numa estação visivelmente degradada e onde a circulação de comboios é pequena. Ferreira fez questão de lembrar que foi intenção de Passos Coelho “encerrar a linha”. Atualmente há pontos da linha onde já não há sequer os carris, que foram arrancados. Ainda assim, a intenção de Passos Coelho não foi avante e parte da linha já foi reabilitada, mas ainda falta o troço entre Aveiro e Espinho e João Ferreira fez questão de o assinalar.

A promessa da primeira visita do Presidente da República e as sondagens simpáticas

O frio que se fazia sentir e o som do mar agitado não demoveram os muito acostumados pescadores de esperar por João Ferreira no porto da Póvoa de Varzim para recordar todos os problemas que enfrentam. Sejam as proibições de pesca da sardinha ou os desejos “de ministros do Mar” que do mar pouco revelam saber (ao sugerir que se opte por um tipo de peixe em detrimento de outro, como se isso dependesse da vontade de quem lança as redes ao mar), João Ferreira lá esteve a dar cartas no conhecimento sobre pesca.

Experimentado que está em visitas a portos (!acho que pus um pé em todos os portos deste país, de norte a sul”, confidenciou), lá apresentou a distinção do tipo de embarcações que saem do porto — polivalentes ou de pesca de cerco — e das espécies que pescam aos mais desconhecedores de papel e caneta na mão: barcos e tripulações de cerco trazem peixes que vivem em cardume (sardinha, carapau, biqueirão) e dos barcos polivalentes, tal como o nome indica, as possibilidades de pesca são maiores. Feitas as explicações, com a chuva a espreitar e a dar o ar da sua graça, João Ferreira fez uma promessa para primeira visita caso seja eleito Presidente da República.

Com instalações recentemente inauguradas, mas onde João Ferreira optou por não ir para manter a ação ao ar livre, para maior segurança de todos, não fugiu do convite de lá voltar e disse mais: “Pode ser que seja o primeiro sítio que visite enquanto Presidente da República”. As sondagens desta quarta-feira dão-lhe 5% das intenções de voto, mas João Ferreira compara-as com as primeiras “ainda menos simpáticas” e diz que tem esperança que no dia 24 “sejam ainda mais simpáticas”.

Artigo atualizado ao longo do dia