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“Desculpem os erros que cometi — nunca consegui desencantar vacina contra alguma propensão marginal para a asneira…”. Foi de forma humorada e até emotiva que Ana Gomes fechou o ciclo das presidenciais numa carta enviada esta quarta-feira a todos os apoiantes e membros da equipa que a acompanhou na campanha eleitoral que terminou no passado domingo.

A carta de quarto páginas, a que o Observador teve acesso, percorre todos, da filha Joana ao enteado Diogo, passando pelos autarcas e deputados do PS, membros do Livre e do PAN, amigos e conhecidos que até aulas de “dicção” lhe deram, e culmina no agradecimento aos ecos que o “bom PS” lhe fazia chegar.

“A candidatura começou a parecer possível quando senti que o Paulo Pedroso estava disposto a dar o litro, organizativa e politicamente, como deu. E por ter o Rui Tavares e a Marta a incitarem-me, de um lado, o Manuel Alegre de outro, a Joana e o Marco Melo Antunes de outro ainda. E a Cristina Chéu e o Hugo Mendes a ecoar o que o bom PS também me fazia chegar”, lê-se na missiva, onde, mais à frente é dado um nome a esse “bom PS”.

Trata-se do PS de Manuel Alegre, de João Cravinho ou de José Vera Jardim, mas também dos autarcas socialistas e deputados que estiveram ao seu lado e que Ana Gomes enumera um a um no parágrafo mais extenso da carta. No fim, resume que PS é esse:

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O PS atido a princípios, valores e ideais, capaz de discernir o perigo para a democracia, resistente a sucumbir aos taticismos do centrão dos interesses. O PS de Duarte Cordeiro e Pedro Nuno Santos que tão importantes foram para correr esta maratona”.

Nem uma palavra para o resto do PS — o de António Costa, que criticou na noite eleitoral. O resto dos agradecimentos foi para Rui Tavares e Isabel Mendes Lopes, do Livre, André Silva e Inês Sousa Real, do PAN, para os “velhos amigos”, todos enumerados um a um, Carlos Vargas, Paulo Pedroso e até para “a Teresa que me mandou o Rui para ajudar a melhorar-me a…dicção”. A todos, Ana Gomes pede desde já “desculpa” pelos “erros” que cometeu. E ironiza com uma referência à gafe da campanha: “Nunca consegui desencantar vacina contra alguma propensão marginal para a asneira…”

Uma palavra também para a filha Joana “que sempre esteve contra a aventura e foi espingardando q.b. mas nunca a bloqueou”, e para o enteado Diogo que “acabou a conduzir-me por esse Portugal fora”.

Também para Francisco Assis que a lançou, e para o falecido marido António Franco com quem teve uma conversa decisiva, em julho, para avançar na corrida. “E assim avançamos, estrada fora, quatro num carro: bastou”, diz ainda a socialista sublinhando que a campanha foi “frugal” como tinha antecipado, e só não teve mais afeto porque a “malvada pandemia” não deixou.

Não deixar os eleitores de Ventura para trás

Numa espécie de balanço da campanha que começou no final do verão do ano passado, Ana Gomes termina a carta a dizer que gostou “francamente de fazer campanha, a andar para norte e para sul, para leste e oeste, pelas nossas estradas, aprendendo  com gente de trabalho, de força e de inventiva” e dá a entender que o trabalho não ficou terminado.

“Aprendi que só há progresso se se cumprir Abril, se corrigirmos o que está mal, o que não funciona ou acabou pervertido, se cuidarmos de regenerar a democracia, se não deixarmos ninguém para trás, a começar pelos quinhentos mil que tão perigosamente nos aventuram porque se sentem excluídos“, diz, numa referência implícita aos cerca de 500 mil portugueses que votaram em André Ventura e que, no seu entender, o fizeram não por terem “ambições sinistras da ultra-direita” mas por não estarem satisfeitos com o funcionamento do atual sistema.

A referência aos eleitores de Ventura continua no parágrafo seguinte, o último da carta. “Não sei o que se passará durante os anos que me restam de vida — é medonho descobrir quinhentos mil ressentidos que votam sem cuidar de que avantajam ambições sinistras da ultra-direita”, escreve Ana Gomes, acusando depois “quem nos governa” de não mudar o que está errado e, com isso, acabar a “fazer o jogo dos inimigos da democracia”.

Não quero pensar que até possamos acabar por voltar ao impensável…”, sugere ainda a ex-eurodeputada socialista numa referência aos tempos da ditadura. “[O país] há-de melhorar, que este nosso povo é criativo e resistente”.

Ana Gomes, que tinha terminado o discurso na noite eleitoral com um “até uma próxima”, não diz se vai andar por aí. Fica a valer o que disse antes: reformar-se da política e da vida cívica era coisa que não ia fazer.