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Numa semana em que ambas as equipas garantiram a passagem às meias-finais da Liga dos Campeões, a grande história que antecipou o confronto entre o Chelsea e o Manchester City, a contar para as meias-finais da Taça de Inglaterra, recordava o momento em Roman Abramovich tentou contratar Pep Guardiola quando este ainda estava no Barcelona. Guardiola recusou as cinco propostas do dono dos blues e seguiu para o Bayern Munique — e o resto, literalmente, fez história.

Mas, pelos pingos da chuva, apareceu outro episódio: sendo que este é, de certa forma, menos abonatório para o treinador catalão. Yaya Touré, o antigo médio costa-marfinense que foi capitão do Manchester City e é ainda hoje uma das grandes figuras da era recente dos citizens, revelou que decidiu pedir desculpa a Guardiola por uma entrevista polémica que deu em 2018 — mas ainda não obteve resposta.

“Quando acontece algo que é errado e cometes um erro, ou quando as pessoas usam o teu nome e usam-te para fazer algo de errado, tens de reparar as coisas. E isto foi errado. Queria pedir desculpa pelo que aconteceu, queria pedir desculpa por ter feito algo de errado. Decidi que ia tentar comunicar com as pessoas mais importantes do clube, para pedir desculpa e dizer que fui indecente para o clube. Desde aí, tem sido uma espera muito, muito longa por uma resposta, que ainda não chegou. E, claro, se ele se sente assim, não posso fazer nada. Claro que tenho estado em contacto com outras pessoas do clube. Mas com as pessoas de topo, é impossível”, explicou Touré ao The Athletic, acrescentando que enviou a tal carta a Guardiola e também a Khaldoon Al Mubarak, o presidente do Manchester City.

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Ora, mas porque é que Yaya Touré acredita que tem de pedir desculpa a Guardiola? Tudo começa em 2018, um mês depois de o médio terminar a carreira, quando este decidiu dar uma entrevista à France Football e defender que o sucesso do treinador era baseado num “mito”. Mas foi mais longe, demasiado longe, garantindo que o catalão fez tudo para “estragar” a última época de Touré e acusando-o até, por outras palavras, de ser racista. “Ele insiste que não tem problemas com jogadores negros porque é demasiado inteligente para ser apanhado. Mas quando percebes que ele teve problemas com africanos em todos os sítios por onde passou, começas a fazer perguntas. Ele nunca vai admitir. Mas no dia em que ele lançar um onze que tenha cinco africanos que não sejam naturalizados, prometo que lhe mando um bolo”, atirou o costa-marfinense, que faz agora um mea culpa e garante que “confia demasiado” nos outros, defendendo que a versão original da entrevista sofreu algumas alterações.

Ora, este sábado, o Manchester City defrontava então o Chelsea em Wembley, na primeira meia-final da Taça de Inglaterra. Rúben Dias e João Cancelo eram ambos titulares, com Bernardo Silva, Gündoğan e Phil Foden a começarem todos no banco, e Guardiola mantinha-se fiel à ideia de mudar o guarda-redes nas competições internas, apostando no norte-americano Zack Steffen ao invés de Ederson. Do outro lado, Thomas Tuchel colocava Kanté e Jorginho no banco e apostava em Ziyech e Mason Mount no apoio mais direto a Werner — Pulisic, titular no jogo da segunda mão dos quartos de final da Champions contra o FC Porto, começava no banco, assim como Havertz.

A primeira parte terminou sem golos, apesar de Ziyech ter tido um golo anulado logo nos instantes iniciais devido a um fora de jogo (6′), e o Chelsea mostrou-se sempre superior ao Manchester City. As principais oportunidades até ao intervalo pertenceram aos blues e os citizens não conseguiam implementar a habitual vertigem e criatividade, com inúmeros passes falhados e mal medidos na construção dos ataques. O encontro tornou-se ainda mais complexo para o City nos primeiros minutos do segundo tempo, quando De Bruyne se lesionou no tornozelo depois de um lance com Kanté — o médio belga foi substituído por Phil Foden e a equipa de Guardiola ficou desde logo desprovida daquele que é o grande pensador do jogo dos citizens.

O golo, esse, apareceu logo depois. Numa transição muito rápida, Mason Mount soltou a velocidade de Werner na esquerda e o alemão aproveitou o adiantamento de Zack Steffen, no interior da grande área, para assistir Ziyech, que só precisou de encostar para a baliza deserta (55′). No lance, não deixa de ficar a ideia de que o guarda-redes norte-americano poderia ter feito muito melhor, já que estava adiantado no início da jogada e não recuou para blindar a baliza, permitindo o passe letal de Werner. Guardiola voltou a mexer ao trocar um apagado Ferran Torres por Gündoğan e Tuchel respondeu com Pulisic, que rendeu Mount, e ainda Havertz e Emerson, que substituíram Werner e Ziyech.

Até ao fim, porém, já nada aconteceu. O Manchester City perdeu em Wembley com o Chelsea e não só falha a final da Taça de Inglaterra como desperdiça a oportunidade de lutar pelos quatro troféus que tinha à disposição, entre Liga dos Campeões, Premier League e Taça da Liga. Já o Chelsea segue para o jogo derradeiro da competição e fica à espera de conhecer o adversário, entre Leicester e Southampton, que jogam este domingo. Pep Guardiola disse na antevisão que ia novamente apostar em Zack Steffen, em detrimento de Ederson, porque era uma decisão que poderia fazer com que perdesse o balneário — no fim, não perdeu o balneário mas perdeu a Taça.