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A atriz Maria João Abreu está hospitalizada depois da rotura de um aneurisma cerebral e mantém-se com um prognóstico reservado. A rotura de um aneurisma localizado no cérebro é uma situação grave e preocupante, mas cerca de um terço dos doentes que sofreram uma hemorragia no seguimento desta situação tem uma boa recuperação, sem sequelas, diz ao Observador Tiago Baptista, neurorradiologista de intervenção no Hospital CUF Tejo.

Um vez roto, o aneurisma terá de ser tratado, porque a probabilidade de voltar a romper aumenta nos dias seguintes, mas nem todas as pessoas com aneurisma cerebral intacto têm de fazer tratamento.

Maria João Abreu sofreu de aneurisma durante gravações de novela

O que é um aneurisma cerebral?

O aneurisma cerebral é uma dilatação da parede de uma artéria — neste caso, no cérebro. O mais comum é que tenha a forma de um saco (dilatação sacular) e ocorra na bifurcação de uma artéria. Outros tipos de aneurismas, menos comuns, são os aneurismas fusiformes (com a forma mais próxima de um losango e mais comuns nas artérias posteriores do cérebro) e os aneurismas dissecantes (em que o sangue circula num canal paralelo e que podem estar relacionados com traumatismo).

Como surgem os aneurismas cerebrais?

“Ainda não está totalmente esclarecido como e porque é que surgem os aneurismas cerebrais”, diz Tiago Baptista. Mas existem alguns fatores de risco conhecidos, como algumas alterações genéticas (como associadas à formação do tecido conjuntivo) ou mesmo o facto de ter sido detetado em familiares próximos.

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Nestes casos, as pessoas devem fazer um rastreio. Se for detetado algum aneurisma, mesmo que ainda não tenha recomendação para ser tratado, a pessoa deve ser seguida para avaliar a evolução deste.

É possível prevenir?

Quando a origem é familiar (ou genética em geral) é difícil prevenir o aparecimento dos aneurismas cerebrais, até porque a origem ainda não é bem conhecida. Para os outros casos, a melhor forma é manter um estilo de vida saudável e evitar os principais fatores de risco, tabagismo e hipertensão, diz o neurorradiologista.

Sobre o tabagismo, o médico acrescenta que a recuperação se torna mais difícil, porque aumenta o risco de vasospasmo — que provoca lesões semelhantes ao acidente vascular cerebral (AVC), ainda que com uma origem diferente.

Quando deve ser tratado?

Os aneurismas cerebrais rotos devem ser tratados, diz Tiago Baptista. Ainda que o tratamento (cirúrgico ou não cirúrgico) possa ter alguns riscos, o risco de um aneurisma roto voltar a romper nos dias seguintes aumenta 2% a cada dia que passa.

Em relação aos aneurismas cerebrais que não sofreram rotura, a decisão depende do tamanho (abaixo dos sete milímetros, o risco de rotura é menor), da localização (os que se formam na parte posterior do cérebro têm maior risco de romper) e da evolução (se o aneurisma se mantiver estável em termos de tamanho, o risco de rotura é menor).

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Que tipo de tratamentos existem?

Existem dois tipos de tratamento, um realizado pelas equipas de Neurocirurgia (cirurgia) e o outro pela Neurorradiologia (endovascular), mas o objetivo é o mesmo: evitar a rotura do aneurisma, diz o médico. De certa forma, ambos os tratamentos atuam da mesma maneira: impedem que a circulação sanguínea intracraniana continue a passar pelo aneurisma.

A cirurgia implica a abertura da cabeça para se chegar ao saco formado na parede da artéria, onde é colocado o clip cirúrgico para fechar o saco. Depois, o aneurisma seca e desaparece.

O tratamento não-cirúrgico implica a colocação de um cateter (um tubo de plástico fino) desde uma artéria na perna ou no braço até ao local do aneurisma cerebral, dentro do qual são colocadas espiras metálicas que provocam um coágulo sanguíneo. No fundo, é fechar o saco por dentro em vez de o fechar por fora com o clip cirúrgico.

O tipo de tratamento depende do tamanho, forma e localização do aneurisma, podendo a cirurgia ser mais aconselhada que o cateter ou vice-versa. Mas nos casos em que se podem usar ambas as técnicas, “aqueles que são tratados por via endovascular têm maior probabilidade de terem menos complicações no futuro”, diz Tiago Baptista, sobre a técnica na qual é especializado.

Quais os riscos associados aos tratamentos?

No caso de um aneurisma roto, os riscos dos tratamentos são consideravelmente menores do que o risco de sofrer uma nova rotura. Mas no caso dos aneurismas intactos é preciso pesar os benefícios da intervenção com os riscos associados.

No caso da abordagem endovascular, e especificamente para aneurismas rotos, há 6% de probabilidade de se verificar uma complicação do tipo do AVC e 4% de hipótese de o aneurisma voltar a romper durante a intervenção, explica o neurorradiologista.

Que sintomas estão associados à presença do aneurisma ou da sua rotura?

Os aneurismas cerebrais intactos são normalmente assintomáticos ou, pelo menos, não provocam dor de cabeça (cefaleia). Mas quando são de maiores dimensões podem exercer pressão sobre estruturas nervosas e causar um défice nervoso, limitação do olhar ou pálpebra descaída, diz o médico.

Já no caso da rotura do aneurisma cerebral, “a manifestação mais frequente é uma cefaleia muito intensa”. “As pessoas descrevem-na com a pior dor de cabeças das suas vidas”, diz Tiago Baptista. “Não deixa margem para dúvidas.”

Qual a probabilidade de recuperação?

Tiago Baptista diz que o prognóstico dos doentes depende muito do estado em que chegam aos cuidados médicos e como evoluem na primeira fase, sendo muito difícil prever que consequências a rotura do aneurisma terá para cada pessoa.

O médico diz, no entanto, que em termos gerais, cerca de um terço das pessoas recupera totalmente, enquanto outro terço recupera, mas com algum tipo de incapacidade. Para um terço das pessoas, no entanto, o problema pode ser fatal.

Correção: localização mais comuns dos aneurismas fusiformes e dissecantes.