A morte da atriz Maria João Abreu despertou uma grande reação por parte da sociedade portuguesa. Mesmo assim, nas redes sociais começaram a surgir rumores de que a artista teria sido vacinada contra a Covid-19 e, por isso, acabou por morrer vítima de um aneurisma.

Publicação viral alega que Maria João Abreu sofreu aneurisma após ter sido vacinada contra a Covid-19.

“Em termos de vacinas para a Covid-19, foram relatadas algumas situações de coágulos que originaram trombos venosos, mas nada sobre aneurismas.” É assim que o neurologista Carlos Vara Luiz começa por desfazer as dúvidas levantadas pela publicação original. Mas, para se perceber realmente como se distinguem as diferentes “situações de coágulos” — um dos efeitos secundários registados pela vacina da AstraZeneca este ano –, é importante começar por definir o que é um aneurisma, afinal. “É uma dilatação numa artéria, geralmente numa bifurcação. São frequentes na circulação cerebral e, só por si, raramente causam sintomas”, esclarece Carlos Vara Luiz.

Ou seja, desde logo, não é rigoroso afirmar que alguém “morreu de um aneurisma”. O problema é quando essas dilatações rompem: originam uma hemorragia cerebral chamada subaracnoideia, que é fatal em 40-50% dos casos. Quando o doente chega ao hospital, o prognóstico depende do seu estado neurológico “à entrada”. Ainda assim, mesmo que um aneurisma não cause sintomas, há exceções: “pelo seu volume ou localização, podem causar sintomatologia como cefaleias, paresias oculares, crise epilépticas ou enfartes cerebrais”, refere o neurologista.

Já coágulos sanguíneos têm outra definição que não pode confundir-se com um aneurisma. “É um fenómeno fisiológico que permite estancar uma hemorragia. Quando se dá dentro de um vaso sanguíneo (arterial ou venoso), provoca a sua obstrução e interrompe o fluxo de sangue, com grave prejuízo para os órgãos que necessitam da corrente sanguínea para o seu metabolismo. Pode ser um trombo, se obstruir o vaso, ou um embolo, se se mover dentro do vaso arterial e der sintomas a jusante”, explica.

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Portanto, um aneurisma é “um defeito na parede de uma artéria geralmente adquirido ao longo do tempo”, enquanto um coágulo “é uma aglomeração de plaquetas com intervenção de proteínas, nomeadamente fibrina, que formam um conglomerado que impede a circulação sanguínea”, conclui.

Já o professor de Neurologia e de Farmacologia Clínica da Faculdade de Medicina de Lisboa, Joaquim Ferreira, reforçou ao Observador, de forma perentória, que o aneurisma “não é” um efeito secundário de qualquer vacina contra a Covid-19. Segundo o especialista, também não existe qualquer vacina que possa provocar esta doença.

Consultando as várias informações disponíveis das vacinas contra o novo coronavírus, nenhuma refere como efeito secundário o aneurisma. Olhando para outras informações, por exemplo do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças norte-americano, também não há qualquer referência que dê razão aos argumentos utilizados na publicação original.

Para combater a propagação da pandemia, Portugal comprou, diretamente ou através da União Europeia, seis tipos de vacinas — AstraZeneca, BioNtech/Pfizer, Moderna, Curevac, Janssen e Sanofi/GSK —, algumas das quais aguardam um parecer positivo da autoridade europeia de medicamente para serem integradas no plano de vacinação. Mas também entre essas vacinas não é possível encontrar como efeito secundário o aneurisma. No site do SNS24, existem, de facto, alguns efeitos secundários, mas nenhum tão grave como o aneurisma: dor de cabeça, febre, sensação de cansaço ou enjoos são alguns dos sete efeitos secundários publicados. “À semelhança de qualquer medicamento, também as vacinas contra a COVID-19 poderão desencadear efeitos indesejáveis. Os efeitos mais frequentes são ligeiros, estão descritos no folheto informativo de cada vacina”, refere a Direção-Geral de Saúde no seu site oficial.

É claro que podem existir situações de pessoas que tenham sintomas mais graves e, para isso, é necessário consultar o médico. Mas, mais uma vez, nenhum está ligado à doença que acabou por vitimar a atriz Maria João Abreu. Também não existe qualquer prova de que a atriz da SIC tenha sido vacinada contra a Covid-19.

Conclusão

Não é verdade que o aneurisma seja um efeito secundário de qualquer das vacinas disponíveis contra a Covid-19. Não há relatos — nem informações disponíveis — que comprovem aquilo que é defendido, como suspeita, em várias publicações referentes à morte da atriz Maria João Abreu. Dos especialistas em neurologia escutados pelo Observador, nenhum confirma que o aneurisma possa ser uma causa da vacinação contra o novo coronavírus. Aliás, um dos erros comummente cometidos é o de se dizer que uma pessoa morre de um aneurisma, o que também não é verdade. Uma pessoa pode viver com um aneurisma, que é uma dilatação numa artéria, mas só poderá sofrer consequências mais graves caso ele rompa.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

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