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O fadista mais tradicional, com toda a gente em silêncio à sua volta, já foi a imagem de Marco Rodrigues. Mas agora não é bem assim. Ou, aliás, até pode ser, mas, entretanto, o fadista foi abrindo portas, apertando mãos a outras parcerias e eis que, ao sexto disco, resolve atirar-se para o palco para ser do rock. Pedimos desculpa. Para ser do roque. Assim é que é. O single de avanço, “Eu Sou do Roque” esta aí, pronto para ser ouvido. Falta o álbum, que começou a ser trabalhado há dois anos, está pronto, só falta definir a data de lançamento. Não “se deixe é enganar pelo fato de gala” de Marco Rodrigues. Ele continua igual. Do fado. Do Roque (sem “ck”, se faz favor). Do que vier que é bem vindo.

“Neste novo single não fui para lado nenhum, não fiz experiências. Adoro cantar personagens, sejam contemporâneas ou fictícias. Sou fadista, mas tenho influências do rock, da música brasileira ou dos blues. Gosto de me sentir confortável em qualquer sítio”, diz em conversa com o Observador. Marco Rodrigues está a caminho do sexto álbum e, mesmo com todas as incertezas que a pandemia da Covid-19 trouxe, o fadista não muda uma linha do percurso: sabe o que é, que linguagem quer cantar, mas quer continuar a explorar outros géneros ao lado de quem admira. Carlão, Carlos do Carmo, Mafalda Arnauth ou Maria Gadú são só alguns dos nomes com quem já colaborou. Desta vez, foi para o género onde se costuma fazer mais barulho. E que mal tem isso? Nenhum. “Nunca tive complexos em pedir a pessoas que não fazem parte da minha linguagem para construirem algo, depois eu, enquanto fadista, é que dou a minha interpretação”, refere.

Ora, o novo single “Eu Sou do Roque” foi lançado esta sexta-feira, com letra de David Fonseca, arranjo de Tiago Machado e com teledisco realizado por Cláudia Pascoal. Conta a história de um jovem fadista que quer impressionar uma rapariga que não tem grande entusiasmo pelo fado. História igual a tantas outras, meio leve, meio profunda, onde, assim que o protagonista (um improvisado ator Marco Fadista) resolve criar uma banda de rock, desliga-se do fado e conquista o coração do amor predileto. Pois bem, mas aquilo ao rapaz já nada lhe diz. Adeus namoro, adeus coração. “É muito bom mudarmos coisas da nossa vida, mas nunca em função dos outros, temos de perceber o que queremos”, diz.

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E o que Marco Rodrigues quis com este novo single foi andar pelo rock português e pelos bailaricos, contando uma história com uma “letra fotográfica” muito forte. Mas também distante do típico teledisco sério, mais pesado, que costuma estar espelhado no fado. Para isso, mais uma parceria criada, desta vez com Cláudia Pascoal, dona “de uma cabeça com loucura saudável”. “Foi um desafio fazer este teledisco, até agora o ambiente era muito mais sério porque faz parte da linguagem do fado. Mas a Cláudia tem um talento enorme, só ela é que fazia sentido fazer um vídeo destes. Conseguiu tirar de mim uma parte mais aparvalhada de ator”, conta.

O purismo do fado que também faz falta. “Alguma vez quereríamos fado sem faca e alguidar?”

Marco Rodrigues não vai mudar de estilo só porque alguém o diz. Ou porque as modas assim o ditam. Mas também não quer que os mais puristas deste género deixem de existir. Aceita essa intransigência porque a conheceu de perto. “O fado tem um privilégio, é mais fechado, mais pequeno, defende-se com unhas e dentes. Os que aprenderam de uma forma, como eu, depois evoluem para outra forma. Há gente do bairro que só aprendeu assim e acredita que tudo o que é diferente já não é fado. Mas isso é saudável. Se não fosse assim, não era fado, era outra coisa qualquer”, diz.

Blues, rock & roll ou música brasileira. Aliás, correção: Xutos & Pontapés, Kurt Cobain ou Rui Veloso. Estas são algumas das influências que marcaram o fadista e que o próprio acredita terem marcado tantos outros da sua geração. “Não há nenhum fadista da minha altura que não se tenha alimentado dessas bandas”, conta. Ou seja, o que influencia é importante, mas também a adaptação que fazemos de toda a música. Porque o que se tocava há 50 anos já não é tocado da mesma forma. “Não se escreve da mesma maneira, a poesia não é a mesma. A música vai mudando, é toda contemporânea”, afirma.

Por estar em paz com as críticas dos puristas do fado que já recebeu, especialmente quando lançou o single “Tento” (escrito por Diogo Piçarra), é que não quer que essa maneira de olhar para o fado acabe. Porque faz parte. É essa também a sua linguagem. “É aquela coisa bairrista e protetora. Alguma vez quereríamos fado sem faca e alguidar”?, questiona.

O que fez a Covid-19 às casas de fado? “Nenhuma está a trabalhar a 100%”

De um tom fresco, bem mais leve e que tanta falta vai fazendo, mudemos o chip para o novo normal.  O desconfinamento em Portugal continua assim como uma lenta retoma de diferentes sectores como o da cultura. Mas e as casas de fado? Marco Rodrigues conhece bem a realidade ora não tivesse andado por lá uns bons vinte anos da sua vida a gerir artisticamente alguns desses espaços. Foram muitas noites também a cantar. Conhece, portanto, a realidade do que ali se passa e do que se está a passar por causa da pandemia.

O fadista pertence à última geração, como António Zambujo ou Ana Moura, que partilhou palco com Fernando Maurício ou Beatriz da Conceição, foi próximo de Carlos do Carmo e que também acompanhou o boom turístico que invadiu Portugal, com tantas caras estrangeiras curiosas por ouvir mais uma noite que terminaria em “bravo” (lembra-se de Madonna?). Agora faz parte de uma empresa com quatro casas — Adega Machado, Timpanas, Luso e Clube de Fado — e só esta última está aberta. “As casas estavam habituadas a trabalhar todas as noites a 100%, foi assim durante muitos anos. Houve um crescimento gigante do turismo, particularmente de quem queria ouvir fado e a gestão desse espaços era feito a partir daí. Com toda a estrutura de uma casa é difícil que não tenha prejuízo com uma lotação de 50%”, afirma.

A gestão é, por isso, feita semana a semana. Nem sequer é mês a mês. Por agora dá para abrir dois  a três dias por semana, não mais do que isso. Atualmente, o público português não chega. Há quem se tenha aguentado e casas de fado que foram, entretanto vendidas — porque vendiam experiências com grandes grupos que vinham do estrangeiro, por exemplo, algo que não está a acontecer. A alternativa é reinventarem-se. “É preciso uma reformulação e esperar que haja turismo suficiente para que todas as outras casas possam abrir, para continuarmos a vida auspiciosa que tínhamos, quando estávamos sempre cheios. Eram milhares e milhares de turistas que passavam por lá”, diz.