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Atirada ao Avon no dia 7 de junho de 2020, depois de dias de protestos do movimento Black Lives Matter em Bristol, no Reino Unido, a estátua de Edward Colston, de acordo com vários autores um dos maiores traficantes de escravos da Europa do século XVII, voltou finalmente a ver a luz do dia.

Ao longo do ano que passou, e após ser resgatada do fundo do rio, alguns dias e muitos trabalhos depois, a estátua esteve fechada num armazém. Agora está novamente em exibição, não no pedestal a que foi arrancada, mas no M Shed, o museu municipal daquela cidade costeira, ainda coberta de graffiti coloridos e devidamente rodeada de cartazes do movimento antirracista, a contextualizar.

Feita em bronze, no século XIX, a estátua de Edward Colston, que até há um ano seria um personagem obscuro e que entretanto se tornou conhecida mundialmente, será agora “o mais importante artefacto” da história do tráfico negreiro no Reino Unido, explicou recentemente ao Guardian o historiador David Olusoga, professor da Universidade de Manchester.

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“Por esta altura, há um ano, isto era uma peça medíocre de arte pública do final do período Vitoriano que não dizia quase nada de verdadeiro ou interessante sobre Bristol, sobre Edward Colston”, começou o historiador. “Agora penso que é o artefacto mais importante que se pode eleger no Reino Unido se se quiser contar a história da tortuosa relação dos britânicos com o seu papel no tráfico de escravos no Atlântico.”

Estátua de comerciante de escravos derrubada em Inglaterra e atirada ao rio durante manifestação contra o racismo

Por isso mesmo, talvez faça pouco sentido deixá-la a apodrecer num armazém. O que não significa que a ideia seja repô-la no pedestal entretanto deixado vago na zona velha da cidade, junto à avenida com o seu nome — a estátua de Jen Reid, uma das ativistas que ajudou a derrubar a de Colston e foi esculpida em tempo recorde por um artista contemporâneo britânico, não aguentou nem 24 horas no plinto da Colston Avenue, retirada pelos serviços municipais. Para decidir o que vai acontecer à famosa estátua, foi agora criada uma sondagem online — qualquer pessoa pode responder e votar no destino que acredita ser o mais acertado para a peça (agora ainda mais) histórica.

A iniciativa, da Comissão Histórica We Are Bristol, propõe várias opções à partida: a manutenção no M Shed é uma delas; a retirada de todos as referências a Colston da toponímia de Bristol outra; já a pergunta sobre o que ou que figura deverá ocupar o lugar que até há um ano era do comerciante de escravos (por sinal contestado já desde a década de 1990 na cidade) permite resposta aberta. Em breve deverão ser conhecidos os resultados.