O governador do Banco de Portugal considera que a revisão estratégica anunciada pelo Banco Central Europeu (BCE) na última semana é uma “boa notícia” para Portugal, embora não se preveja que nos próximos tempos as mudanças estatutárias do banco central tenham um impacto sobre as decisões que são tomadas a cada momento pelo Conselho do BCE. Para Portugal, porém, estas alterações podem vir a ser importantes porque o país está “muito acima” dos níveis médios de endividamento, no contexto europeu – e é preciso baixar a dívida “assim que a evolução da pandemia o permitir”, defende Mário Centeno.

O ex-ministro das Finanças diz, em entrevista ao Público, que “Portugal vinha de um conjunto de anos de convergência e houve muitos indicadores que convergiram com a zona euro”. No entanto, “não é assim no endividamento, de facto, onde, apesar da convergência, ainda estamos muito acima”, diz Mário Centeno, acrescentando que “isso torna-nos mais sensíveis a flutuações na taxa de juro”.

O efeito prático da revisão de estratégia é que “dá um passo muito significativo na capacidade que o BCE tem de manter políticas monetárias acomodatícias em períodos de subida de inflação acima dos 2%, desde que de forma temporária e moderada”, explica o responsável. Caso a estratégia do BCE continuasse na mesma, a idealizar uma taxa de inflação de “perto, mas abaixo de 2%” isso poderia significar que caso a inflação acelerasse poderia ser maior a pressão para que o banco central apertasse a política monetária (o que penalizaria Portugal porque as taxas de juro tenderiam a subir).

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“Desse ponto de vista, creio que é uma boa notícia para a necessidade que Portugal tem de ter um período continuado de transição de convergência destes indicadores com a zona euro”, realça Mário Centeno, vendo esta mudança como uma “oportunidade” para acelerar a redução da dívida. “Não podemos perder essa oportunidade, temos de retomar esse caminho assim que a evolução da pandemia o permitir“.

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As decisões tomadas na Europa no ano passado e que continuam a ser tomadas este ano, e aqui incluo claramente a política monetária, têm vindo no sentido de atribuir tempo para que este processo se materialize. Em Portugal, não podemos ficar parados”, diz Mário Centeno.

O governador do Banco de Portugal, embora tenha limitado a entrevista ao tema da revisão estratégica do BCE, falou um pouco, porém, do tema do Novo Banco, para dizer que o “atraso” em lidar com esse problema tornou o caso “penoso“.

No setor financeiro não há azar, há procrastinação” e casos como o Novo Banco”revelam tudo isso”. “Situações bancárias que se prolongam sem viabilidade ao longo de muito tempo, geram comportamentos negativos, quer do lado do sistema bancário, que fica de mãos atadas a alimentar no seu balanço créditos que não têm destino previsivelmente bem-sucedido, quer do lado dos mutuários que insistem em encontrar soluções”, afirmou Mário Centeno.