Enviado especial do Observador, em Tóquio

Não foi a primeira vez, provavelmente não terá sido a última, mas também não costuma ser o que era. Os Jogos Olímpicos foram uma espécie de presente que a pandemia envenenou a Tóquio, com os habitantes da cidade a torcerem cada vez mais o nariz à organização até ao quase boicote nas derradeiras semanas (números redondos, apenas num mês os casos diários aumentaram três vezes mais). No entanto, e já depois de uns acenos de locais na rua quando passavam os autocarros da organização, este sábado sentiu-se, de forma mais visível, esse calor dos muitos que são favoráveis ao maior evento desportivo do mundo. E todos concentrados na entrada.

Na zona de acesso de toda a imprensa, delegações e demais participantes, que tem também os anéis olímpicos numa espécie de jardim, dezenas e dezenas de pessoas estavam concentradas a fazer fila para se aproximarem e levarem a sua recordação. Em paralelo, e para todos aqueles que entravam nessa parte de acesso ao estádio, já havia saudações de japoneses, dos mais novos aos mais graúdos, quase a agradecerem o facto de estarmos no seu país a seguir uma competição que parecia destinada a ser tudo o que de mal se imaginasse. Se nos primeiros dias até mesmo em deslocações curtas apenas a uma loja de conveniência havia muitos olhares de lado de quem não está propriamente feliz em ter tanta gente de fora, agora as coisas mudaram. Por convicção ou por hábito.

É também nesse espírito mais aberto que começou o atletismo, com uma grande final dos 10.000 metros logo na primeira noite que caiu para o jovem etíope Selemon Barega, que recebeu ao início desta sessão noturna de sábado aqui em Tóquio a medalha do antigo fundista Paul Tergat e Sebastien Coe, antigo campeão olímpico que lidera a Federação Internacional de Atletismo – e com a delegação etíope composta por 20 a 30 pessoas presente na bancada a fazer uma festa tipicamente africana com bandeiras, camisolas e muitos ritmos de dança.

Agora, era dia de velocidade, com meias e final dos 100 metros femininos, antes dos 100 metros masculinos este domingo que irá determinar quem será o sucessor de Usain Bolt como campeão olímpico. No entanto, e antes da fase decisiva, houve eliminatórias. E entre os mais rápidos do mundo houve os menos rápidos.

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No lado feminino, Houleye Ba, da Mauritânia, ficou com essa posição com o tempo de 15,26, que significou em paralelo um novo recorde pessoal. Aos 29 anos, a atleta teve um trajeto particularmente invulgar no atletismo, tendo participado nas eliminatórias dos 800 metros dos Jogos do Rio de Janeiro antes de passar agora para uma distância de velocidade pura. Fã de Mo Farah (um dos grandes ausentes no atletismo destes Jogos de Tóquio), das fundistas Mariya Savinova e Jarmila Kratochvilova e do velocista Usain Bolt, Houleye estreou-se muito tarde pela seleção do seu país (24 anos) mas considera que agora a modalidade ocupa uma parte importante do coração.

Do lado masculino, Adrian Jimena Ililau, de Palau, foi o mais lento das três eliminatórias preliminares a par de Karalo Maibuca (Tuvalu). Aos 21 anos, o atleta conseguiu também bater o seu recorde pessoal, saindo com um sentimento de maior satisfação antes de voltar à terra natal e aos estudos, onde está a estudar Meio Ambiente e Biologia Marinha. Como curiosidade, e além de ter feito parte da comissão de Atletas Nacionais do Comité Olímpico de Palau, Adrian foi também jogador de basquetebol no Palau, tendo participado em provas internacionais como o Campeonato da Oceânia de Sub-17 que se realizou em Guam.