A ginasta Simone Biles revelou esta quarta-feira que mantém “a porta aberta” para a sua participação nos Jogos Olímpicos de Paris 2024, depois de ter sofrido uma série de problemas de saúde mental que afetaram a sua busca pelo ouro em Tóquio.

A atleta de 24 anos falou também sobre a luta contra os problemas de saúde mental que levaram à decisão polémica de desistir de cinco finais olímpicas, revelando que foram provavelmente causados pelo abuso que sofreu às mãos do médico pedófilo Larry Nassar.

Simone Biles e a saúde mental dos atletas. É possível sobreviver à pressão de ser a “melhor de todos os tempos”?

Agora que penso nisso, talvez no fundo da minha cabeça, provavelmente os abusos que sofri tenham sido o gatilho para os meus problemas”, revelou a jovem ao programa televisivo Today.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Larry Nassar, o ex-médico de ginastas olímpicas dos EUA, admitiu em 2017 a prática de abusos sexuais a menores, nomeadamente atletas, e a veracidade das acusações de pornografia infantil. Foi condenado a 60 anos de prisão e a pagar indemnizações a todas as suas vítimas, entre as quais Simone Biles. A mais recente polémica desse processo tem sido o lento ritmo de pagamento das indemnizações às suas vítimas de abuso sexual.

Ainda assim, Biles deixou Tóquio com duas medalhas — uma de prata na final por equipas feminina e uma de bronze na prova de trave, que venceu no regresso às olimpíadas após ter desistido de competir em vertentes onde era dada como a mais garantida das candidatas à medalha.

“Fiquei preocupada com a possibilidade de que a minha desistência pudesse parecer que estava, novamente, a empurrar para debaixo do tapete [o escândalo sexual de Nassar). Mas não foi de todo a minha intenção, porque tem que ser posto um ponto final neste assunto e dar voz e apoiar todas as outras atletas que também foram vítimas“, acrescentou a atleta.

Apesar de, diz Biles, a atitude ter sido tomada de forma consciente e segura, a atleta explica ter sentido que desiludiu o povo norte-americano, bem como a sua família e os seus amigos. Contudo, revelou que o apoio recebido foi mais do que suficiente para combater esta insegurança.

Biles despede-se de Tóquio com medalha de bronze. Dupla chinesa conquista primeiros lugares na trave

“Sou um ser humano e já fiz coisas bastante corajosas fora deste desporto, por isso, não sou uma desistente. E acho que, se esta situação nunca tivesse acontecido, nunca olharia para mim desta forma”, revelou mostrando que, apesar de tudo, os acontecimentos lhe trouxeram mais alguma maturidade.

A força de vontade da atleta está agora voltada para resolver os seus problemas de saúde mental e deixa em aberto a oportunidade de participar nos Jogos Olímpicos de Paris 2024. Além disso, Biles revelou que precisa de uma “boa pausa”, mas que antes vai realizar uma viagem nacional de ginástica, que a levará a 35 cidades, ao lado de outras ginastas norte-americanas.

Simone Biles desiste da final do all-around: “A sua coragem mostra, mais uma vez, o porquê de ser um exemplo para tantos”

Como a doença mental “twisties” afetou o percurso da atleta

Biles falou também no programa televisivo Today sobre a doença mental “twisties”, e sobre a forma como a afetou. Esta condição ocorre quando existe uma desconexão entre o corpo e a mente, representando um risco para os atletas.

Relembrando o primeiro momento em que sofreu com este transtorno, Biles admitiu que ficou “petrificada” porque não sabia onde iria pousar.

“Não tinha ideia de onde estava no ar, e é visível pelos meus olhos que estava petrificada. Depois também não sabia onde estava prestes a pousar. A minha cabeça, o meu rosto, as minhas pernas e os meus braços? Não tinha ideia de onde estavam e tive muito medo de me lesionar“, acrescentou.

A desistência de Biles e sua decisão de se retirar de cinco finais olímpicas geraram debate e discórdia nos media e nas redes sociais. Muitas foram as pessoas que a acusaram de “desistir” e de “abandonar” a sua equipa. Ainda assim, Biles afirmou: “Foi a decisão mais certa e corajosa que podia ter tomado. Poderia ter piorado a minha condição mental se não o tivesse feito.”

“Foi muito difícil trabalhar durante cinco anos por um sonho que caiu por terra. Não foi, de todo, fácil. Mas tive que tomar esta decisão por mim e pelas minhas colegas de equipa, porque não queria que elas perdessem uma medalha por minha causa”, terminou.

Fica a vontade de continuar a ser uma atleta de topo, de progredir no tratamento da sua saúde mental e de, talvez, deixar a sua marca nos Jogos Olímpicos de Paris 2024.