“Para ser clara, culpo Larry Nassar, mas também culpo todo um sistema que permitiu e perpetuou os abusos”. A frase é da super campeã de ginástica Simone Biles, que é também uma das vítimas do ex-médico da seleção de ginástica dos EUA que vai passar o resto da vida na prisão por abusar de centenas de raparigas e meninas durante e sob o pretexto de tratamentos médicos. Esta quarta-feira, a multimedalhada e uma das maiores figuras do desporto do país, acompanhada por mais três antigas ginastas olímpicas vítimas do mesmo Nassar, compareceu perante um comité do Senado norte-americano. Mas com o criminoso e abusador detido para sempre, desta vez a audiência prendia-se com a inação do FBI durante o processo, perante as primeiras queixas e a negligência da autoridade federal para com as tais centenas de raparigas e meninas, permitindo a Nassar continuar com os abusos.

Simone Biles, Aly Raisman, McKayla Maroney  e Maggie Nichols apareceram assim perante um comité judicial do Senado para reviver tudo de forma emocionante e até, segundo os relatos da imprensa norte-americana, traumática, com algumas das ginastas a mostrarem-se visivelmente incomodadas com o facto de terem de voltar a falar sobre o assunto que continuam a descrever como um pesadelo. Contudo, estavam ali para denunciar quem não as ajudou – a elas e a centenas –, quem tinha a obrigação de ajudar e soube demasiado cedo das coisas, considerando o tempo que demorou o escândalo a tornar-se público. Os testemunhos apresentados pelas quatro jovens foram duros, crus, provavelmente necessários.

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A audiência (mais uma) incidiu agora sobre uma investigação aos processos levados a cabo pelo FBI perante as primeiras queixas e indícios de atividade criminosa de Larry Nassar.

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Alegadamente, poderão ter sido abusadas cerca de 70 menores desde que o FBI recebeu informações, em julho de 2015, e a detenção de Nassar, praticamente ano e meio depois. Foi um documento do Departamento de Justiça que alertou nos últimos tempos para a existência de erros “básicos” no trabalho da autoridade federal. O relatório afirma que cerca de 70 atletas foram abusadas por Nassar entre julho de 2015 e agosto de 2016. Foi precisamente no verão de 2015 que foram reportadas as primeiras alegações contra o antigo médico à secção de Indianapolis do FBI. No ano seguinte chegou uma queixa diferente à polícia da Universidade de Michigan State. Nesta fase, nenhum episódio era ainda público

O advogado John Manly, citado na altura pelo New York Times, garantiu que o número é muito maior, talvez perto das 120 pacientes, incluindo uma que teria oito anos à altura dos crimes. “É um indicador devastador de que vários agentes federais encobriram os abusos de Nassar. Falharam perante estas mulheres, perante as famílias. Ninguém se preocupou minimamente com estas meninas”, refere. A investigação apenas começou em setembro de 2016, depois de um longo artigo do The Indianapolis Star que denunciava a situação. Foi também ao Indy Star que falou a primeira de centenas de atletas norte-americanas, começando aquilo que se transformou numa bola de neve: Rachael Denhollander.

Esta quarta-feira, fora dos documentos escritos e frios, foram vozes que se ouviram, como a de Biles, com a mãe ao lado a ajudá-la a limpar as lágrimas. “Não quero que outra ginasta, atleta olímpica ou não, experiencie o horror que eu e centenas de outras sofremos antes, durante e continuamos a sofre até este dia”, afirmou, acrescentando ainda sobre o tal sistema que culpa: “A USA Gymnastics e o Comité Olímpico e Paralímpico dos EUA sabiam que fui abusada pelo médico da equipa muito antes que eu tivesse noção do conhecimento deles“. Aquela que para muitos é considerada a melhor ginasta de sempre referiu ainda que ela e as sobreviventes e denunciantes querem ver os envolvidos nos erros do FBI a serem responsabilizados “pelo menos federalmente, porque têm de ser responsabilizados”, depois de uma pergunta de uma do Senador Patrick Leahy. “Como um antigo procurador, concordo”, acrescentou Leahy.

Numa audiência bem silenciosa em que as quatro ginastas quiseram que a verdade fosse barulhenta e desconfortável, como refere o Washington Post, existiram vários momentos aterradores, não só para quem ouvia, como para quem os tinha de reviver através das palavras. Segundo uma colunista do mesmo jornal, Maggie Nichols, que foi abusada em 2015 e perdeu o nome para “Ginasta 2” e “Atleta A” (visto ter sido a primeira atleta da equipa nacional a fazer uma denúncia) durante a investigação, contou que revelou a um agente federal coisas que não tinha contado à mãe. Por exemplo, que aos 13 anos, poucos minutos depois de encontrar-se com Nassar num estágio da USA Gymnastics, ele colocou-lhe os dedos na vagina. A pergunta e reação do agente? “Esse tratamento ajudou-a?”…

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“Cobrirem o abuso que sofri e o falhanço do FBI ao falar comigo mais de um ano depois da minha queixa estão bem documentados no relatório do inspetor geral do Departamento de Justiça. Depois de denunciar o caso à USA Gymnastics, disseram-me e à minha família pelo antigo presidente, Steve Penny, para ficarmos calados e não dizermos nada que pudesse fazer mal à investigação do FBI. Sabemos que não havia nenhuma investigação real do FBI e enquanto as minhas queixas estiveram com eles, Larry Nassar continuou a abusar raparigas e meninas”, acrescentou Nichols.

McKayla Maroney, atleta olímpica em Londres 2012, descreveu como Nassar abusava dela repetidamente, incluindo nos referidos Jogos Olímpicos, onde conquistou a medalha de ouro por equipas. Certa vez, numa competição em Tóquio, Maroney pensou que não ia safar-se de uma violação com vida: “Pensei que ia morrer naquela noite porque não havia maneira de ele me deixar ir. Estava nua, sozinha, com ele em cima de mim, a molestar-me durante horas”. Em 2015, já com 19 anos, falou também com um agente do FBI durante uma chamada que terá durado cerca de três horas, com McKayla deitada no chão do quarto. A resposta, mais uma vez? “É tudo?”, perguntou o agente. “Não apenas o FBI não reportou os abusos que sofri, mas quando eventualmente documentaram a situação 17 meses depois, colocaram declarações minhas completamente falsas. Escolheram mentir sobre o que eu disse e proteger um molestador em série de crianças em vez de me protegerem não só a mim mas incontáveis outras mulheres”, acrescentou.

“Chega. Hoje peço que ouçam a minha voz. Peço-vos, por favor, que façam tudo no vosso poder para garantirem que estes indivíduos são responsabilizados por ignorarem as minhas denúncias iniciais e por mentir esconderem um molestador de crianças”, disse ainda McKayla Maroney.

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Quando chegou a vez de Aly Raisman, também ela vencedora do ouro olímpico, a mulher agora com 27 anos disse algo que era estendível às restantes três raparigas: esta audiência deixaria marcas. Além de pedir uma investigação independente ao caso, reforçou que era muito complicado falar ali, mas que o fazia para tentar mudança dentro do desporto e das forças de segurança. “Isto [a audiência] vai levar-me meses para recuperar, quero deixar isso claro”, frisou. “O FBI fez-me sentir que os abusos que sofri não contavam para nada e não eram reais”, disse Raisman, que contou ainda que depois de falar publicamente a primeira vez sobre os abusos sofridos, em 2017, ficou tão afetada pela situação que não conseguia estar em pé no chuveiro, sentando-se no chão para lavar o cabelo, segundo o Washington Post. Também já foi levada várias vezes para o hospital por se sentir mal devido ao trauma sofrido.

Aly disse ainda que “irreal conseguir perceber toda a extensão da culpabilidade” sem uma investigação sobre o porquê de também a USA Gymnastics e o Comité Olímpico dos EUA terem ignorado as denúncias. “Sem saber quem sabia o quê e quando, não podemos identificar quem deixou acontecer ou determinar se ainda estão em posições de poder. Não podemos resolver um problema que não entendemos, e não podemos entender um problema até termos todos os factos”, disse.

Factos. Aqui é que a situação se torna um pouco questionável, apesar de alguns agentes e responsáveis terem sido afastados, o diretor do FBI, Chris Wray, encarou a situação personalizando o problema e não, como por exemplo o Senador Richard J. Durbin (democrata do Illinois), presidente do Comité, o definiu: “uma falha sistémica organizacional”. “É chocante quando as falhas vêm das forças da autoridade, mas foi precisamente isso que aconteceu no caso Nassar”, declarou Durbin.

Assim, Chris Wray pediu desculpa às jovens pelas falhas da agência que lidera desde 2017, citado pelo Indy Star, que foi a dinamite que rebentou o escândalo, disse: “Lamento profundamente o que aconteceu a cada uma de vocês e pelo que passaram com as vossas famílias. Lamento que tantas pessoas diferentes as tenham desiludido uma e outra vez. E lamento especialmente que tenham existido pessoas no FBI que tiveram a chance de parar este monstro [Larry Nassar] logo em 2015 e falharam”.

Segundo o Washington Post, os dois agentes do FBI que tomaram nota das denúncias iniciais já não trabalham na agência. Inclui-se aqui Michael Langeman, agente especial supervisor do FBI em  Indianapolis, o primeiro a falar com McKayla Maroney. Segundo o diretor do FBI, o processo demorou o seu tempo devido à existência de protocolos disciplinares existentes. Langeman não foi inicialmente referido pelo nome no documento que retratava as falhas do FBI, mas as suas ações foram descritas.

Não houve urgência na investigação, e o agente especial devia ter sabido que os abusos perpetrados por Nassar eram provavelmente maiores, mais espalhados e mais graves. Langeman não preencheu de maneira correta o o documento do testemunho de Maroney nem abriu investigação. Segundo o documento do inspetor geral do Departamento de Justiça, Langeman apenas entregou um documento 17 meses depois de falar com a então ginasta, que não foi nomeada no relatório, incluindo frases e depoimentos que ela não fez. Contra as políticas do FBI acerca de crimes contra crianças, que requerem uma “abordagem alargada, multijurisdicional e multidisciplinar”, com Langeman a dizer mais tarde que transferiu o caso para o escritório de Lansing, mas os documentos nunca foram encontrados na base de dados do FBI.

Há ainda W. Jay Abbott, também special agent em Indianapolis à altura dos crimes, mas que se retirou em 2018. Segundo o relatório que começou todo este processo, também prestou falsos testemunhos ao Departamento de Justiça, além de, dizendo também o documento algo que Aly Raisman explica da melhor forma: “Está estabelecido que Steve Penny [então presidente da USA Gymnastics], o agente do FBI Jay Abbott e os seus subordinados trabalharam para esconder os crimes de Nassar. O agente diminuiu a importância do abuso que sofri e fez-me sentir que o meu caso a nível criminal não era merecedor de mais nada. O agente especial no cargo encontrou-se com Steve Penny para beber cervejas e discutir oportunidades de trabalho “dentro das instituições olímpicas”. O próprio documento de julho refere que Abbott estava mesmo a tentar arranjar um emprego no Comité Olímpico e Paralímpico dos EUA.

Importa ressalvar ainda duas frases de senadores que resumem muito bem o caso. “Este fardo não devia estar sobre vocês para verem que não há impunidade”, disse o senador Jon Ossoff.

Mas a frase mais marcante será mesmo do senador Patrick J. Leahy: “Muitas pessoas deviam estar a ser acusadas além de Nassar”.

Resumindo e analisando os factos é uma declaração que faz algum sentido e uma ideia que não está apenas na cabeça das vítimas, mas, mais importante, está agora na cabeça de senadores e altos responsáveis. Como escreveu a colunista e jornalista do Post Sally Jenkins: “Larry Nassar está preso. Porque não estão também quem ignorou os seus crimes?”.