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Sergio Agüero foi, muito provavelmente, o homem com o pior timing do mundo. Ao fim de uma década no Manchester City, depois de se ter tornado o melhor marcador da história do clube inglês, decidiu deixar a Premier League para trás e aceitar o desafio do Barcelona. Mais do que isso, decidiu juntar-se a Lionel Messi, um dos amigos mais próximos, e partilhar com ele o balneário do clube para além do da seleção argentina.

O capítulo final da história, esse, toda a gente conhece. Messi saiu, assinou pelo PSG e deixou Agüero em Camp Nou. “Foi um momento de choque. Ele estava muito mal. Quando fiquei a saber mal podia acreditar. Nesse sábado fui visitá-lo a casa e eu, por ser como sou e por ver que não estava bem, tentei fazer com que se esquecesse do que se estava a passar. Vi que estava meio apagado e tentei distraí-lo”, contou Agüero ao El País, garantindo que, apesar de tudo, não está arrependido de ter assinado pelo Barcelona. “Vamos ser sinceros: que jogador é que não quer estar no Barça? Diria que a maioria dos jogadores gostaria de vestir esta camisola, por mais que o Barça esteja bem ou mal. Cheguei com a expectativa de jogar com o Leo e de que se construísse uma boa equipa, que era o que o clube queria fazer. Quando me ligaram pensei que nem importava o que me queriam pagar”, acrescentou.

Ao fim de uma década, o Manchester City vai dizer adeus a Agüero – que terá uma estátua junto ao estádio

A verdade é que, apesar de tudo, o avançado argentino ainda não se estreou pelo Barcelona. Lesionado na perna direita desde a pré-temporada, tem passado entre os pingos da chuva na crise dos catalães e num arranque de época terrível que atirou o clube para o 9.º lugar da liga espanhola e para o último do grupo da Liga dos Campeões. Ainda assim, Agüero está prestes a ser reforço para Ronald Koeman e esta quarta-feira já disputou um particular contra o Valencia e até marcou, estando quase pronto para voltar à competição.

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Ex-marido da filha de Diego Armando Maradona, Gianinna, o avançado de 33 anos recorda o desaparecimento recente do argentino. “Passei mal, muito mal. Nem podia ter sido de outra maneira. Tinha jogo da Liga dos Campeões nesse dia. Quando ouvi, pensei que era mentira, como tantas outras vezes. Mas como via que estava a ser dito por cada vez mais pessoas, perguntei diretamente à mãe do Benjamín. Até me lembro do que perguntei, foi só: ‘É verdade ou não?’. E ela respondeu que sim”, lembra Agüero, cujo passo seguinte foi falar com o filho de 12 anos, o primeiro neto que Maradona teve.

“Pensei logo no meu filho, tinha de lhe ligar. Estava muito preocupado sobre a forma como ele ia saber da notícia. Quando consegui falar com ele, já tinha sabido por um colega de escola. O Diego e o Benjamín davam-se muito bem, ele era fenomenal com o meu filho e o Benjamín adorava-o. Pedi à minha irmã que o fosse buscar à escola e que o tentasse distrair. No dia seguinte, disse-me que queria ir ver o avô”, revela, confessando depois que não estava de acordo com a ideia de deixar o filho, que vive na Argentina, ir ao velório. “Não gostava da ideia, tinha medo de que ficasse com uma má recordação. Mas, como ele queria, deixei-o ir, foi com a mãe. Disse-me que lhe deu um beijo e que chorou. Eu tentei conter-me para que o meu filho não me visse triste. Foram dias muito difíceis. Mas, pelo menos, o Benjamín pôde despedir-se do avô”, diz Agüero.

Tido como um dos melhores jogadores do mundo há vários anos, a verdade é que o avançado argentino nunca foi interpretado como um candidato sério à Bola de Ouro. “Pensei muitas vezes que me faltava alguma coisa e um dia perguntei ao Leo o que achava. Ele disse que para ter hipóteses de ganhar a Bola de Ouro tinha de ganhar a Liga dos Campeões. E tinha razão. Também é importante o tema das competições das seleções: vejamos o caso de Cannavaro, por exemplo, quando ganhou o Mundial 2006. Fiz grandes temporadas, marquei muitos golos e ganhei muitos títulos mas não estava na final da Liga dos Campeões. No ano passado, quando chegámos à final, tive o problema no joelho, tive Covid-19 e outras lesões”, explica Agüero, com uma mágoa visível, ressalvando que nunca teve qualquer problema com Pep Guardiola e que não pode ser comparado com Messi ou Ronaldo porque o tipo de talento dos dois jogadores é “de fabrico”.

SSC Napoli v Manchester City - UEFA Champions League

O avançado garante que nunca teve qualquer problema com Guardiola e que não existiu uma única discussão entre os dois

O internacional argentino cresceu no bairro Los Eucaliptus, nos arredores de Buenos Aires, e só teve acesso a uma escolaridade mais prolongada por ter entrado nas camadas jovens do Independiente com apenas 12 anos. “Quem vive ali tem de ir para uma escola pública. Quando entrei no Independiente, o clube mandou-me para uma escola privada. Estavam a fazer divisões com três casas decimais e eu na escola pública só tinha feito com uma, imaginem a diferença. Não tinha capacidade para estar ali e comecei a sentir-me mal, não me sentia cómodo nem livre. Queria voltar ao meu lugar, onde a professora me entendia. É uma pena que isso aconteça, que tenha de se recorrer a escolas privadas”, conta Agüero, garantindo que para sair do bairro é preciso ter “muita sorte” e que a sua foi o facto de o pai conhecer alguém no Independiente.

“Ouço as pessoas falar dos bairros e penso que nem têm ideia do que é. Quem está ali tem outra vida, está no seu mundo. Há um sistema próprio, com mercearias, talhos, armazéns. Há de tudo. E tudo a um preço acessível para as pessoas do bairro. O problema é que é muito difícil progredir, o meu pai passou por isso. Procurava trabalho e muitas vezes não o contratavam porque dizia o lugar onde vivia. E isso continua a acontecer. Também há gente complicada, claro. Mas também há muita gente de trabalho, como os meus pais, que querem o melhor para eles e para a sua família. Mas parece que querem que fiquemos ali para sempre, que vivamos toda a nossa vida ali (…) A última vez que lá fui tinha 16 anos. Quando perguntei pelos rapazes com quem brincava, disseram-me que um estava morto, que outro estava preso e que o outro era procurado pela polícia. Miúdos de 15 anos. Ainda mantenho o contacto com alguns dos meus amigos. Continuamos a falar, mais de 20 anos depois”, terminou o jogador do Barcelona.

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