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Carl Hayman, antigo pilar direito da seleção da Nova Zelândia de râguebi, foi diagnosticado com demência precoce, aos 41 anos, seis anos depois de ter terminado a carreira, noticia a agência Reuters. O internacional All Black por 45 vezes foi, também, diagnosticado com encefalopatia traumática crónica provável (condição que apenas pode ser verdadeiramente diagnosticada depois da morte).

Esta doença degenerativa progressiva é provocada por traumas cranianos repetitivos, e pode causar nas vítimas depressão, irritabilidade, impulsividade, perda de memória e anormalidades motoras, entre outros sintomas, segundo o Manual para Profissionais de Saúde.

O jogador, que dividiu a sua carreira de 441 jogos profissionais por clubes como os Highlanders, Newcastle Falcons e Toulon, revelou algumas das dificuldades que a doença lhe provocou:

Passei vários anos achar que estava a ficar maluco. A certa altura, pensei mesmo nisso. As dores de cabeça eram constantes, e não conseguia perceber tudo o que se passava”, disse Hayman numa entrevista ao programa The Bounce do jornalista desportivo Dylan Cleaver,.

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O antigo avançado chegou mesmo a ser acusado de violência doméstica em 2019, quando estava em França, a jogar pelo Toulon, e cumpriu uma pena suspensa de prisão depois de se declarar  culpado do crime. Nesta altura, Hayman combatia o vício em álcool.

O neozelandês juntou-se a um processo coletivo, juntamente com outros antigos jogadores, contra a World Rugby e outras federações do desporto, por terem falhado em proteger os jogadores dos riscos de concussão.

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Carl Hayman revelou, também, na entrevista, que foi difícil falar sobre este tema, quando foi abordado para fazer testes ao cérebro, para estudar o impacto das lesões sofridas:

Hesitei durante cerca de um ano para decidir se iria fazer alguma coisa sobre isto para descobrir se algo estava errado comigo, ou se devia apenas seguir com a vida e esperar pelo melhor. [Mas] Seria muito egoísta da minha parte não falar da minha experiência, quando podia ajudar um homem neozelandês que talvez não perceba o que se passa consigo, e que não tenha uma rede de apoio onde se possa suportar”, desabafou Hayman.

O atleta admitiu, também, que jogou lesionado várias vezes, uma vez que esse era o seu trabalho:

Basicamente, se eu estivesse disponível e em condições para jogar, jogava. Em algumas situações, provavelmente não devia ter jogado, mas era o que se esperava que eu fizesse — como quando recebi uma injeção anti-inflamatória na raiz de um nervo do meu pescoço durante a semana, e estava de volta ao campo no fim de semana. Eles puxavam por nós e eu nunca reclamei. Era o meu trabalho, e eu era bem pago para o fazer”, disse o pilar neozelandês.

A World Rugby, organização que tutela a modalidade desportiva, tem movido esforços, nos últimos anos, para reduzir a frequência deste e de outro tipo de lesões, através da alteração de várias regras do contacto no desporto, para além de punições cada vez mais graves para o incumprimento das leis do jogo com vista a proteger a integridade física.

A organização vai testar, até 2023, data do próximo Mundial, novas regras relativas à placagem. A altura legal a que os defensores podem placar um atacante, sensivelmente abaixo da linha do peito, vai descer, e passará a ser abaixo da linha da cintura. Esta ação defensiva em específico é a mais visada, uma vez que causa 76% de todas as concussões no desporto, de acordo com o The Guardian.

O presidente da World Rugby, Sir Bill Beaumont, antigo internacional pela seleção inglesa, garantiu, em carta aberta publicada no site da organização, que a segurança dos jogadores é a sua principal prioridade:

“Quero assegurar a todos os membros da família do râguebi que a segurança dos jogadores é —e sempre foi — a nossa principal prioridade, a todos os níveis do jogo. O Guia da Concussão (Head Injury Assessment, em inglês), ferramenta de identificação e tratamento de concussões, combinado com as competentes equipas médicas presentes nos torneios e um protocolo de retorno ao jogo, supervisionado por médicos, transformaram a identificação, remoção e supervisão de jogadores que sofrem concussões”, escreveu Beaumont.