A União Europeia pediu esta segunda-feira a libertação “imediata” do Presidente do Burkina Faso, Roch Marc Christian Kaboré, que fontes de segurança afirmaram estar a ser retido por soldados que se amotinaram.

“Neste momento de incerteza, a União Europeia permanece atenta à evolução da situação, apelando a todos os atores para que permaneçam calmos e comedidos. Apela também à restauração imediata da liberdade do Presidente Kaboré e dos membros das instituições do Estado”, disse o chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, numa declaração.

“As últimas notícias são muito preocupantes”, disse o alto representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, numa conferência de imprensa, acrescentando: “Sabemos agora que o Presidente Kaboré está sob controlo do exército”.

Burkina Faso. Presidente Roch Kabore terá sido detido por grupo de militares

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Na sua declaração, a UE recorda o seu “compromisso de respeito pelas instituições republicanas e pela ordem constitucional”.

Além disso, apela “às forças de segurança e defesa a permanecerem fiéis às suas missões primárias de proteção da população e de defesa do território, afirmando as suas exigências de uma forma não violenta”.

O partido do Presidente burquinabê denunciou esta segunda-feira uma “tentativa abortada de assassinato” do chefe de Estado.

Também a Comunidade Económica de Estados da África Ocidental (CEDEAO) e a União Africana já lamentaram a “tentativa de golpe de Estado” e instaram os militares a assegurar a integridade física do Presidente Kaboré.

O Presidente Kaboré, no poder desde 2015 e reeleito em 2020 com a promessa de lutar contra os terroristas, tem vindo a ser cada vez mais contestado por uma população atormentada pela violência de vários grupos extremistas islâmicos e pela incapacidade das forças armadas do país responderem ao problema da insegurança.

Vários quartéis no Burkina Faso foram este domingo palco de motins de militares, que exigiram a substituição das chefias militares e os “meios apropriados” para combater os grupos terroristas, que atacam o país desde 2015.

Uma fonte dos serviços de segurança do país disse à agência noticiosa AFP que “o Presidente Kaboré, o chefe do parlamento [Alassane Bala Sakandé] e vários ministros estão efetivamente nas mãos de soldados” no quartel de Sangoule Lamizana, em Ouagadougou.

Roch Kaboré exortou os militares rebeldes a deporem as armas depois de um aparente golpe de Estado iniciado após um motim ocorrido no domingo em várias unidades militares.

“Convido aqueles que pegaram em armas a depô-las, no superior interesse da Nação. É através do diálogo e do ouvir que devemos resolver as nossas contradições”, disse o Presidente, numa mensagem na rede social Twitter.

No sábado, uma manifestação em Ouagadougou tinha apelado à demissão de Kaboré, a última de uma série de protestos contra o chefe de Estado, num contexto de desespero social pela forma como o seu Governo tem vindo a lidar com a insurreição islâmica.

Kaboré lidera o Burkina Faso desde que foi eleito, em 2015 (reeleito em 2020), após uma revolta popular que expulsou o então Presidente, Blaise Compaoré, no poder durante quase três décadas.

Ainda que reeleito em novembro de 2020 para mais um mandato de cinco anos, Kaboré não conseguiu combater a frustração que tem vindo a crescer devido à sua incapacidade de conter a propagação da violência terrorista no país.

Os ataques ligados à Al-Qaida e ao grupo ‘jihadista’ Estado Islâmico têm vindo a aumentar sucessivamente desde a chegada ao poder do atual Presidente, reclamando já milhares de vidas e forçando a deslocação de um número estimado pelas Nações Unidas de 1,5 milhões de pessoas.

Também os militares vêm a sofrer baixas desde que a violência extremista começou em 2016. Em dezembro último, mais de 50 elementos das forças de segurança foram mortos na região do Sahel e nove soldados foram mortos na região centro-norte em novembro.

Soldados revoltosos disseram à AP que o Governo estava desligado das suas forças no terreno, que os seus camaradas estão a morrer e que querem assumir o controlo dos militares, para garantir melhores condições de trabalho, aumentos salariais, e melhores cuidados para os feridos e para as famílias dos mortos.