Boaventura de Sousa Santos (BSS) acusou Moira Millán de fazer “acusações falsas e caluniosas” e exige “um pedido de desculpas público” à ativista mapuche, que o acusa de assédio sexual. Num documento de 12 páginas enviado ao Público, o fundador e diretor emérito do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra apresenta trocas de emails que, acredita, “desmentem as imputações”.

Neste documento, Boaventura refuta apenas às acusações de Moira Millán com o argumento de que foi “a acusação mais grave” feita contra si e, por isso, responde-lhe em primeiro lugar, justificando que “quanto às outras acusações que têm vindo a lume”, vai “recolher informações” e tomará “as mediadas adequadas”. Questionado pelo jornal sobre as acusações concretas da investigadora Bella Gonçalves — de que BSS lhe terá acariciado o joelho, prometendo que “todas as portas” do centro se abririam caso aprofundassem a sua “relação pessoal” — respondeu querer que o CES faça as “apurações necessárias” para que “se possa defender”.

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“Gostaria de não ter que avançar por meios jurídicos para resolver esta questão, o que seria possível se a senhora Moira Millán reconhecesse a inverdade das graves acusações que fez a meu respeito e fizesse um pedido público de desculpas”, escreveu nesse mesmo texto, que foi entretanto enviado também para vários destinatários do meio académico.

Em resposta a Boaventura após ser contactada pelo Público, Millán disse que “de maneira nenhuma” apresentaria esse pedido de desculpas e afirmou estar decidida a apresentar junto da justiça portuguesa uma “denúncia penal” por vários crimes, incluindo a privação de movimentos. “Ele que faça o que quiser judicialmente. Também vou procurar justiça. Dizer que tudo o que eu disse é mentira era mentir a mim mesma”, declarou ao jornal.

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O investigador nega a história da ativista

Segundo a ativista argentina, o episódio de assédio sexual ocorreu em 2010, quando viajou para Coimbra a convite de BSS para dar uma aula de pós-graduação. Moira Millán recordou ter sido convidada pelo investigador para um jantar onde estavam os dois sozinhos num restaurante vazio, mas o investigador nega-o, tendo apresentado no documento a fatura de dois jantares na mesma data e local no Restaurante o Trovador, onde alega que foram nessa mesma noite e onde não poderiam ter “privacidade”.

“Encerrámos o jantar quando o restaurante já estava quase fechado e, como já era tarde, eu acompanhei a convidada até ao Hotel Botânico, sempre a pé”, descreve BSS, garantindo, ao contrário do que foi afirmado pela ativista, que “nunca” a convidou para sua casa.

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Em entrevista ao Observador, Moira relatou o que se teria passado quando entraram na casa de Boaventura desta forma: “Quando chegamos, ele senta-se e toma um uísque. Eu sento-me em frente a ele e ele põe-se em cima de mim. Atira-se para cima de mim, manuseia-me, quer beijar-me, eu empurro-o.

Questionado pelo Público, BSS nega ter estado com a ativista em sua casa ou em qualquer espaço privado, como escritório ou segunda morada. “Em nenhum dos momentos ocorreu qualquer das situações descritas”, escreveu o sociólogo referindo-se às alegações feitas por Millán num programa de rádio argentino em 2010 e, em 2022, num encontro de Mulheres indígenas no México.

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No dia seguinte, Millán diz que Boaventura de Sousa Santos lhe entregou pessoalmente o bilhete de comboio de regresso a Lisboa ao almoço, durante o qual lhe terá pedido desculpa pelos eventos da noite. Mas o investigador diz que “tal situação nunca aconteceu”. E acrescenta: “A minha secretária foi ao hotel para lhe entregar o bilhete e levá-la de carro à estação. Não voltei a encontrar-me com ela.”

As trocas de emails e a conta pirateada

No documento enviado por BSS ao Público, constam os emails que, no seu ponto de vista, “desmentem as imputações”. Um deles, que terá sido enviado pela ativista ao investigador a 23 de junho de 2010, diz o seguinte: “Mando-te um grande abraço confessando que guardo com carinho o aroma das ruas de Coimbra, aquela noite quente, o nosso passeio sem pressa e a conversa cativante e estimulante que tivemos e, claro, o teu bom gosto para os vinhos.”

“Respondi quase de imediato, de forma cordial e profissional”, escreve Boaventura no documento, apresentando a sua resposta: “Fico contente por saber que gostaste da passagem por Coimbra. Tive muito gosto em receber-te. A tua palestra foi muito apreciada por todos. Também me senti muito desafiado pelas tuas perspetivas sobre as lutas indígenas.”

Questionada pelo Público, Millán justificou que escreveu, de facto, essa mensagem, mas “para outra pessoa em Paris” e que, segundo um comunicado que emitiu na segunda-feira através da sua conta de Instagram, terá sido dois anos antes. Na nota, começa por escrever: “Não me surpreende em absoluto que Boaventura de Sousa Santos venha desmentir e acusar as suas vítimas de mentirosas e difamadoras. Agora pede-me que me retifique e não o farei de certeza (…) Calei a injustiça de que fui vítima durante tanto tempo, tempo que ele usou para continuar a abusar.”

“O meu correio eletrónico foi pirateado assim que cheguei à Argentina”, explicou ainda. “Quando percebi que a minha conta tinha sido hackeada, expliquei a situação a todos os contactos com quem desejava continuar a minha comunicação, ele [BSS] com certeza não estava na minha lista, cortei toda a comunicação, jamais tentei recuperar qualquer vínculo com ele (…) Não tenho outro motivo além de fazer justiça. Porque é que tantas mulheres o difamariam? O que ganharíamos com isso? Estou demasiado ocupada na luta permanente pela amplificação e reconhecimento dos nossos direitos para me ocupar do ego de um homem europeu, branco, burguês e académico.”

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Segundo Boaventura, ao email amistoso de Millán seguiram-se quatro pedidos de ajuda financeira por parte da ativista entre 2010 e 2014. O investigador diz que não lhes respondeu pois não se enquadravam “na política de apoios do CES”, tendo respondido apenas ao último, chegado em agosto de 2014, onde era solicitado “apoio para uma marcha das mulheres originárias na Argentina”. De acordo com o Público, este é o único dos quatro emails apresentados pelo investigador onde é incluído o nome próprio do sociólogo. Nas restantes mensagens, não é feita qualquer referência que possa indicar que eram dirigidas a BSS.

Sobre isso, Millán escreveu no comunicado: “Fizeram-me saber que esse senhor está a expor uns emails e quero expressar o seguinte: os emails a coordenar a minha visita a Coimbra são verdadeiros. Há outro que corresponde ao meu regresso do Foro Social Mundial que solicitava apoios não apenas a ele, mas a uma longa lista de pessoas (…) apenas trocavam os destinatários e o teor dos emails era o mesmo”. “Boaventura Sousa Santos sabe o que fez, tenho a paz e a força para lutar por justiça”, terminou.

“A perseguição contra o povo mapuche [na Argentina e no Chile] permite aos serviços de informações entrar nas nossas contas de correio eletrónico e redes sociais, estou sempre na lista dos que são alvo de intervenção pelos serviços de informações”, justificou ainda ao Público, acrescentando que já não dispõe dessa conta.

De acordo com o jornal, um relatório de novembro de 2021, a Amnistia Internacional da Argentina qualificou a reclamação indígena, particularmente a dos mapuche, como “problema de segurança nacional”, referindo intervenções dos serviços secretos e de cibervigilância.

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