A Sporting SAD e a Benfica SAD confirmaram ter sido constituídas arguidas no âmbito do processo ‘Fora de Jogo’, que incide sobre suspeitas de fraudes e branqueamento envolvendo contratos e transferências de jogadores, que ascendem a 58 milhões de euros. A confirmação chegou horas depois de a Autoridade Tributária (AT) e a Unidade de Ação Fiscal da GNR terem feito buscas na Torre das Antas, do Futebol Clube do Porto (FCP), no estádio do Sporting e do Benfica durante esta quarta-feira.

Em comunicado, o clube leonino confirma as buscas aos seus escritórios e revela que a Sporting SAD foi constituída arguida. “Confirmamos ainda que a Sporting SAD foi constituída arguida no âmbito do mesmo processo, que incide sobre diversos contratos e transferências de jogadores de futebol, ocorridos no período compreendido entre 2015 e 2017”, refere o comunicado do clube, sublinhando que a Sporting SAD está “convicta” de que o processo “não terá impactos relevantes para a Sociedade, na medida em que a sua atividade, e em particular as transferências e contratos de jogadores, é auditada pelas entidades competentes, no estrito cumprimento da lei”.

Por sua vez, os encarnados também emitiram uma nota onde sublinharam que manifestaram “a sua total disponibilidade e abertura para colaborar com as entidades competentes como sempre aconteceu até aqui”.  “A Sport Lisboa e Benfica – Futebol, SAD vem confirmar que (…) foi constituída arguida no âmbito de um processo que está em segredo de justiça”, lê-se no comunicado divulgado pelo clube lisboeta.

A notícia das buscas foi avançada pelo Correio da Manhã e confirmada pelo Observador. Além dos locais já revelados, também a casa de Alexandre Pinto da Costa, filho do presidente do FCP e agente de futebol, a Gestifute, empresa de gestão de carreiras de jogadores de futebol de Jorge Mendes, estão a ser alvo das buscas esta quarta-feira. Em causa estão alegados crimes de fraude fiscal em transferências de jogadores.

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Ao que o Observador apurou, as buscas às instalações do Benfica foram motivadas pelas suspeitas em relação às transferências dos jogadores Gonçalo Guedes, Rafa, Vlachodimos e Chiquinho — que, assim, juntam-se à lista que inclui já Jonas, Gaitan, Júlio César, Bernardo Silva, João Cancelo e André Gomes. Também  as casas destes jogadores foram alvos de buscas esta manhã.

Investigação ao futebol põe em causa modelo de transferências. Como clubes, agentes e jogadores fogem ao Fisco: o caso do Benfica

De acordo com a Lusa, a operação desta quarta-feira incluiu mais de 60 buscas, visando os três grandes clubes, além de escritórios de advogados e de contabilidade e diversas residências, numa investigação centrada em suspeitas de fraudes e branqueamento que ascendem a 58 milhões de euros, sobre factos ocorridos entre 2014 e 2022.

De acordo com o Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), as buscas foram efetuadas em Lisboa, Porto, Braga, Viana do Castelo, Aveiro e Setúbal. Nos inquéritos que originaram a operação estão “suspeitas de prática de crimes de fraude fiscal qualificada, fraude contra a segurança social e branqueamento de capitais, ligadas com celebração ou renovação de contratos de trabalho desportivo, pagamento de comissões e circuitos financeiros que envolvem os intermediários nesses negócios, bem como utilização de direitos de imagem”.

As diligências contaram com a participação de aproximadamente 250 elementos, entre da AT, militares da GNR, procuradores do Ministério Público, juízes e representantes da Ordem dos Advogados. Em comunicado, o FCP confirmou que o Ministério Público realizou as buscas nos escritórios da SAD e garantiu a colaboração com a justiça.

“Na sequência de diligências anteriores, e a exemplo do que está a ocorrer em outras sociedades desportivas, a Futebol Clube do Porto – Futebol, SAD confirma que estão a decorrer buscas levadas a cabo pelo Ministério Público junto das nossas instalações”, pode ler-se na nota publicada no site. “Como sempre, e certa do bom cumprimento das normas atinentes à sua atividade, a Futebol Clube do Porto – Futebol, SAD encontra-se a colaborar com a justiça e a disponibilizar todos os elementos que lhe sejam solicitados.”

Numa nota publicada no site, também a SAD do Benfica confirmou as buscas, manifestando “total disponibilidade para colaborar com as entidades competentes” — justificando com o “respeito pelo segredo de justiça existente no âmbito da investigação” que não fará mais comentários. “No estrito respeito pelo segredo de justiça existente no âmbito da investigação em curso, a Sport Lisboa e Benfica – Futebol, SAD não fará mais qualquer comentário sobre esta matéria.” De acordo com a agência Lusa, também o Sporting confirmou as buscas.

A operação “Fora de Jogo”

As buscas desta quarta-feira terão, alegadamente, decorrido no âmbito da megaoperação “Fora de Jogo”, que já fez 47 arguidos, tendo a operação resultado já em mais de 100 buscas. Visam futebolistas, empresários, e as SAD dos principais clubes, assim como na abertura de várias dezenas de inquéritos no DCIAP.

Como já explicou o Observador, os principais clubes são suspeitos de terem criado esquemas alargados de fraude fiscal qualificada em sede de IRC, IRS e IVA e fraude contra a segurança social, em conluio com alguns dos seus principais jogadores e respetivos agentes. No centro destes inquéritos está a dupla representação de agentes de futebol nas transferências dos jogadores.

No caso das transferências do Benfica, o MP e a AT já tinham imputado um alegado benefício patrimonial ilícito superior a 8,4 milhões de euros, na altura em que o clube era liderado por Luís Filipe Vieira. As transações, contratos de trabalho e desvinculação dos jogadores Jonas, Gaitan, Júlio César, Bernardo Silva, João Cancelo e André Gomes já teriam, segundo os investigadores apuraram, resultado num prejuízo total para os cofres do tesouro e da segurança social de pelo menos 23,6 milhões de euros. Juntam-se agora à lista as transferências suspeitas dos jogadores Gonçalo Guedes, Rafa, Vlachodimos e Chiquinho, que hoje motivaram as buscas no Benfica.

FC Porto e os seus jogadores terão alegadamente defraudado o Fisco em 20 milhões. Casillas, Danilo e Mangala entre os maiores beneficiários

O esquema do Porto é semelhante, como indicou aqui o Observador. No caso de 16 ex-jogadores azuis e brancos está em causa um alegado benefício patrimonial de cerca de 20 milhões de euros, sendo que a esmagadora maioria desse alegado benefício (cerca de 17 milhões de euros) será relativo a estrelas como Iker Casillas, Mangala, Falcao, James Rodriguez ou o internacional português Danilo Pereira.

Sporting terá pago prémios a Bruno Fernandes via agente e é investigado na venda de Raphinha por Deco

O Sporting Clube de Portugal é o terceiro grande do futebol português a ser investigado pelo DCIAP.  O clube terá criado um alegado esquema de fraude fiscal e branqueamento de capitais em regime de conluio com os agentes Jorge Mendes e Deco. Além de Jorge Mendes, também Miguel Pinho, agente de Bruno Fernandes,  cuja transferência está sob suspeita, está na mira dos investigadores por alegadamente ter faturado ao Sporting serviços que não terão sido prestados.

Como Jorge Mendes está a ser investigado devido a operações de mais de 420 milhões de euros

Jorge Mendes, que já foi considerado o melhor agente na história do futebol, é um dos principais visados neste megaprocesso. O super-agente foi constituído arguido por fraude fiscal, branqueamento de capitais e falsificação de documento em operações de cerca de 426 milhões de euros.

Notícia atualizada às 10h57 de 18 de maio, com a confirmação de que a Benfica SAD é arguida no processo