Depois de ter estado a encabeçar as apostas para o Nobel da Literatura durante cerca de uma década, Jon Fosse lá arrecadou o prémio. O telefonema da Academia sueca chegou-lhe quando já não surpreendia ninguém. Fosse, já considerado um dos mais importantes escritores noruegueses e do mundo, já contava com uma produção densa e longa: 39 romances e narrativas curtas, cerca de 40 peças de teatro, 13 livros de poesia, e ainda livros de ensaios e de literatura infantil. O autor escreve em nynorsk (neo-norueguês), língua minoritária na Noruega, onde cerca de 90% da população escreve em bokmål, opção justificada pela proximidade fonética ao norueguês com que cresceu.

O eu é um outro é o segundo volume da obra Septologia, uma trilogia quase unanimemente considerada a magnum opus do autor, dividida em sete partes. As duas primeiras estão no primeiro volume – O outro nome –, cuja tradução, também de Liliete Martins, foi publicada pela Cavalo de Ferro no ano passado; a terceira, a quarta e a quinta estão neste O eu é um outro; e as restantes estão no terceiro, que ainda não conhece tradução para português, mas que se adivinha para breve e na mesma chancela.

Aqui, o autor volta a pegar em Asle, um pintor cuja morte não deve tardar muito – não por alguma tragédia, mas simplesmente porque a vida já passou, e talvez a maior tragédia seja essa. Pela narrativa, o leitor vai vendo o tempo passar sem hipótese de retorno, as memórias como compósitos da psique, e a velhice como resultado de uma longa caminhada. Os episódios vão sendo apresentados, com uma incidência particular na infância e na adolescência da personagem, e, longe de ser apenas uma exposição de acontecimentos, a prosa vai sendo permeada por uma reflexão constante, para a qual contribui um tom escorreito, de frases longas, de ritmo trabalhado.

Viúvo e a viver a solidão, Asle prepara, neste ponto da narrativa, antes das incursões no passado, a sua próxima exposição. É em frente à sua última tela que medita sobre o que as décadas que passou guardaram, numa viagem que tanto toca na relação com a mãe como na relação com o álcool ou na sua ligação às telas ou mesmo no encontro com um homónimo, também pintor, que o ajudou a definir o destino.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR


Título: “O eu é um outro (Septologia III-V)”
Autor: Jon Fosse
Tradução: Liliete Martins
Editora: Cavalo de ferro
Páginas: 256

À medida que é dada vida às camadas, o leitor tem a sensação de ter perante si um retrato panorâmico, para o qual muito contribui a ideia de que tudo ali é uma analepse. Mas, em simultâneo, essa analepse vai sendo vista no presente, adensando e fortalecendo o laço empático, obrigando o leitor não só a ver a acção, mas também a seguir o fluxo da reflexão. Por isso, o romance lê-se de forma escorreita, até porque ao discorrer – descrever – e reflectir no mesmo movimento, Fosse deixa na prosa uma busca pelo sentido das coisas, pelo encaixe, pela sublimação do quotidiano. Essa sublimação não só é suficiente como mais do que basta – é tudo, é humanidade, é um humano a mexer-se vida fora. E é isso que permite que os três volumes possam ser lidos em separado, embora, convém também acrescentar, se complementem, formando um todo orgânico – e ler um sem os outros implica sempre abdicar dessa unidade. Aqui, por exemplo, ler o segundo volume implica uma analepse sobre a analepse que já constituía o livro anterior, num movimento de blindagem da informação e da psique. Para além de incursões nos aspectos biográficos, ainda é de notar a natureza repetitiva, até cíclica, da narrativa – ou das narrativas –, que faz com que a experiência de leitura inclua, para além dos aspectos da fruição e do mergulho, o aspecto da montagem, e este vai exigindo ao leitor que não se deixe cair num estado hipnótico que ponha de lado a sua participação.

O romance vai-se compondo de longos fragmentos, de frases que duram páginas, que não permitem pausas a quem lê. Nota-se que, para Fosse, o ritmo é um elemento primordial da sua produção literária: não apenas o possibilita, como o constitui. Há um cuidado permanente com o tratamento do aspecto fonético e do aspecto sintáctico do romance, que nunca cede e que o marca sem obstáculos aparentes e, sobretudo, sem fissuras. No meio de tantos longos exemplos, deixa-se aqui um que é curto:

e então faz-se o silêncio por uns instantes e depois o Geir diz que o Asle não se pode ir embora simplesmente, eles andaram tanto tempo a falar que iam criar uma banda, durante muito tempo falaram disso em cada intervalo da escola, e foi o Asle quem primeiro teve essa ideia e depois os outros aderiram, e agora que já arranjaram o equipamento, tudo de que necessitam, e lhes deram autorização para ensaiar na Associação da Juventude de Barmen, sim, tudo se resolveu, agora ele vai-se embora simplesmente? diz o Terje” (p.61)

O capítulo começa com minúscula e acaba sem pontuação, porque o fluxo continua a seguir, o fluxo marca o romance inteiro, com sabor de história a escorrer em catadupa. E este exemplo, que não será particularmente operante na narrativa, serve aqui para mostrar a capacidade magnética do estilo: quem cai numa palavra é obrigado a ler as outras.

Entre o teatro, a prosa lenta e o “impacto universal” de Jon Fosse

Fosse vai criando o universo de Asle, que é um universo principalmente interior, partindo de uma constelação diminuta de personagens, cujo âmago vai escancarando no livro. Em torno delas, temos a paisagem da chuva, do frio e da solidão, do escuro da Noruega que se abate sobre os ambientes trazidos ao romance, o que vai servindo para criar um ambiente fechado em torno de uma vida, de uma cabeça. Finda a leitura, sobre uma sensação de proximidade que tem sabor de cola.

A autora escreve segundo o antigo acordo ortográfico