Os custos com o pessoal da TAP mais que duplicaram no último trimestre do ano passado (122,4%), passando para 270,4 milhões de euros. Não é um salto inesperado na medida em que reflete a reposição da grande parte dos cortes salariais implementados temporariamente durante os anos de reestruturação. A TAP explica que contabilizou no último trimestre o impacto total da reposição dos cortes que, na maioria das classes profissionais, estava já em vigor no trimestre anterior, o que inflacionou os custos com pessoal relativos aos últimos três meses do ano.

A companhia apresentou esta quarta-feira mais um recorde de lucros anuais para 2023. No entanto, o resultado de 177,3 milhões de euros ficou aquém do apresentado nos primeiros nove meses do ano — também um resultado recorde de 203,5 milhões de euros. Aliás no terceiro trimestre de 2023, o lucro de 180,5 milhões de euros foi mesmo o resultado trimestral mais elevado desde que há registos trimestrais.

TAP com lucros recorde de 177,3 milhões em 2023

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O que justifica esta travagem é a inversão dos lucros para prejuízos de 26,2 milhões de euros no último trimestre, o que veio a criar alguma sombra sobre mais este recorde numa história de reestruturação que tem sido apresentada como um sucesso. De acordo com o comunicado da TAP, este resultado não só reflete uma queda de 182,6 milhões de euros face ao último trimestre do ano anterior (2022), como diminuiu 41,4 milhões de euros face aos últimos quatro meses de 2019, o último antes do impacto da pandemia.

Este quadro influenciado pela pressão dos custos com o pessoal mereceu o comentário do primeiro-ministro cessante, tendo António Costa alertado para a necessidade da administração da TAP cumprir o acordado no plano de reestruturação.

Segundo a empresa, o quatro trimestre “foi impactado por custos extraordinários (de 54,4 milhões de euros), por custos com efeitos retroativos (até pelo menos ao início do terceiro trimestre) que são referentes a outros trimestres (21,5 milhões de euros), e pela reposição dos cortes de remuneração igualmente referentes a outros trimestres (3,7 milhões de euros)”. Ou seja, sem esses efeitos não recorrentes, o valor total de custos com pessoal totalizaria 190,8 milhões de euros, o que representaria um aumento de 55,9% face ao último trimestre de 2022.

Mas a própria TAP assinala ainda que os custos operacionais recorrentes aumentaram 32,2% face ao último trimestre de 2019 — ano antes da pandemia e da reestruturação — o que justifica pelo acréscimo dos custos com combustível, mas também com pessoal. Sem considerar elementos recorrentes, os custos com pessoal do último trimestre estão 62% acima dos registados no último trimestre de 2019. No final de 2019, a TAP tinha 8.100 trabalhadores e, no final do ano passado, eram 7.558.

A empresa reconhece que este aumento dos custos com o pessoal é “relevante”, mas realça que o “processo dos novos acordos de empresa foi crucial para restabelecer as bases de uma operação fluida e eficiente”. A TAP desvaloriza ainda o seu efeito a médio e longo prazo que será não recorrente e destaca a forte performance comercial alcançada no mesmo período.

Neste comunicado de oito páginas, a empresa liderada por Luís Rodrigues não faz referência à necessidade de revisão dos acordos alcançados no ano passado, noticiada por órgãos como a TVI e o Eco, pelo facto de os custos com pessoal terem ultrapassado o rácio limite inscrito no plano de reestruturação em 120 milhões de euros. E, questionada pelo Observador sobre essa renegociação dos acordos de empresa, não deu qualquer resposta.

Esta quarta-feira, o primeiro-ministro cessante deixou um alerta para a necessidade da administração cumprir o plano acordado com a Comissão Europeia. Questionado na última conferência de imprensa antes de abandonar funções, António Costa saudou os resultados bons, mas avisou que é “importante que continuem bons”.

Foi por isso “que o ministro das Finanças deu as devidas instruções à administração para que a gestão da TAP se adeque com aquilo que são os compromissos assumidos no contrato de reestruturação. Convém não esquecer que o financiamento da TAP pelo Estado obedece e está sujeito ao regime de ajudas de Estado e que só foi possível em articulação com a Comissão Europeia e com base num plano de reestruturação que tem vindo a ser executado”.

“Sem esse plano, as ajudas de Estado não são possíveis e sem ajudas o sucesso da TAP não é possível. Não é possível desligar os resultados alcançados do plano contratado com a Comissão Europeia que tem de ser respeitado”.