10 canções que precisa de ouvir este Natal (como em todos os natais) /premium

23 Dezembro 2018169

Algumas são óbvias, outras nem por isso; outras ainda nem sequer têm uma única referência natalícia. Ainda assim, todas elas fazem sentido. Leia, ouça e coma uma rabanada. Porque não?

As canções de Natal são um género à parte. Impossíveis de ouvir noutra altura; impossíveis de não ouvir nesta. São a tradução, em língua dos homens, do espírito natalício – assumindo que há um. Se agradece imenso aos Wham!, a Mariah Carey e ao Coro de Santo Amaro de Oeiras, mas já chega, passe à lista seguinte:

“White Christmas”

Bing Crosby

Bing Crosby dizia que a coisa mais difícil que fizera na vida fora cantar “White Christmas” em França, para 100 mil soldados norte-americanos lavados em lágrimas, sem ele próprio se deixar chorar. A canção foi sempre muito amada entre as tropas americanas na II Guerra, que a identificavam com um regresso a casa. Irving Berlin escreveu-a e Crosby interpretou-a, pela primeira vez, no dia de Natal de 1941, no programa que mantinha na NBC Radio. Gravada no Verão de 1942 pela Decca, tornou-se um sucesso imediato, reconhecido com o Óscar de Melhor Canção Original naquele mesmo ano, para o dueto de Crosby com Marjorie Reynolds (na verdade, a voz é de Martha Mears) em “Holiday Inn”.

Conhecem-se mais de 500 versões de “White Christmas”, em diferentes línguas, que venderam mais de 100 milhões de cópias em todo o mundo. Só a versão de Crosby é responsável por metade, fazendo dela nada mais, nada menos do que o single mais vendido de sempre. É o clássico dos clássicos de Natal, mas o que se quer do Natal senão, justamente, o sabor do regresso ao que se conhece e nos conhece? Ao primeiro verso – “I’m dreaming of a white Christmas” – somos imediatamente teletransportados para a infância mitológica do tempo dos natais perfeitos, absolutamente verdadeiros, mesmo que não os tenhamos vivido (ou quem se atreverá agora a dizer-nos que, provavelmente, nunca nevou no degrau da nossa porta, enquanto crescíamos?). O segundo verso confirma tudo: “just like the ones we used to know”. Eh, conservadorismozinho gostoso.

“Happy Xmas (War is Over)”

John Lennon & Yoko Ono

O clássico dos clássicos da geração seguinte. Os Beatles tinham acabado no ano anterior e John Lennon e Yoko Ono estavam no auge da sua – por assim dizer – carreira enquanto casal público. Já estavam na rua as fotos em nu integral que escusávamos de ter visto, os protestos contra a Guerra do Vietname, o tumultuoso ocaso dos sonhos dos anos 60 e os movimentos de contracultura que lhe seguiram. Tudo isso, mais a fórmula “canção de protesto docinha” descoberta pouco antes por Lennon com o sucesso retumbante de “Imagine”, compõe o contexto de onde “Happy Xmas (War is Over)” emergiria, no final de 1971.

O sétimo single de Lennon fora dos Beatles é um tema político, mas também uma canção de Natal que se autonomizaria com facilidade e perduraria no tempo muito para lá da sua circunstância. A letra, facilmente catalogável de simplista e literal, carrega uma pureza desconcertante nas vozes das 30 crianças do Harlem Community Choir que acompanham Lennon e Ono. E os versos de abertura – “So this is Christmas / And what have you done” – continuam a comprometer cada um de nós, ano após ano, com uma estranha espécie de irresistível exame de consciência.

“Driving Home for Christmas”

Chris Rea

Não é a melhor canção de Natal de sempre – tem, na verdade, qualquer coisa de falso na produção, típica de uma certa estética dos anos 80, que a mina – mas é, certamente, a melhor canção de Natal feita para o carro e não para a casa, para a estrada e não para a rua, para o que está antes e forçosamente no caminho para chegar àquilo de que nos falam as outras canções. Saiu como um dos dois originais incluídos na colectânea New Light Through Old Windows, lançada por Chris Rea em 1988, mas, na verdade, estava já escrita há muito.

Rea compusera-a dez anos antes, entre sinais vermelhos, quando a mulher os tentava conduzir de volta a Middlesbrough no seu Austin Mini original, depois de mais uma sessão de gravações em Abbey Road, Londres, para uma editora que se recusava a pagar-lhe o bilhete de comboio. Em volta, só havia trânsito, neve e a má-disposição geral dos outros condutores, o que transforma “Driving Home for Christmas” num nobre acto de ironia e resistência. Para já não dizer que “get my feet on holy ground” é um dos mais acertados versos da pop acerca desse tempo que é também um lugar: a casa de família no Natal. E que a voz atapetada de Rea (um gato poderia roçar-se nela) parece, realmente, fazer parte dessa mobília.

“7 O’Clock News / Silent Night”

Simon & Garfunkel

Agora, já só com um pé na tradição e outro na ironia. Em 1966, Paul Simon e Art Garfunkel gravaram esta versão muito particular do tema tradicional “Silent Night” para o terceiro álbum da banda, “Parsley, Sage, Rosemary and Thyme”. Começamos com o embalo cândido de “Silent Night”, aqui nas vozes seráficas do duo, soando, porventura, mais angelical do que nunca; depois, vai-se sobrepondo a leitura de um pretenso noticiário de 3 de Agosto de 1966.

Pela voz de Charlie O’Donnell, locutor então mais conhecido do público norte-americano pela “Roda da Sorte”, as notícias falam-nos da luta pelos direitos civis em curso no Congresso, da marcha planeada por Martin Luther King para dali a dias, nos subúrbios de Chicago, e de como as autoridades a desaconselhavam, da morte do comediante Lenny Bruce por overdose, do julgamento de Richard Speck, acusado da morte sanguinária de nove estudantes de enfermagem, e do discurso do então ex-vice-Presidente Nixon contra os opositores à Guerra do Vietname. À medida que as vozes de Simon & Garfunkel vão desaparecendo e a de O’Donnell subindo de volume, passamos por diferentes estados de alma, da doçura ao desconforto. O equivalente musical à descoberta de que o Pai Natal não existe.

“Christmas (Baby, Please Come Home)”

Darlene Love

Levemente deprimido com o tema anterior? Então, tome um pouco disto. O black power de Darlene Love é capaz de pôr instantaneamente a dançar o mais esfíngico guarda do Palácio de Buckingham, o mais pálido funcionário de guichet das finanças aí do bairro. Lançada em 1963 para a compilação de Natal Christmas Gift for you from Philles Records (mais tarde, “from Phil Spector”), “Christmas (Baby Please Come Home)” não é apenas uma canção de Natal; é a festa inteira.

Muito mais rock n’roll, soul, carnal, calorosa e menos “branca” da neve do que a generalidade das congéneres, “Christmas” já foi cantada por toda a gente, de Mariah Carey aos Foo Fighters, dos U2 a Jon Bon Jovi, de Cher a Joey Ramone – nada se compara ao fulgor de Darlene Love, que nem era para ser a intérprete original (essa deveria ter sido Ronnie Spector, futura mulher e vítima de Phil, mas faltou-lhe, alegadamente, emoção). A partir de 1986 e durante quase 30 anos, David Letterman recebeu Love, hoje septuagenária, para interpretar “Christmas” na última edição de cada ano do “Late Night” e, depois, do “Late Show”. Após, um fugaz interregno de um ano, o “The View”, da ABC, recuperou a tradição. Christmas power.

“The Power of Love”

Frankie Goes to Hollywood

Como diz alguém num comentário ao videoclip no YouTube, é a melhor canção de Natal de sempre que não fala do Natal. “The Power of Love” foi, antes de mais, o terceiro single de Pleasuredome, o álbum de estreia dos Frankie Goes to Hollywood, e o terceiro a atingir o primeiro lugar dos mais vendidos no Reino Unido. Seguir-se-ia uma lenta queda até ao desaparecimento da banda depois do segundo e último álbum, o modesto Liverpool, em 86. Antes disso, porém, houve isto.

Nada na letra, ou sequer na sonoridade, liga explicitamente “The Power of Love” ao Natal, mas a verdade é que foi lançado em vésperas da época, a 19 de Novembro de 1984, tendo na capa uma reprodução de uma “Ascensão da Virgem”, de Ticiano, e com um teledisco exclusivamente dedicado a contar a história do Natal – do nascimento de Cristo numa manjedoura à visita dos reis magos, guiados por uma estrela. Mero artifício comercial? É duvidoso. Há, de facto, um tom grandiloquente – dir-se-ia bíblico – no poema que afasta aquele amor do mais trivialmente humano costumeiro na pop. Épico, barroco, grandioso – independentemente de tudo, há qualquer coisa em “The Power of Love” que empurra para a salvação.

“Just Like Christmas”

Low

Os indie rockers, shoegazers na sala, já estão a ressacar por qualquer coisinha menos épica? Mais modesta? Mais irónica? Mais deprimida? Então, tomem lá o “Just Like Christmas”. Como o nome indica, nem sequer é bem o Natal; é como se fosse.

Mas a verdade é que é o tema de abertura do EP natalício que os Low ofereceram aos fãs, porventura inesperadamente, ali bem perto do tempo do fim do mundo, nos idos de mil nove e 99. São três minutos e pico que um urbano-depressivo pode ouvir nesta época lembrada, sem sentimento de culpa e quase sem destoar do resto da maralha. Outra boa hipótese: “Christmas will Break your Heart”, dos LCD Soundsystem.

“Fairytale of New York”

Pogues

Foi apenas um sucesso relativo em Novembro de 1987, quando os Pogues o lançaram; depois, tornou-se a canção de Natal mais tocada no Reino Unido no século XXI e presença recorrente nas listas das melhores canções de Natal de sempre de BBC, VH1, Channel 4, NME e Rolling Stone, entre outras. Talvez um reflexo dos tempos e da nossa perda da inocência, a verdade é que já estamos aqui muito longe da candura alva do Natal de Bing Crosby. Tema simultaneamente tão celta como nova-iorquino, “Fairytale of New York” é, fundamentalmente, o diálogo entre um casal de bêbedos na véspera de Natal, ora azedo, ora doce, à volta dos sonhos que destruíram ou guardaram para viver em conjunto (“I could have been someone”, dizem, a determinado momento, quase citando Marlon Brando, aliás, Terry Malloy, o arquétipo do vencido, em “Há Lodo no Cais”).

Nos últimos tempos, voltou à baila trazida pelo puritanismo reinante, ofendido pela linguagem (algures, a personagem de Kirsty MacColl chama “faggot” – “maricas” – à de Shane MacGowan, num bate-boca que envolve chamarem-se também de velho e drogado e desejarem a morte um ao outro). Só por ter ofendido as imaculadas virgens do presente, incapazes de suspeitar da menor noção de narrativa, arte ou drama, já mereceria o pódio, mas “Fairytale…” é muito mais do que isso. E tem, na sua sujidade, uma das mais comoventes melodias dos últimos 30 anos de natais.

“Have Yourself a Merry Little Christmas”

Coldplay

Sim, Coldplay. Atire o primeiro disco do “Nesta Noite Branca” quem nunca teve um guilty pleasure. “Have Yourself a Merry Little Christmas” é um desses clássicos pesos-pesados do Natal, só uns poucos furos abaixo do sucesso de “White Christmas”, e foi gravado e consagrado enquanto standard por gente como Judy Garland, Frank Sinatra, Doris Day, o próprio Bing Crosby ou Ella Fitzgerald, mas teve na voz e piano de Chris Martin quem lhe inflasse nova vida e voltasse a fazer as palavras da canção soarem-nos como da primeira vez, e não como o papel de parede que o hábito esterilizou e onde a nossa atenção já não se demora, como acontece em “White Christmas” ou qualquer outro standard por revivificar.

Escrito por Hugh Martin e Ralph Blane, “Have Yourself…” foi, originalmente, apresentado por Judy Garland numa cena de “Meet Me in St. Louis”, filme de Vincent Minnelli de 1944. Foram as críticas da própria Garland, de Minnelli e do actor Tom Drake que obrigaram Martin a voltar ao poema, eliminar o tom triste original e acrescentar os versos que lhe conferiram o optimismo que tornaria a canção particularmente mágica. A versão dos Coldplay que abre o EP “Mince Spies”, lançado no Natal de 2000, poucos meses depois do álbum de estreia “Parachutes”, reabre a porta e permite que a luz volte a iluminar o delicado sentimento protector oferecido pelos versos “from now on, our troubles will be far away” ou “out of sight”. No mesmo tom nostálgico de “White Christmas”, celebra-se o estar ali como nos “olden days / happy golden days”, mas, sobre ele, soma-se a promessa do futuro: “Through the years we all will be together”. Enfim – “If the fates allow”. “Have Yourself a Merry Little Christmas” é isso: um “White Christmas” que soma a esperança à nostalgia; um comprazimento com a vida, e não apenas uma recordação dele.

“Christmas Card from a Hooker in Minneapolis”

Tom Waits

E depois destas palavras bonitas, é claro que só podíamos acabar com o postal de Natal de uma prostituta em Mineápolis. É um tema de 1978, extraído de Blue Valentine, o quinto álbum de Tom Waits. É a quintessência da obra de Waits nessa primeira década: blues, piano, um poema em forma de história sobre gente que, se não existe, podia existir, vinda, habitualmente, do lado de baixo de vida – e a música nunca foi muito melhor do que isto. Quem não gosta de Waits, ouvirá só um tipo a rezingar; todos os outros verão o filme diante dos olhos.

Como “The Power of Love”, “Christmas Card…” não faz qualquer menção explícita ao Natal na letra, nem tem, na sonoridade, qualquer arranjo que a torne imediatamente elegível para a época. Mas tem a história de uma mulher que está grávida e que tem um companheiro que promete criar o filho como se fosse dele. No fim, lá confessa que não, não tem ninguém, mas que, se Charlie a puder ajudar com algum dinheiro, talvez ela saia em condicional lá para o dia dos namorados. E um tipo sorri e comove-se – o que é que querem? Feliz Natal.

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