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Os compositores António Pinho e Luís Linhares lembram a Fimarmónica Fraude

Os compositores António Pinho e Luís Linhares lembram a Fimarmónica Fraude

50 anos de Filarmónica Fraude e o primeiro grande álbum de rock português /premium

Em 1969, uma banda da província tomou de assalto a capital ao navegar no estreito que separa a canção tradicional da popular. Os compositores António Pinho e Luís Linhares lembram a Filarmónica Fraude

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A cidade está cheia. O trânsito entope a rotunda do Marquês de Pombal, eternamente em obras. Há 50 anos, Lisboa dedicava-se ao Natal de sempre, as iluminações festivas a descer pela Avenida da Liberdade, a distribuição de agasalhos e brinquedos, o Natal dos Hospitais, os coitadinhos do Portugal cinzento. E para quem pode, nas montras da Baixa Pombalina, os novos televisores Siemens — “O Prestígio da Técnica”. Porém, na mesma Lisboa lúgubre de 1969, completamente desalinhados com esta história, cartazes gigantes anunciam, imagine-se, um álbum de insurgentes canções portuguesas: Epopeia, da Filarmónica Fraude

O nome não engana. Não era somente um álbum de canções pop-rock portuguesas, nem sequer um desvario megalómano da editora Philips que espalha os cartazes pela Baixa, era mesmo uma extraordinária epopeia, de miúdos provincianos que tomam de assalto a capital, armados apenas de alguns instrumentos comprados com rifas e um grande descaramento. “Entre nós existia uma certa filosofia de desalinhamento, nunca perdemos a vontade e a sabedoria de criticar tudo à nossa volta”, reflete António Pinho, letrista desta banda enigmática, que não era yé-yé, apesar das guitarras elétricas, nem era de protesto, apesar das críticas sagazes ao regime. “Perguntavam-nos: ‘mas vocês são o quê, são esquerda, são direita?’ Não somos coisa nenhuma”.

Cinquenta anos depois, Epopeia — o primeiro grande álbum de rock português — ainda não foi reeditado. Convém esclarecer que, tecnicamente, o primeiro álbum de rock português é Conjunto Académico João Paulo no Monumental. No entanto, esse disco é uma coletânea de singles, está muito distante da conceção de Epopeia, um álbum de composições originais pensado por inteiro, uma navegação audaz no estreito que separa a canção tradicional da popular. Custa a crer pela envergadura da empreitada que Epopeia seja apenas o segundo longa duração de rock em Portugal. E agora, antes que a memória nos falhe, como tantas vezes sucede na canção popular portuguesa, é urgente perceber quem eram afinal a Filarmónica Fraude e qual o seu lugar na nossa história. “Acho que ninguém sabe quem é a Filarmónica Fraude”, sentencia fatalmente Luís Linhares, teclista e compositor da banda. “Foi uma coisa demasiado efémera”.

Na órbita do rock, mas não muito

No vernáculo particular de António Pinho está uma frase memorável, que responde não respondendo ao desígnio desta banda cabalística: “Gostamos de achar bem quando se trata de achar bem, mas também prezamos de achar mal quando se trata de achar mal. Infelizmente achamos mais mal que bem”. “Mas nunca fui membro da Filarmónica Fraude”, esclarece de seguida António Pinho, sentado ao lado de Luís Linhares, que não deixa de sorrir ao ouvir as respostas armadilhadas do seu velho amigo. “Por acaso, apareci na capa do EP do famoso fotógrafo, Eduardo Gageiro, e aparecia vagamente nos lançamentos, a mandar umas bocas cá para fora”. A curiosa mescla de humildade e sarcasmo é marca registada do letrista de Filarmónica Fraude e Banda do Casaco, célebre produtor do boom do rock português e hoje concorrente do Festival da Canção 2020. Este espírito irrequieto começou a traduzir-se em letras no Entroncamento, berço que nunca lhe agradou e nem sequer assentou muito tempo. “Aos dez anos de idade enfiaram-me em Lisboa, no Colégio Militar, uma organização que sempre detestei e que fez de mim o que sou hoje: um desalinhado”.

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A capa do primeiro EP da Filarmónica Fraude

Ao mesmo tempo, um rapaz de Tomar tinha o primeiro contacto com a música, na sala de casa, num piano de 1832. “Aprendi a tocar piano em casa com professores particulares e só mais tarde completei o conservatório”, recorda Luís Linhares, hoje investigador e académico, ainda um orgulhoso tomarense, volta e meia na capital para almoçar com António Pinho e apresentar trabalho no Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical. E quem diria, até na “província” — a palavra que os lisboetas de então arremessavam com desdém — chegaram de rompante os tais anos 60, através das antenas. “O advento do FM foi fundamental, começamos a combinar encontrar-nos em casa uns dos outros, para ouvir o programa Em Órbita, era uma coisa mística”, relembra dos tempos de adolescência em Tomar, enquanto António Pinho sintonizava na mesma estação de rádio em Lisboa, mais aperaltado, com botas pretas à Beatles de fecho-éclair ou elástico, boas novas da cidade grande que mostra ao amigo José Parracho nas eventuais visitas ao Entroncamento.

“O José Parracho estudava em Tomar porque era obrigado, para quem era do Entroncamento não havia muitas soluções para continuar a estudar”, explica Luís Linhares sobre a mudança do baixista da Filarmónica Fraude, onde a esta altura do campeonato os tomarenses Júlio Patrocínio e António Antunes já dominavam o circuito de bandas da cidade. José Parracho não perde a corrida, mantém o contacto com António Pinho e os dois improvisam um conjunto com o nome caricato G-Men, compram uma guitarra Hofner com dinheiro de rifas e como quem não quer a coisa, chegam às eliminatórias do histórico Concurso Yé-Yé no Teatro Monumental, em Lisboa.

O acaso ditou que entre o público da Praia do Alvor estivesse o jornalista Francisco Assis Pacheco, do Diário de Lisboa. No dia 12 de agosto, 1968, Francisco Assis Pacheco escreve a reportagem “A Filarmónica Fraude -- Nas noites Brancas de Alvor”, descrevendo a banda com “um órgão Hammond comprado praticamente quando chegava à Alfândega de Lisboa”, e uma aparelhagem que “está a ser amortizada com prestações”.

“Hoje é diferente, as coisas terminam rapidamente, na altura terminávamos os grupos por falta de meios, ou porque vinha a tropa e os estudos”, contextualiza António Pinho do primeiro momento efervescente de bandas rock em Portugal. “Hoje não há esse tipo de privações, quando vejo grupos novos, parece que já nascem ricos, com equipamentos e estúdios em casa, naquela altura sofremos para comprar uma guitarra elétrica na Casa Gouveia Machado em Lisboa, fazíamos festas com amigos com rifas para comprar o resto do equipamento”.

O surgimento do yé-yé, isto é, do rock português de “conjuntos tipo Shadows”, de guitarrada beat e rockabilly, não era restrito a Lisboa. Em Tomar, os amigos de escola Júlio Patrocínio e António Antunes da Silva começam com a banda Os Académicos, e depois, Os Inkas. Segundo Júlio Patrocínio, entrevistado para o livro E Tudo Acabou em 69 de Rui Miguel Abreu:

“Um dia apareceu-nos lá um tal de José Parracho, que vivia no Entroncamento e estudava no colégio de Tomar (…). E lembro-me exatamente desta frase dele, ‘Eh pá, vocês não tocam um corno, mas as vozes são bestiais. Temos é que arranjar um viola baixo e um organista’. Temos?… Nunca mais esqueço essa cena. Ficámos de boca aberta com a lata do tipo, mas ele não desarmou: ‘Vão por mim que tenho um amigo em Lisboa, o Tó Pinho, e ele sabe destas merdas. Eu posso tocar baixo. Conhecem algum organista aqui em Tomar?”

Luis Linhares e António Avelar de Pinho

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Se conheciam um organista em Tomar? “Conheciam! Mas eu era mais novo, era mesmo muito miúdo, naive, cheguei ao ensaio de calções e gozaram todos comigo”, conta ainda embaraçado Luís Linhares, a relembrar no entanto que sem as letras e indicações insolentes de António Pinho não haveria Filarmónica Fraude para ninguém. “Todos faziam covers, as bandas da altura faziam traduções de músicas estrangeiras onde encaixavam português e pronto”. “Eu já tinha a mania que escrevia umas coisas, ele [José Parracho] deve ter-se lembrado de mim por causa dessa banda que tivemos, os G-Men”, sugere o letrista. “Comecei desde muito cedo a insistir que tínhamos de compor e cantar em português”.

A eterna necessidade de comprar equipamento motivou o primeiro compromisso profissional da banda. Em 1968 aceitam uma temporada de três meses em Torralta, na Praia do Alvor, dormem no estabelecimento e ganham cinco contos por cabeça. No tempo livre — “de cama, mesa e roupa lavada” — a dupla começava a compor. “Ali tocávamos sucessos da altura para as pessoas dançarem, mas atrevemo-nos a tocar um tema que seria do primeiro EP, a ‘Flor de Laranjeira’”, lembra António Pinho, que vivia entre a Torralta e o Instituto Superior Técnico – “a fingir que ia ser engenheiro”. Na Igreja, enfeitada a preceito, de cravos brancos e rosa, “Flor de Laranjeira” é uma marcha nupcial, e depois, a realidade crua debaixo das cortinas, “a barriga que a noiva teve de apertar” e “os comentários mordazes correm mordazes”. No ano seguinte a canção seria proibida na Emissora Nacional e Renascença.

[“Flor de Laranjeira”:]

Música amortizada com prestações

O acaso ditou que entre o público da Praia do Alvor estivesse o jornalista Francisco Assis Pacheco, do Diário de Lisboa. No dia 12 de agosto, 1968, Francisco Assis Pacheco escreve a reportagem “A Filarmónica Fraude — Nas noites Brancas de Alvor”, descrevendo a banda com “um órgão Hammond comprado praticamente quando chegava à Alfândega de Lisboa”, e uma aparelhagem que “está a ser amortizada com prestações”. Os aplausos maiores, diz-nos, vão para “Lady Madonna” e “Whiter Shade of Pale”, “embora fazendo um esforço no sentido de incorporar temas portugueses no seu reportório”. E depois pergunta à banda: “E a pop portuguesa, vocês acham que é possível uma experiência do género?”. A Filarmónica sorri e passe-lhe um papel com a última letra, a cáustica “Animais de Estimação”, mais tarde célebre pela versão da Ala dos Namorados:

“Visons e leopardos sobem o Chiado
Criados de libré trincham faisões
Assentam-se arraiais em palacetes
E enfeitam-se uns e outros de brasões

Com nomes de nobreza sem origem
E o mesmo diploma que a criada
Agarram-se a tudo o que não têm
A casa do Estoril hipotecada

(…)

Assim defino a vida de quem tem
Animais de estimação de vida sã
Em barracas com ar condicionado
Bichinhos devoram croissants
Cães com casaquinhos de cambraia
E gatos com golinhas de astrakan”

Além do jornalista do Diário de Lisboa, Raúl Indipwo do Duo Ouro Negro — que fechava as noites de Alvor — fica igualmente impressionado com a ousadia dos miúdos, e sugere à Valentim de Carvalho que contrate a banda. O próximo capítulo seria muito similar ao que sucedeu a António Variações nesta mesma editora anos depois, como está habilmente retratado no filme “Variações”. O produtor Mário Martins — representando por José Raposo no filme de João Maia — não sabe o que fazer a estas canções estranhas, assemelhadas à tradição folclórica portuguesa e vagamente anglo-saxónicas. “Ele dizia, ‘vocês têm muito jeito, mas têm de ensaiar mais’. Eram meses dramáticos, nós éramos da província, não tínhamos nenhum dinheiro para nada”, recorda Luís Linhares, com os meses a passar e os quartos da pensão por pagar. “O que aconteceu de seguida é que fomos um  objeto que serviu a concorrência”, reflete o letrista sobre a assinatura rompante da banda com a Philips, ao estilo Sport Lisboa e Benfica, que naquela década também surripiou um diamante por lapidar à concorrência chamado Eusébio da Silva Ferreira.

Na semana em que Portugal tremeu durante quatro longos minutos — com o maior sismo desde 1755 — a celebridade radiofónica João Martins, do programa “23.ª Hora” da Renascença, pede a Luís Linhares que abandonem a Valentim de Carvalho e assinem imediatamente um contrato com a  Philips. “Olhe, desculpe lá, escusa de contar histórias”, responde. “Se quisermos gravar para a semana tem estúdio?”. Mais ou menos, tinham o Nacional Filmes, um estúdio de sonorização de cinema na Campo Mártires da Pátria. “Eles estavam a tocar, e o técnico pedia, ‘vocês não podem mexer-se muito que o chão range’”, recorda António Pinho das gravações pitorescas dos dois primeiros EPs, alegadamente produzidos por João Martins e Luís Villas-Boas. “O João não produzia nada, deixava-nos à vontade, mas tinha bom ouvido”, diz-nos Luís, enquanto António garante que Luís Villas-Boas, o fundador do Hot Club de Portugal, “tinha outra vida, às vezes adormecia, acordava de repente e dizia que estava tudo desafinado”.

Durante a Guerra Colonial, a Filarmónica Fraude pôde substituir o Conjunto Académico João Paulo num concerto de Natal. “À frente estavam sentados os generais e ministros, com os Indisponíveis lá atrás", recorda Luís Linhares. "No palco disse qualquer coisa como: ‘Se é Natal ao menos gostávamos de tocar para aqueles que estão lá ao fundo’. Meti a pata na poça".

A questão na altura ainda era: seria possível fazer uma canção original pop portuguesa? Até hoje os jovens cantautores portugueses seguem a mesma receita que a Filarmónica Fraude engendrou nos dois primeiros EPs — Flor De Laranjeira e Canção De Embalar, a sincronia delicada da melodia tradicional portuguesa com a pop vigente da época. Esta alquimia que hoje nos parece natural, começou numa ida ao Cinema Império em Lisboa, onde António Pinho viu o documentário sobre as recolhas de música tradicional portuguesa de Michel Giacometti e Fernando Lopes Graça. A obsessão agravou-se quando compra os álbuns míticos de capas de serapilheira destas mesmas recolhas. “O Luís já tinha a ideia de que se podia pegar em algumas coisas da música tradicional portuguesa, já era um estudioso”, justifica o letrista sobre o colega de composição, que está neste momento a escrever uma biografia sobre Lopes Graça (que ironia do destino, recusou-se a conhecer pessoalmente a Filarmónica Fraude). “Encontramo-nos neste ponto, ele sabia as coisas de uma forma teórico-prática e eu achava que a linguagem dessa música, quer em termos de palavras, quer em termos de composição musical, podia dar uma pop portuguesa, e foi isso que causou a Filarmónica Fraude, um nome de banda que já é uma subversão”.

Nos temas dos dois EPs lançados há 50 anos, desde o lisérgico “Problema De Escolha” ao “O Milhões”, os tons de Califórnia e swinging London vão por Idanha-a-Nova acima, com destaque inevitável para “Menino”, que podia ser The Kinks mas é Beira Baixa, ou melhor, é tudo ao mesmo tempo, num espírito de celebração fúnebre que prossegue nas consequentes versões de Quinta do Bill e UHF. “Existe um fator fundamental a que o João Paulo Guerra chamou o nacional cançonetismo, e entre a Guerra Colonial e o nacional cançonetismo, sentimo-nos completamente marcianos”, argumenta o teclista e compositor. “Qualquer tipo de nacionalismo alternativo era importante, existir uma nação alternativa, que é uma coisa que é muito estudada sociologicamente. Ou seja, em países que estão debaixo de uma ditadura surge culturalmente uma outra opção de identidade, chamada de alternativa”. “Ainda bem que há gajos cultos” interfere António Pinho, que novamente desarma o colega, até ele confessar: “Por outro lado fomos demasiado teóricos, na prática continuávamos a tocar em bailes”.

Enquanto lá fora arde, no rebuliço moroso dos últimos anos da ditadura, a Filarmónica Fraude prossegue imparável, gravam canções de enfiada, fazem um concerto numa plataforma atracada no Tejo, em Belém, e vão ao programa da RTP “Zip-Zip” cantar “Flor de Laranjeira”. “Lembro-me bem desses tempos”, recorda o teclista e compositor. “Lembro-me de ir ao Rádio Clube e conversar com o José Nuno Martins sobre a Crise Académica de Coimbra, de irmos a um festival no Estoril  e acabar tudo à pancada, de umas eleições enquanto estávamos em estúdio”. Porém, a banda não perde muito tempo com as convulsões de 1969, após lançar dois EPs estão novamente em estúdio de armas em punho, a cumprir a sua particular missão de resistência, nome de código Epopeia.

Só marinheiros e escravos se afundam com a nau

O conceito do álbum é de António Pinho, baseado sobretudo na História de Portugal de Oliveira Martins e no Cantares do Povo Português de Rodney Gallop. Ao longo das 12 canções, o letrista subentende um paralelismo natural das glórias do passado, ancoradas pelos  Descobrimentos, com as desgraças da Guerra Colonial que tomam de refém a sua geração. “Não sei como surge o tema dos Descobrimentos, e a declinação para aqueles tempos, digamos que estávamos a sair da menopausa para a política”, brinca. “Mas tínhamos de disfarçar, porque existia uma coisa chamada censura”. Não conhecida pelo seu rasgo de génio, inexplicavelmente a censura portuguesa deixa passar o álbum incólume exceto um pequeno detalhe. A capa de Epopeia desenhada pela artista Lídia Martinez é assinada com um “69”, que a censura considerou uma referência descarada à posição sexual, sendo que era obviamente a indicação do ano que o álbum é lançado: 1969.

A dupla da Filarmónica Fraude com um exemplar de "Epopeia", o título mais raro das edições em vinil da música portuguesa

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

É certo que a reflexão histórica no prisma destes ritmos modernos começara com A Lenda De El-Rei D. Sebastião de Quarteto 1111. Porém, a proposta da Filarmónica Fraude não era saudosista, tratava do truculento imperialismo, sem se conformarem como cantores de protesto, rockers, ou sequer lisboetas. “Nós não éramos de Lisboa, não conhecíamos as coisas daqui, estávamos fora de tudo”, confirma António Pinho. “E nas cabeças também havia este espírito de liberdade, de dizermos o que quisemos”. Em “Epopeia”, a primeira canção do álbum, o povo é cativo da sua história, as glórias de navegação subjugam Portugal:

“Do país onde me sento há de partir um cruzeiro
Que a chegar será primeiro à doce praia sem vento
À doce praia sem vento de povos mais primitivos
Que nós ainda cativos no país onde me sento”

(…)

“Mas será tudo em vão
Cruzeiro inacabado
Depois que fores invocado como glória tradição 
Pelos anos que virão”

Em “Só Marinheiros e Escravos Se Afundam Com A Nau” prosseguem: “Para esquecer a fome vão lembrando as glórias passadas de Portugal/ Óh como é fácil viver de recordações”. E mesmo quando esta conceção pífia se afunda, os fidalgos e padres fogem, deixando os de sempre à morte certa. Os conflitos armados em Angola, Guiné-Bissau e Moçambique são uma assombração constante: “Se mal cuidam de uma terra/ pior de outra cuidarão”. Desde a ousadia de “Na Ilha Virgem” — quadras populares em crescendo sinfónico até adensar de tal forma que implode num delírio jazzístico — à marcha tauromáquica “Por Vós”, o resultado fatídico desta epopeia é a deceção, o regresso derrotado de um  “povo desgostoso, carrancudo e magro”.

“O país sempre teve uma grande dificuldade de perceber as coisas num momento próprio”, considera António Pinho sobre a receção amena de Epopeia, apesar dos extraordinários cartazes espalhados pela Baixa Pombalina. Numa edição recente do Expresso, Nuno Galopim escreveu que o álbum da Filarmónica Fraude pode chegar aos 750 euros, sendo o mais raro do mercado de vinil português. O segundo neste ranking é a estreia discográfica de Fausto Bordalo Dias — 600 euros — no qual, nem por acaso, a pedido de João Martins, a dupla da Filarmónica Fraude compõe “Denúncia Involuntária Da Atração”. Hoje este disco é renegado por Fausto, que mais tarde embarcaria na mesma epopeia conceptual da Filarmónica Fraude em Histórias De Viageiros e Por Este Rio Acima. Os dois álbuns nunca tiveram qualquer reedição.

[Denúncia Involuntária da Atracção”:]

Em 1969, durante 12 meses, uma banda portuguesa ousou o impossível. Em dezembro, no final desta história, Júlio Patrocínio é chamado para o serviço militar. Segue-se António Antunes da Silva e José Parracho, que foge do país antes de meter um pé em África. Um mês depois de editar o primeiro álbum, a Filarmónica Fraude já não existia. Foi tudo muito rápido, concorda a dupla de composição, que antes de ter o destino da banda selado, podia ter conseguido um serviço militar mais confortável.

Entre as festividades de Natal, o exército português organiza uma festa em homenagem ao Depósito dos Indisponíveis — os feridos da Guerra Colonial — prometendo que, se tudo correr bem em palco, a Filarmónica Fraude pode substituir o Conjunto Académico João Paulo em África, ou seja, podiam passar o serviço militar a tocar para as tropas. “À frente estavam sentados os generais e ministros, com os Indisponíveis lá atrás, sem braços, sem pernas”, recorda orgulhoso Luís Linhares, a descrever a cena natalícia dos coitadinhos do Portugal cinzento, e o comentário que sentenciaria o destino de todos os membros da banda: “No palco disse qualquer coisa como: ‘Se é Natal ao menos gostávamos de tocar para aqueles que estão lá ao fundo’. Meti a pata na poça”. Uma pata na poça e outra na história, desalinhados até ao final, este é o testemunho da Filarmónica Fraude, uma epopeia que não pode desaparecer.

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