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Universal Images Group via Getty

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A história de Alice no País das Maravilhas, segundo Alberto Manguel /premium

"Monstros Fabulosos" é o novo livro do escritor argentino. Manguel escreve sobre personagens clássicas, os seus "amigos literários". O Observador faz a pré-publicação.

É autor de romances e de antologias, de estudos académicos e de outras obras de não-ficção. Mas é também conhecido como bibliófilo, um dos mais destacados do mundo literário contemporâneo. O livro “Monstros Fabulosos” é mais uma reflexo dessa paixão pela coleção literária, pela história das obras, dos autores e das suas criações.

Alberto Manguel faz aqui um compêndio com mais de 30 personagens fundamentais para compreender a história da literatura mas também para revelar mais sobre os gostos pessoais do autor — e as relações que o próprio estabelece com estas figuras. O Observador faz a pré-publicação do livro, que está à venda no dia 27. Neste excerto, Manguel recorda a história (e as histórias) de Alice, a do País das Maravilhas criado por Lewis Carroll.

“Monstros Fabulosos: Drácula, Alice, Super-Homem e outros amigos literários”, de Alberto Manguel (Tinta-da-China)

De todos os milagres que pontuam a história das nossas literaturas, poucos são tão miraculosos como o do nascimento de Alice. Na tarde de 4 de Julho de 1862, o reverendo Charles Lutwidge Dodgson, acompanhado por um amigo, levou as três filhas pequenas do Dr. Liddell, decano de Christ Church, num passeio de barco de uma légua pelo Tamisa, próximo de Oxford. As meninas pediram uma história e o reverendo Dodgson improvisou uma acerca da sua amiga preferida, Alice, de sete anos. “Às vezes, para nos provocar”, recordou Alice Liddell, anos mais tarde, “o Sr. Dodgson parava subitamente e dizia ‘e é tudo, até à próxima vez’. ‘Oh! Mas já é a próxima vez’, exclamávamos as três: e, após alguma persuasão, a história recomeçava.” Quando regressaram do passeio, Alice pediu a Dodgson que escrevesse a história, para ela ler. Ele respondeu que tentaria e passou a noite em claro a registar tudo em papel, escolhendo o título As Aventuras de Alice Debaixo da Terra. Três anos mais tarde, em 1865, a história foi publicada pela Macmillan, de Londres, sob o pseudónimo Lewis Carroll e intitulada As Aventuras de Alice no País das Maravilhas.

Inventar as aventuras de Alice durante o passeio é quase inacreditável. Parece verdadeiramente miraculoso que a queda e as explorações de Alice, os encontros e as descobertas, os silogismos, trocadilhos e piadas inteligentes e todo o seu desenvolvimento fantástico e coerente, tenham sido inventados ali e no instante da narração. Nenhum milagre, contudo, é inteiramente inexplicável e talvez a história de Alice tenha raízes mais profundas do que sugere a sua reputação de conto infantil.

Os livros de Alice nunca foram lidos como outras histórias de crianças. A sua geografia inclui portentosos ecos de outros lugares míticos, como Utopia e Arcádia. Na Divina Comédia, a alma guardiã no cume do Monte Purgatório explica a Dante que a Idade de Ouro que os poetas cantaram é uma memória esquecida de um Paraíso Perdido, de um estado desaparecido de felicidade perfeita; talvez o País das Maravilhas seja a memória inconsciente de um estado de razão perfeita, um estado que, à luz das actuais convenções sociais e culturais, nos parece uma loucura total. Ninguém segue pela primeira vez a Alice pela toca do coelho e pelo reino labiríntico da Rainha Vermelha, e depois para o outro lado do espelho. Só das irmãs Liddell podemos dizer terem testemunhado a criação e mesmo elas devem ter tido uma sensação de déjà vu: depois daquele primeiro dia, o País das Maravilhas e o Reino do Xadrez entraram na imaginação universal, muito à semelhança do Jardim do Éden, um local que sabemos que existe, tenhamos ou não ido lá. A geografia de Alice (embora não esteja num mapa; “os verdadeiros lugares nunca estão”, observou Melville) é a paisagem recorrente da nossa vida sonhada.

Poucos de nós, contudo, têm a coragem de Alice, que, no final do primeiro livro, se ergue (literalmente) para defender as suas convicções e recusa calar-se. É graças a esse acto supremo de desobediência civil que Alice pode acordar do sonho. Nós, claro está, não podemos.

Porque o mundo de Alice é, evidentemente, o nosso mundo: não em termos simbólicos e abstractos, não como alegoria calculada, não como fábula distópica. O País das Maravilhas é simplesmente o lugar louco em que nos encontramos todos os dias, com as suas quotas diárias de paraíso, inferno e purgatório: um lugar pelo qual temos de deambular, como deambulamos pela vida. Alice (como nós) dispõe de uma única arma no seu percurso: a lin­guagem. É com palavras que avançamos pela floresta do Gato de Cheshire e pelo campo de cróquete da Rainha de Copas. É com palavras que Alice descobre a diferença entre o que as coisas são e o que parecem ser. São as perguntas dela que fazem sobressair a loucura do País das Maravilhas, escondida, como no nosso mundo, sob uma fina camada de respeitabilidade convencional. Podemos tentar encontrar lógica na loucura, como a Duquesa faz ao procurar uma moral em tudo, por mais absurdo que seja, mas a verdade é que, como o Gato de Cheshire diz à Alice, não temos alternativa: qualquer caminho que sigamos nos conduzirá a mais pessoas loucas e temos de usar a linguagem da melhor forma que formos capazes para nos mantermos ancorados ao que consideramos ser a nossa sanidade. As palavras mostram a Alice (e a nós) que o único facto indiscutível deste desconcertante mundo é que, sob um aparente racionalismo, somos todos loucos. Tal como Alice, arriscamos afogar-nos com as nossas lágrimas, a nós e a todos os outros. Gostamos de pensar, como faz o Dodo, que, independentemente da direcção em que corramos ou da incompetência com que o façamos, todos devíamos ser vencedores e rece­ber um prémio. Como o Coelho Branco, damos ordens a torto e a direito, assumindo que os outros deviam sentir-se obrigados a servir-nos (e honrados por fazê-lo). Como a Lagarta, questionamos a identidade das outras criaturas, embora mal conheçamos a nossa, mesmo quando estamos à beira de a perder. Acreditamos, como a Duquesa, que devemos castigar o comportamento irritante dos jovens, mas pouco nos interessam as razões desse comportamento. Como o Chapeleiro Louco, sentimos que só nós temos direito a comer e a beber numa mesa posta para muitas mais pessoas, e oferecemos com cinismo a quem tem sede e fome vinho e compota, quando não há vinho e há compota todos os dias menos hoje. Sob o domínio de déspotas como a Rainha Vermelha, somos obrigados a participar em jogos loucos com instrumentos desadequados — bolas que rebolam para longe, como ouriços, e tacos que se viram e reviram, como flamingos — e, quando não cumprimos as regras, ameaçam cortar-nos a cabeça. Os nossos métodos educativos, como o Grifo e a Tartaruga Fingida explicam a Alice, são ou exercícios de nostalgia (aprender “Patim e Prego”) ou cursos de formação para servir outros (como ser lançado ao mar com as lagostas). E o nosso sistema de justiça, muito antes de Kafka o descrever, é como o que se monta para julgar o Valete de Copas: incompreensível e injusto. Poucos de nós, contudo, têm a coragem de Alice, que, no final do primeiro livro, se ergue (literalmente) para defender as suas convicções e recusa calar-se. É graças a esse acto supremo de desobediência civil que Alice pode acordar do sonho. Nós, claro está, não podemos.

Alberto Manguel na sua biblioteca

Enquanto seus companheiros de jornada, reconhecemos na viagem de Alice os temas omnipresentes nas nossas vidas: perseguição e perda de sonhos, medos e sofrimentos concomitantes, a corrida da sobrevivência, a subjugação à servidão, o pesadelo da confusão da identidade, os efeitos das famílias disfuncionais, a submissão exigida por decisões absurdas, o abuso de autoridade, a perversão do ensino, o conhecimento impotente de crimes por punir e castigos injustos, e a eterna luta da razão contra a irracionalidade. Tudo isto, juntamente com a sensação permanente de loucura, é, na verdade, um resumo dos livros de Alice.

“Definir a verdadeira loucura”, diz-se no Hamlet, “que outra coisa é senão estar completamente louco?” Alice concordaria: a loucura é a exclusão de tudo o que não é louco e, por conseguinte, toda a gente no País das Maravilhas se enquadraria na máxima do Gato de Cheshire. Mas Alice não é Hamlet. Os sonhos dela não são pesadelos; nunca se lastima, nunca se vê como braço da justiça do além, nunca insiste em provar o que é claro como água, acredita na acção imediata. As palavras, para Alice, não são simplesmente palavras, mas criaturas vivas, e o pensamento não torna as coisas boas ou más. O certo é que Alice não quer que a sua carne sólida se derreta, nem tão-pouco que se agigante ou encolha (embora deseje conseguir encolher-se “como um telescópio”, de modo a transpor a portinha). Alice nunca teria sucumbido a uma espada envenenada, nem bebido, como a mãe de Hamlet, de um copo com veneno: quando pega na garrafa que diz “bebe-me”, Alice olha primeiro para ver se também diz veneno ou não, “pois lera várias histórias instrutivas sobre crianças que se tinham queimado e sido comidas por animais ferozes, e outras coisas desagradáveis, só por não se conseguirem lembrar das regras simples que os amigos lhes haviam ensinado”. Alice é muito mais racional do que o príncipe da Dinamarca.

Apesar da sua aparente loucura, o nosso mundo, como o País das Maravilhas, sugere irresistivelmente que tem sentido e que, se procurarmos com afinco, descobriremos algo que o explica para lá do "disparate e parvoíce".

Porém, tal como Hamlet, Alice deve ter pensado, encafuada na casa do Coelho Branco, se também ela não estaria confinada ao interior de uma noz, mas, no que toca a ser rei (ou rainha) de espaços infinitos, Alice não se limita a preocupar-se com isso: luta pelo título e, em Alice do Outro Lado do Espelho, trabalha arduamente para ganhar a prometida e sonhada coroa. Educada segundo os rígidos preceitos vitorianos e não segundo os isabelinos, mais relaxados, Alice acredita na disciplina e na tradição, e não tem tempo para lamúrias nem para protelações. Nas suas aventuras, como criança educada que é, Alice contrapõe a simples lógica à irracionalidade. A convenção (o constructo artificial da realidade) opõe-se à fantasia (a realidade natural). Alice sabe instintivamente que a lógica é a nossa forma de dar sentido ao absurdo e de desvendar as suas regras secretas, e aplica-a implacavelmente, mesmo com os mais velhos, no confronto quer com a Duquesa quer com o Chapeleiro Louco. Quando os argumentos de nada valem, Alice insiste pelo menos em tornar claro o injusto absurdo da situação. Quando a Rainha de Copas exige que o tribunal dê “a sentença primeiro e o veredicto depois”, Alice responde com toda a razão: “Tanto disparate e parvoíce!” É a única resposta que a maioria dos absurdos do nosso mundo merece.

E, porém, apesar da sua aparente loucura, o nosso mundo, como o País das Maravilhas, sugere irresistivelmente que tem sentido e que, se procurarmos com afinco, descobriremos algo que o explica para lá do “disparate e parvoíce”. As aventuras de Alice avançam com uma precisão e uma coerência excepcionais, para que nós, leitores, tenhamos a impressão crescente de um sentido elusivo em todo aquele absurdo envolvente. Todo o livro tem a qualidade de um koan zen ou de um paradoxo grego, de algo significativo e ao mesmo tempo inexplicável, algo à beira da revelação. O que sentimos, quando caímos com Alice na toca do coelho e a seguimos na viagem, é que a loucura do País das Maravilhas não é arbitrária, nem tão-pouco inocente. Em parte épica e em parte onírica, a criação de Lewis Carroll expõe-nos um espaço necessário, algures entre a terra firme e o mundo das fadas, um miradouro sobre o qual se vê o universo em termos mais ou menos explícitos, traduzidos, por assim dizer, numa história. À semelhança das fórmulas matemáticas que fascinavam o reverendo Dodgson, as aventuras de Alice têm tanto de facto puro como de invenção inspirada. Existem em dois planos simultâneos: um que nos prende à realidade de carne e osso, e outro em que essa realidade pode ser reconsiderada e transformada, como o Gato de Cheshire empoleirado no ramo, alternando entre algo desconcertantemente visível e o fantasma milagroso (e tranquilizador) de um sorriso.

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