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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

A televisão, o teatro e o riso perante o medo: por onde anda Margarida Vila-Nova? /premium

Em "Reinar Depois de Morrer", em cena no Teatro de Almada, Margarida Vila-Nova é Inês de Castro. Oportunidade ideal para conversar com uma atriz que fala à velocidade da luz e que se ri de si própria.

Esta entrevista não é só esta entrevista. Ou melhor: é, mas é o resultado de duas conversas. É melhor explicar.

Por obra e graça de um erro tecnológico – que costuma ser precedido de um erro humano, convém assumir – o ficheiro de áudio da entrevista original perdeu-se. Nem sequer as fotografias batem certo, isto porque a primeira entrevista que desapareceu num buraco negro digital foi feita no Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada, onde Margarida integra o elenco de “Reinar Depois de Morrer”, uma produção da Companhia de Teatro de Almada com encenação do espanhol Ignacio García. A segunda conversa foi feita na casa da atriz, junto à Sé de Lisboa. E estas primeiras palavras são, pois claro, um tiro na verdade, repetir uma entrevista só podia ser mentira, então pronto, lá foram duas conversas de mais de uma hora e qualquer coisa. E só isto, que não é pouco, justificou que janto jornalista como entrevistada se tratassem por tu. Não é falta de educação, foi a vida a acontecer. Abaixo os gravadores e viva as segundas oportunidades, que vendemos sempre como melhores que as primeiras.

Recordemos então o título do espectáculo: “Reinar Depois de Morrer”. Margarida Vila-Nova não morreu cedo por um amor proibido, mas a sua ética, o seu brio profissional, podem relacionar-se com Dona Inês de Castro. E as comparações ficam por aqui. Até porque o seu percurso – aviso: nunca dizer a palavra “carreira” junto de Margarida – é bastante particular. É filha de dois produtores e aos cinco anos, sem se aperceber muito bem como, já participava numa longa-metragem francesa que a mãe produzia, rodada na Covilhã. E a almofada cativa nos camarins valeu-lhe uma personagem escrita para si por Filipe La Féria. Depois, mais tarde, pôs-se ao caminho, aos dezassete saiu de casa e virou atriz, já consciente de que era só isso que podia fazer. Pouco depois, criou uma produtora, julgando que isso lhe daria mais oportunidades no teatro. Desatou a fazer televisão, de tal forma que se cansou do trajeto que estava a desenhar e foi viver para Macau, onde abriu uma mercearia de produtos portugueses. Voltou. Está para ficar. Nos ecrãs, nos palcos, nas ruas, em casa, por aí. É também, neste momento, Mafalda na série “Sul” – de Edgar Medina e Guilherme Mendonça, e realizada por Ivo M. Ferreira – uma mulher de classe baixa, sem esperança, vergada pelo capitalismo e pelo Estado português.

Este texto de introdução à entrevista não terminaria por aqui, se escrevêssemos à velocidade que Margarida Vila-Nova pensa e fala. Diz-nos que é por ter muitos assuntos para despachar. E tem. Estão todos por aqui, nas próximas – bastantes – linhas.

15 fotos

Tens alguma ideia para começar uma entrevista que já aconteceu?
Não. Pensei assim: como é que não me vou repetir? Hoje apanhas-me só na véspera da estreia, menos faladora, há assim aquele momento de silêncio, de introspeção, em que todo o espectáculo passa pela cabeça, a vida passa pela cabeça, a temporada que se inicia e o que fica de um processo criativo, onde fomos, o que é que descobrimos.

Eventualmente podemos esperar uma entrevista mais concisa.
Se calhar serei um bocadinho mais objetiva hoje, sim, até porque falo imenso e assim ias ter uma trabalheira a desgravar a entrevista, ainda por cima falo muito rápido…

É verdade.
Sabes, é que tenho muitos assuntos para despachar. Mas não pensei em nada, vou só tentar não me repetir muito. E acho sempre muito difícil uma entrevista conseguir retratar aquilo que realmente somos ou pensamos, por mais disponível que uma pessoa esteja para responder há sempre barreiras, há uma cerimónia entre um gravador e um interlocutor.

E logo este… que me falhou.
Sim, tenho um bocado de medo deste gravador, não vou mentir. Mas pronto, tento sempre não camuflar aquilo que é o meu pensamento, aquilo que sou, repetir a entrevista é uma nova oportunidade, para eu também descobrir um bocadinho mais sobre mim.

Voltemos então. Acho que comecei por te questionar sobre a tua relação com a morte, que tem tudo a ver com o espectáculo “Reinar Depois de Morrer”, uma vez que ele decorre quase sempre no terreno da pós-vida ou na linguagem do sonho. Poderá, a tua relação com a morte, ter mudado em dois dias?
A morte é um tema que me assusta particularmente. O medo não é bem que esta passagem termine, se pensasse nisso hoje achava que era lamentável, que ainda havia uma data de coisas para fazer, mas penso na reação à minha morte, isso penso. Esta coisa de trabalhar em ficção estimula a minha imaginação e portanto imagino sempre quem estaria ou não presente, se chorava ou se não chorava. E isto não tem que ver com o legado artístico que possa deixar, até porque não espero isso, não considero que o meu percurso vá deixar a minha marca no tempo. E, caramba, tenho 36 anos, não vou morrer amanhã, acho eu.

"Não sei quantos mais filmes e quantas mais peças vou fazer mas, artisticamente, se fica para a história ou não é-me indiferente, seria uma pretensão pensá-lo e seria completamente desadequado à realidade."

Nesse sentido, o percurso pode crescer ao ponto de deixar essa marca.
Mas eu não penso nisso, não me preocupa. Não sei quantos mais filmes e quantas mais peças vou fazer mas, artisticamente, se fica para a história ou não é-me indiferente, seria uma pretensão pensá-lo e seria completamente desadequado à realidade. Quem deixou marcas no tempo, os grandes cineastas, as grandes atrizes, estamos a falar de alta competição, pronto, eu gosto de estar nos iniciados e muito bem. Mas há uma inquietação em relação à memória, não é o sentido da vida, o que vim cá fazer, é só qual é a memória que os meus filhos terão de mim, se hoje morresse e perguntassem quem era a Margarida tu podias dizer em dez palavras e a minha pergunta é: quais é que são as dez palavras? Tenho curiosidade de saber.

Algo que, em princípio, não conseguirás saber.
Pois não e isso incomoda-me.

Não temos a certeza que não conseguirás.
Sim, está bem, até prova em contrário não vou.

Portanto, podemos concluir que a morte está mal feita, não é? Não fizeram isto bem.
É verdade, não se organizaram. Mas há sempre uma hipótese de eu…

…não morrer?
Não, de eu estar presente, de certa forma. Em espírito.

Por falar em espírito, como é que aconteceu ires parar ao “Reinar Depois de Morrer”?
O Rodrigo Francisco convidou-me já há um ano e meio. Lembro-me de estar em casa e ter sido assim daquelas vezes em que uma pessoa fica meio sem saber. Rodrigo Francisco da Companhia de Teatro de Almada? Como? Como? Até perguntei duas vezes para ter a certeza. Podia ser uma piada de um colega.

Acontece-te algumas vezes é isso?
Acho que há umas quantas histórias assim. Mas pronto, o Rodrigo convidou-me para fazer este personagem, não conhecia ainda o texto do [Luis Vélez] Guevara, ele enviou-me para ler e tomar uma decisão e eu tomei a decisão bem antes de ler o texto, por todas as razões, porque era uma oportunidade de trabalhar com a Companhia de Teatro de Almada, de trabalhar com o Ignacio García que é um dos grandes encenadores da atualidade internacional, era um grupo de atores muito interessante, ao lado do João Lagarto, do José Neves, um elenco que atravessa várias gerações. Depois era uma personagem de uma grande dimensão.

"Mais do que ser rebelde, acho que sou uma eterna miúda, esse lado da rebeldia acho que tem que ver com a infância, com um lado infantil que vive dentro de mim, tenho um síndrome de Peter Pan"

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O que é que te surgiu quando leste o texto?
Fiquei assim a pensar que estava maluca, onde é que me vim meter. Perdi o juízo, ainda pensei em despedir-me, curiosamente, ainda esta semana estive a pensar nisso, que tinha estado quase a achar que não seria capaz.

Não és a primeira atriz que me diz isso, que a meio de um processo esteve quase a desistir. Porque é que isso acontece?
É uma certa insegurança, uma convicção que de facto não será possível estar à altura do texto.

E o que é que acontece para depois passar a ser possível?
Não sei se é uma espécie de fascínio pelo abismo, se é aquela coisa de que os maiores desafios são os mais difíceis porque quando não são também não nos preenchem, os desafios não são tão estimulantes, e isto não tem que ver com grandes ou pequenos papéis, tem que ver com a natureza do personagem e então até uma semana antes de começar os ensaios pensei seriamente em despedir-me. O texto é em verso, é extremamente difícil, é uma obra muito profunda, poética, a linguagem e a própria discussão em cena, o amor vs a guerra, não é apenas uma história de amor, é uma história de poder, é uma peça que fala de moral. Resumindo: ainda bem que não me despedi.

Falava com o Ignacio a propósito do espectáculo e ele caracterizou a Inês de Castro como um ser humano rebelde.
Acho que ela é um bocadinho mais poderosa do que eu, poderosa porque é grande, porque é uma mulher grande, é maior que eu. A sua rebeldia explica-se porque ela acredita tão convictamente na sua moral, na sua ética, na sua história, no seu amor.

No bem.
No bem, nos princípios, é uma mulher de princípios e que desafia a vida e que verdadeiramente perante a escolha entre trair as suas convicções ou dar-se à morte, ela escolhe dar-se à morte. E não tem nada a perder, não tem dúvidas sobre o seu amor e sobre o quanto é amada e portanto o seu caminho está feito. Gosto desse lado da rebeldia, na minha vida bati de frente por algumas causas e personagens e já fui conhecida por ter um feitio um bocadinho pior do que tenho hoje.

Ai sim? Fala-me disso.
Sou muito obstinada a trabalhar, bato-me com o texto, com o figurino, com a direção de atores, bato-me e não é no sentido da discussão, mas da construção. Mas sim, bato-me por algumas questões na vida e sempre me senti um bocadinho uma outsider, uma marginal, não no sentido de marginalidade, mas de viver à parte dos grupos, das companhias, das grupetas, tenho amigos de todos os lados, não sei, às vezes sinto-me assim fora da dita normalidade. Mas mais do que ser rebelde, acho que sou uma eterna miúda, esse lado da rebeldia acho que tem que ver com a infância, com um lado infantil que vive dentro de mim, tenho um síndrome de Peter Pan, há uma frase que digo recorrentemente: “Quando eu for grande”. E depois olho à minha volta e se calhar já sou. Antes tinha muita pressa de crescer, para poder tirar a carta de condução, para votar, para trabalhar, para trabalhar muito, para poder ser independente e hoje em dia…

"Venho de uma família de classe média, tive a oportunidade e a sorte de viajar, de andar em boas escolas, mas não havia babysitters, então andava atrás da minha mãe e portanto tinha uma almofada no camarim de alguém onde adormecia muitas noites, assisti a N rodagens de filmes, N ensaios de teatro. Cresci entre adultos."

…queres voltar ao infantário?
Não, não, acho que nem me apercebi bem que cresci. Mas em relação à comparação com a rebeldia tem mais que ver com esta coisa de ser miúda, de ser como sou, da forma como falo, da forma como lido com os desafios. Não me levo a sério. Levo o trabalho a sério, porque tenho brio e porque tenho um respeito enorme a sério pelo teatro… Tudo é importante na vida, o nascer do sol é importante, comer amêijoas ao fim da tarde é importante… Tenho uma panca com amêijoas, já deves ter percebido. Ver um filho a dormir é importante na vida. Portanto, as grandes conquistas não são os prémios, nem as grandes personagens. Um dia em que perder essa leveza, este medo perante o medo, saltar o abismo e não correr atrás de uma fantasia, vai ser muito aborrecido. Eu já acho que a vida de uma maneira geral, a rotina, é aborrecida.

A vida às vezes parece que nos quer assim, não é?
E é muito tentador ser conformista e ser inerte. Mas mesmo esse conforto é uma ilusão, porque aquilo que nos é vendido ou aquilo que idealizamos como o que é ter uma vida de sonho é um engano, porque depois quando lá chegamos não é nada daquilo.

Cresceste no meio artístico, os teus pais eram produtores e estavas rodeada de conversas e gente interessante.
Sim, também acho que a vida há trinta anos era um bocadinho diferente, a forma como os pais se organizavam. Venho de uma família de classe média, tive a oportunidade e a sorte de viajar, de andar em boas escolas, mas não havia babysitters, então andava atrás da minha mãe e portanto tinha uma almofada no camarim de alguém onde adormecia muitas noites, assisti a N rodagens de filmes, N ensaios de teatro. Cresci entre adultos. Tenho um grupo de amigos da minha idade e depois tenho um grupo de amigos sexagenários que são os amigos com quem cresci.

E antes se calhar dizias que eram amigos dos teus pais.
Sim, e passaram a ser meus. Como os meus pais trabalhavam na área, os amigos eram artistas, encenadores, figurinistas, cenógrafos, atores e portanto é um universo que me era muito próximo e que nada tinha de glamoroso. E isso aproximou-me, claro. Há gerações de médicos que o são por terem passado a infância a ouvir falar de uma operação ao fémur. Mas acho que só tomo a decisão de ser atriz mais tarde. Digo “a decisão” porque essa tem que ser consciente, acho que quando se diz: “A menina não sei quantos começou aos nove anos na novela X”. Quer dizer, não há uma consciência sobre o trabalho, sobre o que é representar.

E começaste aos cinco.
Pois, estava a acompanhar a minha mãe numa rodagem na Covilhã, o realizador precisava de uma criança, ele achou-me graça e lá acabei por fazer.

"Esta coisa de nos metermos no papel do outro dá aliás muito jeito, para resolver vários problemas familiares, conjugais, acho esse exercício importante."

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Tinhas texto?
Tinha: “oui” e “non”, porque era a única coisa que eu sabia dizer em francês. Mas lembro-me de ouvir falar da “Noite Americana” [filme de 1973 realizado por François Truffaut], foi a primeira vez que ouvi falar disso. Sendo uma curiosa sempre me interessou o que é que estas coisas queriam dizer. Lembro-me de passarem horas a montar um charriot. Lembro-me de ouvir tiros pela primeira vez, de ter assim um grito mudo e de apanhar o maior cagaço da minha vida. Achava aquilo fascinante, com tanto rigor e pormenor.

E quando é que se deu a decisão efetiva de seres atriz?
Depois passei por várias fases. Um dia o Filipe La Féria escreveu uma personagem para mim porque me via a dormir na plateia no Teatro Variedades todas as noites. E assim foi. Depois fiz vários trabalhos, “Os Jornalistas”, em televisão, enfim. Quis ser bombeira…

Como? Bombeira?
Não, queria ir atrás nas ambulâncias, assim é que era. Acho que é uma questão – que já está diagnosticado – que tem que ver com o cuidar dos outros, sou um bocado assim, e durante muitos anos tinha essa obsessão de andar atrás nas ambulâncias, não sei qual seria a profissão, desde que andasse lá atrás. Depois quis ser caixa de supermercado.

Isso é maravilhoso.
Sim, ficava fascinada com aquelas pessoas, o som daquilo, tinham sempre umas unhas incríveis, eram pessoas muito simpáticas e eu pensava que se fosse caixa de supermercado tinha oportunidade de conhecer uma data de gente, imagina a quantidade de pessoas que passam por um supermercado a fazer compras… E depois aquele gesto de levantar aquelas fileiras de arames que prendiam as notas e as moedas e aquilo tudo tinha um lado cinematográfico. Se alguém filmasse isso…

Podes ser tu.
Sim, posso ser eu. Mas pronto, já resolvi essa pancada, já estive em Macau, já trabalhei numa mercearia, já trabalhei com uma caixa registadora, já fiz muitos trocos, já atendi muitos clientes de sítios diferentes. Mas, apesar disso, queria ser atriz. Aos 17 anos, isto passa mesmo a ser um ofício, vou viver sozinha, passo a ser responsável pela minha vida, pelas minhas decisões, tinha terminado o liceu e começam a surgir os primeiros grandes trabalhos. “A Fúria de Viver”, uma novela em que trabalhei ao lado do João Perry e da São José Lapa.

Bela oportunidade.
É que tive a sorte de começar com malta muito boa, passava horas a vê-los representar. A Rita Loureiro era a minha irmã, o meu namorado era o Gonçalo Waddington, enfim fui uma sortuda. E depois fui filmar “O Milagre Segundo Salomé”, com o Mário Barroso.

Isso terias que idade?
19 ou 20, acho. E isso também coincide com a altura em que monto as Magníficas Produções porque queria começar a fazer teatro. Olha, na última entrevista não te tinha dito isto. A certa altura, já tinha feito as “Confissões de Adolescente” e pensei “vou continuar a trabalhar, tenho que mostrar trabalho para receber convites, tinha esta ideia ingénua de que ao produzir teatro isso iria reflectir-se em propostas de trabalho enquanto atriz”. Não foi bem assim, mas pronto, foi super importante para mim e permitiu-me fazer uma data de trabalhos que queria fazer. Nomeadamente, na altura tinha ficado fascinada com o Dom Quixote, com o Adriano Luz e com o Miguel Guilherme, brilhantes atores, para mim os melhores da sua geração, e que fizeram esse espectáculo no Maria Matos, com o António Pires. E pensei “quem é que era o encenador com quem gostava de trabalhar?”. António Pires. Então fui ter com ele e disse-lhe que tinha este espectáculo chamado “Pedras Rolantes”, que era a história de uma banda de garagem, com o Afonso Pimentel, com o Graciano Dias, escrita pelo Pedro Ribeiro. E assim começa a minha relação com o António Pires, que virou casamento e que até hoje trabalhamos juntos.

"Acho que foi sempre melhor ter ido [para Macau] do que ter ficado. Acho que hoje sou melhor atriz, melhor mãe, melhor mulher porque fui. Enfim, a minha vida lá... além de ser merceeira, tinha uma loja aberta todos os dias, vendia produtos tradicionais portugueses."

Portanto, ele aceitou.
Exatamente, ele encenou esse espectáculo. Antes disso, fui ao Brasil buscar o Domingos de Oliveira, que era o pai das “Confissões de Adolescente”, durante dez anos houve reposições no Brasil. Todas as atrizes passaram por aquilo. E, por acaso, no outro dia, estava a falar com a Filomena Cautela e ela estava a dizer: “Tu tens noção que todas nós, direta ou indiretamente, passámos pelas ‘Confissões de Adolescente’?”. Há assim um leque de amigas e colegas que passaram por aquele espectáculo e é bom que isso tenha ficado, porque na altura senti muito o complexo de ser um teatro dito comercial, as miúdas da novela a fazerem teatro. Cruzaram-se vários elencos, Inês Castel-Branco, Vera Kolodzig, Dina Félix da Costa, Mariana Norton, Ana Guiomar, Joana Solnado, por aí fora. E esteve em cena uma data de anos. Depois havia uma questão que era: ninguém ia ao teatro, os meus colegas não iam ao teatro, só ouvir falar em Gil Vicente… Então depois do teatro, logo a seguir vinha a palavra seca.

Ainda hoje é um bocadinho assim, não?
Acho que nem tanto.

Eu dizia para os mais novos.
Ah sim, isso sim. Então achei que, de repente, podia haver espaço para um teatro para jovens ou de um espectáculo que chegasse aos jovens, tive essa pretensão, esse sonho de encontrar textos que servissem estas pessoas. E foi incrível, tinha adolescentes que o programa de fim-de-semana era irem assistir às “Confissões de Adolescente” ou às “Pedras Rolantes” e que foram seis ou sete vezes e que acompanharam os vários elencos. Emocionavam-se porque falávamos dos problemas delas, da relação com o pai, com a mãe, o sexo, a droga, e esse lado deixa-me satisfeita, fico de bem com a escolha que fiz.

Tempos urgentes.
Sim, eram esses tempos de tudo a acontecer, os pais, a vida adulta. E depois desisti… desisti não, acho que não desistimos, fazemos escolhas, e depois segui como atriz.

Na entrevista falhada disseste que foste para Macau também pelo momento que Portugal estava a passar. De facto, nesse tempo da última crise muita gente decidiu sair do país.
Claro que sim, com o convite do primeiro-ministro então, houve bastantes que se piraram, claro.

Essa foi uma das razões, para ti.
Sim, não pelo convite do primeiro-ministro, mas sim. Um ano depois de ter ido, voltei a Portugal e o tema era os ordenados, as rendas, não havia outro tema à hora de jantar que não fosse como é que economizas na mercearia, como é que vestes os miúdos, era muito duro. Portanto, fui uma visionário, esta epifania que aconteceu na minha vida e que correu muito bem, se tivesse ficado estava tramada. Não que a minha vida tivesse sido fácil em Macau, mas não estive em Portugal a viver esses anos penosos, tive a oportunidade de ter outras experiências e que sobretudo foram resultado da escolha que fiz e não tanto resultado da crise que o país atravessava. Agora, é claro que pesou o facto de os subsídios para o cinema terem sido congelados, dos cortes no teatro, passámos de peças de dez atores para monólogos, o cinema estava parado, a economia estava parada e portanto a televisão também sofre uma redução de financiamento. E sim, foi transversal e foi violento. Só pensava: que acertada esta decisão. Ainda bem que fui.

"Quando viajas e quando atravessas o mundo e és reduzido à tua insignificância é uma liberdade enorme, é uma leveza mesmo. Conheces outras culturas e outras pessoas."

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Como é que foi lá? O que significou para ti?
Estava a ultrapassar um período em que estava muito saturada do percurso que estava a fazer. Estava a afunilar, estava a fazer pouco teatro, embora trabalhasse regularmente com a companhia do Teatro do Bairro e com o António Pires, mas tinha o desejo de trabalhar com outras companhias e encenadores. No cinema, trabalhava regularmente com o João Botelho, mas queria cruzar-me com outros realizadores. Sempre quis fazer tudo e tinha uma grande urgência em experienciar diversos personagens, projetos, formas de trabalhar. E estava-me a sentir esgotado para interpretar novos personagens, não tinha nada de novo. E perante essa crise, mais questões pessoais, tomei essa decisão de ir para Macau. Lá, de repente, durante alguns anos, tive duas vidas paralelas ou vivi dois tempos… É engraçado, a Filomena Cautela dizia-me: “Como é que te foste embora quando toda a gente queria trabalhar contigo?”. Só que não tinha essa perceção, não acho que esse era o panorama. Então apareceu esta minha coisa de conseguir sempre ver o lado positivo da vida, sabe-se lá porquê.

Isso é bom.
Acho que foi sempre melhor ter ido do que ter ficado. Acho que hoje sou melhor atriz, melhor mãe, melhor mulher porque fui. Enfim, a minha vida lá… além de ser merceeira, tinha uma loja aberta todos os dias, vendia produtos tradicionais portugueses.

O que é que saía mais?
Sabonetes. Conservas. E faiança, Bordallo Pinheiro. E foi engraçado, porque acho que nunca estive tão próxima de Portugal, quem viveu fora saberá esta sensação de sermos sempre estrangeiros mesmo numa terra que nos acolhe e de nos aproximarmos do nosso país. O facto de estar a trabalhar marcas portuguesas… sou uma apaixonada por história, trabalhei Viúva Lamego, Bordallo Pinheiro, Pinhais, Licor Beirão, Pasta Couto, por aí fora. Mas cada marca tem uma história por trás, acho que isso aprendi também com a Catarina Portas, que também fazia parte do grupo de amigos da minha mãe e que me deu sábios conselhos quando abri a loja. O Manuel Reis, que ainda me chegou a receber no Lux para falarmos de como é que seria a decoração da loja e os mobiliários e se devia ir a um leilão, essas coisas. Fui muito bem aconselhada e só por isso, só pelo facto de ter tido a oportunidade de pensar este projeto… Uma folha de Excel não passava na minha vida, claro que perante números começou a fazer sentido.

Ui, que medo.
E depois foi uma época em que pude viajar em todo o sudeste asiático, de mochila às costas com os meus filhos, essa saturação em que vivia… Este foi um momento em que tive de me reinventar, de definir o que é essencial e o que é supérfluo. Como é que queres viver. E quando viajas e quando atravessas o mundo e és reduzido à tua insignificância é um descanso perceber isso. É uma liberdade enorme, é uma leveza mesmo. Conheces outras culturas e outras pessoas, a tua vida deixa de passar pelo Bairro Alto.

Ia sugerir que de Macau viajássemos para “Sul”. É uma série onde fazes uma personagem muito interessante, sobre uma mulher com outra história, completamente sem esperança. Como foi construir essa personagem?
Para já é trabalhar uma figura que nada se assemelha a mim. A Mafalda é uma personagem derrotada, sem esperança, devo ser a antítese da Mafalda. Mas ao mesmo tempo fascina-me como é que o ser humano pensa, e fico mesmo surpreendida quando alguém diz uma ideia oposta à minha, não é que ache mal, não é uma questão de juízo de valor, não acho que estou certa, mas não me tinha pensado pela cabeça pensar dessa forma e então fico “ah, claro, então será que fui eu que andei enganada esta vida toda?”. Esta coisa de nos metermos no papel do outro dá aliás muito jeito, para resolver vários problemas familiares, conjugais, acho esse exercício importante. Então este personagem foi um trabalho de descoberta muito rico. Gostei muito de trabalhar aquela deceção, aquela amargura, uma profunda tristeza de ela não ter um lugar na sociedade. Essa perceção de não haver um lugar para ti é muito frustrante. A escrita do Edgar Medina e do Guilherme Mendonça conjuga-se com um tempo real. Não é que a Mafalda exista.

"Não sinto que o meu livre-arbítrio esteja condicionado, acho que se formos capazes de ver aquilo que vai acontecendo à nossa volta somos capazes de receber e aprender."

Existem várias Mafaldas.
Sim, é verdade. Não conheço esta Mafalda, mas conheço várias, que passaram por esta época. Abres qualquer revista, qualquer artigo de jornal e vais encontrar tanta coisa sobre a crise. Mas depois: quem é que escreveu sobre estas pessoas? Onde é que elas estão? Acho importante que se capture uma época, para que não fique esquecido no tempo.

E quão difíceis foram esses tempos.
Sem dúvida.

Em junho de 2018 fizeste parte do espectáculo “O Novo Mundo”, com os Possessos, na Culturgest. Confesso que quando soube do elenco me perguntei porque é que tu estarias ali. Não esperava.
Para já, tenho uma grande admiração e respeito pelo trabalho do João Pedro Mamede, como ator e como encenador. Depois porque nos conhecemos através d’”As Cartas da Guerra” [filme de 2016, realizado por Ivo Ferreira], e lembro-me de termos uma grande conversa sobre teatro, sobre direção de atores e encenação, num bar em Berlim, após a estreia do filme na Berlinale. E acho que são esses encontros na vida que depois ficam para sempre. E estávamos a falar de encenação e de como é ser dirigido e como é que, enquanto atriz, me coloco ao serviço do encenador e acho interessante estudar, quase namorá-lo para conseguir chegar ao seu universo e como é que ele, João Pedro, gosta de dirigir um ator. E a propósito desta conversa ficou no ar a vontade de trabalhar comigo. Tempos mais tarde, ele convida-me para fazer o “Sweet Home Europa”, no Teatro Nacional D. Maria II, coisa que eu, por uma questão de agenda, não consigo conciliar. Lembro-me de ficar profundamente triste e quando lhe comunico isto ele diz: “Vão haver mais oportunidades, olha, em Maio, estás a trabalhar, podias fazer um espectáculo? Pronto, é um personagem mais pequenino, é um grupo grande”. Disse logo “claro que sim”, sem saber o que seria o espectáculo, trabalhar com o João Pedro Mamede e com Os Possessos, chegava-me. Meses depois começámos a ensaiar.

Eram 17 atores.
É verdade, era um elenco incrível, todos tão diferentes, de percursos tão diferentes, todos eles maravilhosos, a Filipa Matta talentosíssima atriz, o André Pardal também, o Eduardo Breda, todos, tenho um carinho enorme por esse espectáculo, ter saído da minha zona de conforto, ter saído do meu espaço de trabalho, ter tido a oportunidade de trabalhar com todos estes atores, referi estes, mas gosto de todos. Essa vontade de trabalharmos uns com os outros, mais tarde ou mais cedo vamo-nos cruzar. Tinha uma pressa enorme em trabalhar com este e com aquele, hoje em dia acho que as coisas vão acontecer porque vão acontecer, sem mística nenhuma, o universo vai-se encarregar de colocar as peças no caminho certo se estivermos disponíveis para aceitar aquilo que nos acontece. A aceitação é a palavra do século XXI, para mim. Aceitar as coisas boas e más e como é que podes tirar proveito disso.

Isso é um bocadinho aquela ideia de que há alguém em cima, ou noutro sítio qualquer, a mexer nas marionetas que nós somos.
Não, não, isso é a ideia de que se estiveres alerta as peças do puzzle vão sendo alinhadas. Não sinto que o meu livre-arbítrio esteja condicionado, acho que se formos capazes de ver aquilo que vai acontecendo à nossa volta somos capazes de receber e aprender. Mas pronto, não vamos entrar no campo místico. Quer dizer, não, se quiseres entrar entra.

Não, estava só a pensar que místico é o facto de estarmos agora aqui a fazer esta entrevista depois de ter perdido o ficheiro de áudio anterior. No final dessa primeira conversa perguntei-te o que é que se seguia para ti e tu disseste que precisavas de descansar. Mantém-se essa decisão ou mudou em dois dias?
Bom, em dois dias surgiu um convite.

Estás a falar a sério?
Sim. Mesmo.

Tão bom.
Mas pronto, as coisas até estarem formalizadas, até ao primeiro dia de ensaios tenho muita cautela porque, pelas mais variadas razões, às vezes as coisas não acontecem. Mas sim, tive um ano, um ano e meio de trabalho incrível, a curta-metragem “Equinócio”, a estreia do “Hotel Império”, com o “Macbeth” nas Ruínas do Carmo, com “O Novo Mundo” dos Possessos, com “A Paixão”, novela da SIC, com “Na Corda Bamba”, esta nova novela para TVI, com a “Luz Vermelha” série para a RTP dirigida pelo André Santos e pelo Marco Leão, com o “Sul”, com esta Inês de Castro do “Reinar Depois de Morrer”… foi um ano muito rico. Quando menos esperava, quando aquela ansiedade me passou, trabalhei com diversos realizadores, diversos criadores, diversos formatos. Portanto, sinto que agora quando terminar este espectáculo – que ainda vai ao Porto na primeira semana de Dezembro e a Madrid em Janeiro – é o momento de fazer um balanço, de fazer umas férias, pode durar dois dias ou dois meses, é um momento de reflexão sobre aquilo que passou e sobre aquilo que há de vir. Bem, acho que é isso, a minha cabeça já não está bem, estou a falar há quanto tempo?

Há uma hora e vinte.
Estás a ver? É por isso que falo rápido, para despachar tudo.

“Reinar depois de Morrer” está em cena do Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada, até 17 de novembro.

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