Apontada pelos partidos do Governo como uma das áreas em que os executivos de António Costa mais falharam, a Saúde foi, desde início, colocada no topo das prioridades do governo de Luís Montenegro. Ainda nem dois meses tinham passado desde a tomada de posse e já estava a ser apresentado ao país o Plano de Emergência e Transformação da Saúde, com dezenas de medidas a aplicar a curto e médio prazo para melhorar o acesso dos utentes ao SNS, reforçando a resposta dos serviços de saúde.

Demasiado ambicioso nos tempos de concretização, o Plano de Emergência permitiu, ainda assim, melhorar a resposta em algumas áreas. Noutras, a situação piorou. Numa altura em que os principais protagonistas políticos do governo e da oposição fazem balanços diferentes em relação ao estado da Saúde — depois de um ano de governação do executivo da Aliança Democrática — analisamos 10 indicadores essenciais para medir a evolução no último ano.

  • Número de utentes sem médico de família atribuído (PIOR)

A área dos Cuidados de Saúde Primários é aquela em que o Governo tem tido mais dificuldade em mostrar resultados. Depois de um ano de governação, o número de portugueses sem médico de família atribuído aumentou, uma evolução contrária à pretendida pelo Executivo, cujo objetivo (cada vez mais distante) era dar “uma resposta de medicina familiar a todos os portugueses até final de 2025”, como prometeu o primeiro-ministro, Luís Montenegro, em fevereiro de 2024.

A 31 de março de 2024, dois dias antes de o Governo da AD tomar posse, o número de utentes sem médico de família era de 1.539.222, segundo dados consultados pelo Observador no Portal da Transparência do SNS. Até agosto do ano passado, esse número foi crescendo, atingindo um pico de 1.675.663. Depois, registou-se uma quebra até ao final do ano. A 31 de dezembro, eram 1.522.545 os utentes a descoberto. No entanto, o ano de 2025 imprimiu uma nova tendência de crescimento a este indicador, e no final de março, já eram 1.593.802 as pessoas sem médico. Ou seja, no espaço de um ano, há mais 54.580 pessoas a descoberto.

Mas se o número de utentes sem médico aumentou, também cresceu o número de portugueses com médico atribuído — uma consequência do aumento dos utentes inscritos nos Cuidados de Saúde Primários. Assim, no final de março de 2024, tinham médico atribuído 8.740.408 utentes. Um ano depois, eram já 8.933.346, ou seja, mais 192.938 pessoas.

Sintra e Cascais. Governo queria dar acesso para consultas a 75 mil utentes sem médico de família, mas falhou: só chegou a 5 mil

De entre as principais medidas que o Governo anunciou para tentar mitigar os problemas no acesso aos Cuidados de Saúde Primários, a maioria ainda não produziu resultados. Decorre ainda nesta altura o período de candidaturas às Unidades de Saúde Familiares modelo C (geridas pelo setor social, privado ou por cooperativas de médicos), quando o objetivo do Governo era ter estas unidades (que poderão dar resposta a mais de 350 mil pessoas em zonas carenciadas) a funcionar até final de 2024. Seriam 20 as USF modelo C a inaugurar mas, até ao início de abril, tinham sido formalizadas apenas seis candidaturas.

Também o projeto que envolvia o Hospital de Cascais (que funciona em regime de Parceria Público Privada) e que pretendia dar médico de família a 75 mil pessoas dos concelhos de Cascais e Sintra, teve resultados muito abaixo do pretendido, tendo apenas chegado a cinco mil pessoas.

  • Número de utentes a aguardar cirurgia oncológica para lá do Tempo Máximo de Resposta Garantido (MELHOR)

Foi uma das maiores prioridades do Ministério da Saúde ao longo do último ano. Logo em maio do ano passado, o Governo publicou uma portaria em que atribuía um incentivo (correspondente a 90% do valor total da cirurgia) às equipas cirúrgicas, com vista à “resolução das listas de espera dos utentes com suspeita ou confirmação de doença oncológica, fora dos TMRG”. E os resultados surgiram. Enquanto no final de maio havia 2.434 doentes a aguardar cirurgia fora dos tempos máximos mas já com operação marcada, no final de dezembro, de acordo com a Direção Executiva do SNS, eram já 1.291 pessoas — uma diminuição de 47% no período de sete meses. O Observador pediu os dados mais recentes à DE-SNS, mas não obteve resposta.

No entanto, na página de acompanhamento do Plano de Emergência para a Saúde, pode ver-se a evolução até março deste ano no que diz respeito ao número de utentes que aguardam cirurgia oncológica para lá do TMRG e cuja operação ainda não foi agendada. No final de março do ano passado, quando o novo Governo tomou posse, estavam nesta situação 689 pessoas; em março de 2025, a lista reduziu-se para 180 utentes.

Cirurgias oncológicas. Ainda há mil doentes à espera para lá do tempo de resposta aceitável e lista de espera está estagnada

  • Tempo médio de espera nas urgências hospitalares (MELHOR)

São já crónicos os elevados tempos de espera nas urgências hospitalares, particularmente no período de inverno, em que a pressão se avoluma. E o último ano não fugiu à regra. Em vários hospitais da Grande Lisboa registaram-se tempos de espera para doentes urgentes (triados com pulseira amarela) muito superiores ao recomendado. O Hospital de Santa Maria, considerada uma unidade hospitalar de fim de linha, chegou a demorar 17 horas para atender doentes urgentes no início de janeiro. E no final do mesmo mês, havia utentes urgentes a terem de aguardar mais de 30 horas para serem vistos na urgência geral do Hospital Amadora-Sintra.

Inverno: Número de urgências diminuiu no SNS e tempo de espera caiu 20%. Alguns hospitais de Lisboa, Alentejo e Algarve em contraciclo

No entanto, estes casos extremos escondem a evolução positiva do SNS no que diz respeito aos tempos de espera. Entre 2 de abril de 2024 e 2 de abril de 2025, quando o Governo completou um ano em funções, o tempo médio de espera nas urgências (medido entre a triagem e a primeira observação médica) fixou-se nos 53 minutos, uma quebra em relação aos 63 minutos do último ano de governação de António Costa (entre 2 de abril de 2023 e 2 de abril de 2024), segundo os dados do Portal de Monitorização do SNS. Ou seja, registou-se uma diminuição na ordem dos 16%.

Também o tempo médio de permanência total nos serviços de urgência recuou: era de 286 minutos (quase cinco horas), tendo baixado para os 276 minutos no último ano. Diminui também, ligeiramente, a percentagem de pessoas que passa mais de seis horas nas urgências: representaram, durante o último ano, 24,4% do total.

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  • Número de médicos no SNS (MELHOR)

Embora a tendência de aumento do número de médicos especialistas a trabalhar no SNS seja uma constante desde 2015, foi durante o último ano que se atingiu o número mais elevado de que há registo: 21.805 médicos, em outubro de 2024. Ao longo do primeiro ano do governo da AD, o SNS “ganhou” 194 médicos (eram 21.408 no final de março de 2024, e 21.602 no final de março de 2025 — um aumento de 0,9%).

No entanto, o reforço do número de médicos foi geograficamente bastante desigual. Enquanto a região Norte “ganhou” até fevereiro (os últimos dados disponíveis no Portal da Transparência do SNS) mais 133 médicos relativamente ao momento da tomada de posse do Governo, as regiões de Lisboa e Vale do Tejo e do Alentejo só têm mais 20 e dois médicos, respetivamente. A região Centro tem mesmo um saldo negativo (menos 34 médicos), assim como o Algarve, outra região carenciada (com menos 19).

Estes números não contemplam os médicos internos, que representam cerca de um terço dos médicos que trabalham no SNS (rondam os 11 mil).

  • Número de utentes a aguardar cirurgia para lá do Tempo Máximo de Resposta Garantido (PIOR)

Ao contrário do setor das cirurgias oncológicas — em que o Governo conseguiu diminuir a lista de espera dos doentes que aguardavam para lá do prazo clinicamente recomendável — no caso das cirurgias totais, o cenário é o inverso. Nos últimos dez meses, a lista somou mais 1.750 utentes nesta situação: eram 75.109 no final de março de 2024, e 76.859 em janeiro deste ano (o último mês para o qual existem dados), o que representa um aumento de 2,3%. Em relação ao total de doentes inscritos no SIGIC [Sistema Integrado de Gestão de Inscritos para Cirurgia], 28,7% dos doentes aguardavam cirurgia para lá do tempo máximo em janeiro de 2025, contra 28% no final março de 2024, segundo os dados do Portal da Transparência do SNS.

Foi em julho de 2024 que a Direção Executiva do SNS deu indicação aos hospitais para que agendassem, até ao final desse mês, todas as cirurgias dos doentes não oncológicos que se encontrassem a aguardar para lá do tempo de resposta recomendado ou cujo tempo máximo de resposta fosse atingido até dia 31 de dezembro. A indicação era que todas as cirurgias se deveriam realizar até dia ao final de 2024.

SNS. Direção Executiva quer hospitais a operar todos os doentes até final do ano. Médicos e administradores avisam que não é possível

Na altura, tanto administradores hospitalares como médicos avisaram que tal não seria possível e os receios confirmaram-se. Em meados de março, o Ministério da Saúde anunciou que o Plano de Curto Prazo de Melhoria do Acesso a Cirurgia Não Oncológica tinha permitido operar apenas 400 doentes. Ainda assim, a tutela considera que a medida (inscrita no Plano de Emergência para a Saúde) “impulsionou significativamente a recuperação da atividade assistencial”.

  • Número de enfermeiros no SNS (MELHOR)

Foi uma das classes profissionais da área da saúde com a qual o Governo assinou um acordo de valorização salarial em 2024. E entre final de março de 2024 e final de fevereiro de 2025 (o último mês com dados disponíveis), o SNS passou de um quadro de enfermeiros de 50.864 para 51.761. Ou seja, em onze meses, houve um saldo positivo (entre entradas e saídas) de 897 profissionais.

À semelhança do que acontece com os médicos, a região Norte absorveu a maior parte do aumento registado: neste período, “ganhou” 579 enfermeiros, contra 96 em Lisboa e Vale do Tejo e 25 no Alentejo. A região Centro (com menos 79 enfermeiros) e o Algarve (com menos 16) registaram perdas.

  • Número de episódios de urgências obstétricas (PIOR)

A criação da linha SNS Grávida foi uma das grandes bandeiras do Governo. Em junho, o Ministério da Saúde dizia que a linha tinha o objetivo de organizar o circuito da grávida, em particular em situações de urgência, garantindo uma “resposta de qualidade e segurança”. As grávidas eram, ao início, aconselhadas a ligar mas a partir de dezembro o contacto com a linha (que tem do outro lado equipas de enfermeiros especialistas em Saúde Materna) passou a ser obrigatório em zonas como Lisboa e Vale do Tejo e Oeste. Em quatro meses, o Governo diz ter evitado quase oito mil idas às urgências obstétricas.

O projeto-piloto nestas regiões, alargado no início de abril a todo o país, não evitou, no entanto, o aumento acentuado do número total de episódios de urgências obstétricas no último ano. Entre 2 de abril de 2024 e 2 de abril de 2025, registaram-se 355.085 atendimentos nos hospitais públicos, mais 24% do que no último ano de governação de António Costa (isto é, entre 2 de abril de 2023 e 2 de abril de 2024), segundo os dados do Portal de Monitorização do SNS.

  • Proporção de utentes a aguardar consulta de especialidade para lá do Tempo Máximo de Resposta Garantido (PIOR)

No Plano de Emergência para a Saúde, apresentado em maio de 2024, o Governo comprometia-se a reduzir a lista de espera para consultas de especialidade, “com especial foco em doentes com os Tempos Máximos de Resposta Garantidos ultrapassados”. A medida era considerada “prioritária”, ou seja, deveria ter gerado resultados até final de 2024. Mas tal não aconteceu.

A lista de espera aumentou consideravelmente entre o final do primeiro semestre de 2024 e o final do ano passado, segundo os dados publicados pela Entidade Reguladora da Saúde (não existem dados mais recentes). Assim, a 30 de junho, aguardavam pela primeira consulta de especialidade 776.096 pessoas. Passados seis meses, a 30 de dezembro passado, o número disparou: já era de 902.814 utentes, mais 16,3%.

Além do aumento bruto da lista de espera, também os utentes que aguardavam pela primeira consulta de especialidade aumentou em proporção. No primeiro semestre do ano passado, era 54,5% do total, enquanto no final do ano de 2024 era já de 55,3% do total, ou seja, havia mais 76 mil pessoas a aguardar consulta para lá do tempo máximo garantido.

  • Proporção de falsas urgências hospitalares (MELHOR)

É um dos casos em que a estratégia do Governo — de impulsionar o contacto com a Linha SNS24 antes do recurso às urgências — parece estar a dar frutos. Entre 2 de abril de 2024 e 2 de abril de 2025, quando o Governo completou um ano, a percentagem de doentes triados com pulseiras azuis e verdes (considerados não urgentes) foi de 35,8%, segundo os dados consultados pelo Observador no Portal de Monitorização do SNS. Trata-se de uma diminuição em relação aos 365 dias imediatamente anteriores.

Entre 2 de abril de 2023 e 2 de abril de 2024, no último ano de governação do PS, a proporção das chamadas “falsas urgências” no total dos episódios de urgências hospitalares foi de 39,1%, mais 3,3 pontos percentuais.

Para a evolução positiva neste indicador terá contribuído o alargamento e impulso do projeto ‘Ligue Antes Salve Vidas’. Das 27 Unidades Locais de Saúde onde o acesso às urgências pressupõe um contacto prévio com a Linha SNS24, 24 aderiram já durante o mandato do atual Governo — um grupo onde se incluem a maioria das ULS da região de Lisboa e Vale do Tejo, uma das zonas mais críticas. Ainda assim, nesta região, 42,5% dos episódios de urgências são “falsas”, uma ligeira diminuição em relação aos 44% registados no último ano do anterior governo.

  • Utentes a aguardar vaga em Unidade de Cuidados Continuados (PIOR)

A falta de vagas nas Unidades de Cuidados Continuados é um problema crónico, agravado pelas dificuldades financeiras que muitas unidades enfrentam para manter a atividade. A reduzida disponibilidade de vagas, sobretudo na região de Lisboa e Vale do Tejo, afeta a capacidade de internamento dos hospitais, na medida em que muitas unidades hospitalares ficam impedidas de transferir doentes para Cuidados Continuados — sendo este um dos fatores que contribui para os chamados internamentos sociais, que têm vindo a aumentar.

No que diz respeito ao número de utentes a aguardar vagas nas várias unidades de Cuidados Continuados, o cenário é agora pior do que quando o atual Governo tomou posse. A 2 de abril do ano passado, estavam em lista de espera 2.217 pessoas em todas as tipologias (Unidades de Convalescença, Unidade de Média Duração e Unidades de Longa Duração). Já a 2 de abril de 2025, a lista de espera aumentou para 2.314 pessoas, de acordo com os dados do Portal da Transparência do SNS — um aumento de 4,4%. Quase um terço (758 pessoas) aguardava vaga numa das unidades de Lisboa e Vale do Tejo.

Em risco de falir, unidades de cuidados continuados recorrem a truques para poupar dinheiro e manter portas abertas

O atual Governo não definiu esta área como prioritária e só mais recentemente começou a tomar medidas para inverter o agravamento das listas de espera. A 6 de abril, o Ministério da Saúde aumentou em 19% o financiamento atribuído às unidades de Cuidados Continuados (um valor que é, no entanto, contestado pela associação do setor) e a meio do mês assinou 90 contratos de financiamento, que irão permitir a criação de cerca de 3.300 camas — a juntar às cerca de 15 mil que já existem.

Desta forma, entre os 10 indicadores selecionados pelo Observador, cinco registaram uma evolução positiva durante o mandato do atual Governo, enquanto outros cinco evoluíram no sentido contrário.