Bloco de notas de reportagem no PS. Dia 3. Há uma nova espécie de “eurocalmo”, agora no PS /premium

15 Maio 2019

Não é ideologia europeia (como a de Portas) é só porque está calmo nesta campanha, "calmíssimo", segundo o próprio Pedro Marques. Mas já vai mudando a rota, com mais um contacto de rua a surgir.

 

O candidato garante estar “calmíssimo”. Depois do “eurocalmo” Paulo Portas, que explicava que isso queria dizer que o CDS já não era “eurocético” e que não ia “levantar ondas”, o “eurocalmo”, Pedro Marques, que ainda não viu formar uma onda eleitoral. O candidato socialista quer falar mais de Europa e queixa-se do estilo de “maledicência” do adversário social-democrata, ainda assim foi dele um dos discursos mais duros da campanha, a atacar o voo de Paulo Rangel sobre a área ardida em junho de 2017. Foi uma espécie de tábua de salvação — para uma caravana que circula meio dormente pelo país — que Pedro Marques agarrou, apoiado pelo líder socialista. Acabou por repetir a crítica a Rangel durante o dia desta quarta-feira, mas a campanha propriamente dita seguiu no mesmo marasmo. Na agenda já apareceu, entretanto, mais um contacto com a população, para esta quinta-feira, em Fafe.

A caravana está prestes a seguir para norte e o candidato vai finalmente sair à rua, numa iniciativa que não estava prevista inicialmente (já tinha acontecido isto com aquele “café” em Évora). Nesse dia estava agendada uma ida aos Açores que, por motivos de agenda do líder socialista (que acompanhará o seu candidato às Europeias), passou para domingo. Quinta-feira terá, assim, uma reunião com Rui Moreira, no Porto e, à tarde, uma arruada em Fafe, câmara socialista. No dia seguinte, em Coimbra, outra (esta estava já prevista). Pedro Marques vai sair da agenda mais controlada que tem preferido por considerar ser aquela em que mais pode mostrar “a importância da Europa”. Mas a coisa nem sempre correu nesse sentido, pelo menos por via direta.

De manhã, na Dan Cake, a fábrica colocada na agenda à ultima hora — com Maria da Luz Rosinha (ex-autarca de Vila Franca de Xira) a mexer os cordelinhos — Pedro Marques e Margarida Marques (a número quatro da lista do PS às Europeias) encontraram um empresário queixoso pela falta de apoios, europeus e outros. À tarde o candidato disse, em Ponte de Sôr, durante uma visita à empresa de drones, a Tekever, o que podia mudar para apoiar as médias empresas, nomeadamente na harmonização fiscal. E congratulou-se por se falar de temas europeus.

“O Pedro Marques está calmíssimo e empenhadíssimo em falar com as pessoas, em explicar propostas para a Europa, em explicar porque a Europa é importante. De facto não foi o primeiro-ministro nem a campanha do PS que escolheu andar a sobrevoar a região centro em vez de falar com as pessoas afetadas”.

A frase de Pedro Marques faz um resumo dos últimos dias: garante que não está nervoso com as críticas — uma nova espécie de eurocalmo; diz que o seu estilo é mais pedagógico em relação à importância do trabalho em Bruxelas; ataca Paulo Rangel ao mesmo tempo que diz que não vai enveredar por dizer mal dos adversário.

O ponto mais alto veio da noite de terça-feira e contagiou esta quarta-feira: o ataque em tom inesperado a Paulo Rangel, por causa do voo de helicóptero. Pedro Marques agarrou a crítica do autarca social-democrata de Pampilhosa da Serra ao social-democrata Paulo Rangel e aproveitou-a em cheio para atirar uma espécie de lição política ao lado de lá da barricada. E teve o líder socialista ao seu lado a validar não só a crítica, como o estilo de campanha do seu candidato, que tão criticado tem sido.

O ponto baixo é o marasmo em que continua a viver a candidatura socialista. É verdade que, por duas noites seguidas, teve António Costa ao seu lado (e na terça Capoulas dos Santos e nesta quarta à noite Vieira da Silva e Matos Fernandes, mais dois ministros do Governo), mas o contacto com as pessoas continua a níveis mínimos. Ainda que esta quarta-feira, nas duas empresas que visitou, Pedro Marques já tenha sido mais ativo na abordagem aos trabalhadores, aproveitando para o apelo direto ao voto — isto no dia em que classificou a abstenção como o seu “pior inimigo”.

O Portugal na CEE deste dia é na verdade um Portugal fora da CEE. E mesmo CEE (e não UE), como Portugal a conheceu quando entrou, e como Kantilal Jamnadas — então com pouco mais de 30 anos — a temeu. Agora, 40 anos depois queixa-se de ser o fundador e presidente da empresa que diz “menos apoios ter recebido” no país e de estar em concorrência com países europeus que têm condições fiscais muito mais favoráveis. A União Europeia, a ele, trouxe-lhe mais dores de cabeça do que propriamente vantagens, mostrou quando se reuniu com o candidato socialista. “Eu quero é igualdade”, diz ao Observador queixando-se do IVA espanhol a 10% pelos mesmo produtos (os que produz) que em Portugal são taxados a 23%.

Kantilal Jamnadas é o homem Dan Cake. Foi condecorado em outubro por Marcelo com as insígnias de Grande Oficial de Mérito Industrial

O moçambicano veio para Portugal com 30 anos, depois do 25 de abril. Passados três estava a abrir uma empresa de bolachas que virou marca de referência nacional nesta matéria, a Dan Cake. Tanto que, em outubro passado, foi condecorado pelo Presidente da República com as insígnias de Grande Oficial de Mérito Industrial. Entre o orgulho pelo empreendimento e a queixa pela falta de ajuda diz que  “o único apoio” que teve em 40 anos “foram 250 mil contos quando se investiu nestas instalações”, referindo-se à fábrica instalada em Póvoa de Santa Iria. “Esta, porque tem 5oo trabalhadores, já não é uma Pequena e Média Empresa”, por isso não é elegível para fundos europeus. “Os grandes projetos têm tudo, mas os de média dimensão não”.

Ao Observador diz que só consegue competir com Espanha porque produz “coisas que eles não têm”: “Mas nos croissants e nos queques… não consigo. Mas não desisto“. Aos 73 anos, o homem que é o líder da comunidade hindu em Portugal, também se orgulha da relação que mantém com os trabalhadores. Nos corredores da fábrica chama todos pelo nome, vai contando a Pedro Marques que os conhece desde muito novos e que reduziu o tempo para almoço para que os seus trabalhadores possam sair mais cedo e aproveitar o tempo com a família. Diz ao Observador que passou por maus momentos — a crise de 2011 e 2012 — de que ainda está a recuperar e sem as tais ajudas, mas que “a última coisa” que faria era “despedir trabalhadores”. Esta quinta-feira, as suas queixas (largadas como “dicas” aos candidatos), puseram o socialista a prometer lutar em Bruxelas pelo equilíbrio fiscal entre os estados-membros.

Mais uma volta numa empresa, mais uma imagem típica de campanha. Depois dos óculos, a touca e a bata com que Pedro Marques circulou pela fábrica da Dan Cake. E onde não conseguiu descobrir o números de folhas que leva um dos mini-folhados na marca. Quando Jamnadas lhe deitou a adivinha disse: “Oito, o número de atuais eurodeputados eleitos pelo PS”. Nem de perto nem de longe, o número certo é 126.

O candidato arrancou de Lisboa, onde passou a noite depois do comício de Faro, e foi até Póvoa e Santa Iria e depois Ponte de Sôr, ao Aeródromo municipal para visitar a Tekeven. Fez 154 quilómetros neste terceiro dia. Ao todo, nestes três dias  a caravana socialista já fez 1325 quilómetros nesta pré-campanha.

Oiça as melhores histórias destas eleições europeias no podcast do Observador Eurovisões, publicado de segunda a sexta-feira até ao dia do voto.

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