Crucifixos, evangelhos e Nossa Senhora: a queda violenta do governo italiano /premium

20 Agosto 2019220

No dia em que o governo populista do 5 Estrelas e da Liga caiu, as trocas de insultos foram intervaladas com citações dos evangelhos e beijos em terços. E soluções? A única resposta está na Bíblia.

“Cara presidente, caras senadoras, caros senadores…”

Mal o primeiro-ministro de Itália, Giuseppe Conte, começou o discurso da sua demissão com os habituais salamaleques de cortesia ao Senado, o ministro da Administração Interna, Matteo Salvini, levou a mão ao bolso.

Ali, sentado mesmo ao lado do seu ex-aliado, o líder da Liga procurava algo com a mão esquerda. Depois de algum esforço, Salvini tirou do bolso um terço e, segurando-o com as duas mãos, deu-lhe um beijo.

Tudo a que se viu aos salamaleques de Conte e ao beijo de Salvini não foi nada menos do que o espelho da situação política daquele país: polarizado num debate infrutífero entre dois partidos em queda — o Partido Democrático (PD, de centro-esquerda) e o Movimento 5 Estrelas (M5E, populista) — e um — a Liga (extrema-direita) de Matteo Salvini — em franca subida, onde todo o espaço é preenchido por insultos e trocas de acusações. Para já, às soluções de futuro, não sobre nenhum milímetro.

Giuseppe Conte passou os últimos meses  a acumular pressão, perante as repetidas investidas de Matteo Salvini para sublinhar, em público e em bom som, as zonas de discórdia entre o M5E e a Liga. Salvini quis os Jogos Olímpicos em Roma, Conte disse “não”. Salvini quis baixar os impostos sobre o rendimento até 15% para todos os cidadãos, Conte disse “não”. Salvini quis barrar o caminho a Ursula von der Leyen para a presidência da Comissão Europeia, Conte disse “não”. Salvini quis construir uma linha de TGV entre Turim e Lyon, Conte disse que “não”.

"Caro Matteo, ao promoveres esta crise de governo, assumiste uma grande responsabilidade perante o país. Anunciaste esta crise pedindo 'plenos poderes' para governar o país e recentemente ouvi-te a pedires que saíssem às praças para te apoiarem. O teu conceito preocupa-me. As crises de governo, de acordo com a ordem republicana, não se resolvem nas praças, mas sim no parlamento".
Giuseppe Conte, primeiro-ministro demissionário

Por estas e por outras, Salvini passou a chamar Conte publicamente de “Senhor Não” e disse de forma clara que as palavras do primeiro-ministro escolhido pelo M5E  lhe interessavam “menos do que zero”.

Esta terça-feira, depois de tanta tensão acumulada, Conte explodiu: e o alvo estava sentado ali, do seu lado direito, com um terço na mão.

“Caro Matteo, ao promoveres esta crise de governo, assumiste uma grande responsabilidade perante o país. Anunciaste esta crise pedindo ‘plenos poderes’ para governar o país e recentemente ouvi-te a pedires que saíssem às praças para te apoiarem”, referiu Conte, para depois rematar: “O teu conceito preocupa-me. As crises de governo, de acordo com a ordem republicana, não se resolvem nas praças, mas sim no parlamento”.

Era já claro para todos que Conte se ia demitir, mas ainda assim o primeiro-ministro italiano, que chamou a si o título de “advogado do povo”, quis insistir nas acusações contra o ex-aliado que tanto o tem criticado nos últimos meses.

Conte falou durante quase uma hora e com a dureza que nunca tinha utilizado contra Salvini (ANDREAS SOLARO/AFP/Getty Images)

“Não precisamos de pessoas, de homens, com plenos poderes, mas sim de pessoas com cultura institucional e sentido de responsabilidade”, atirou-lhe Conte, que referiu que ir a novas eleições pouco mais de um ano depois da última ida às urnas é uma “irresponsabilidade” e fará “necessariamente” com que o país fique “em risco de um procedimento por défice excessivo”, imposto por Bruxelas.

Todas estas tiradas de Conte foram seguidas pelo riso de Matteo Renzi (já lá vamos), pelas palmas e ovações da bancada do M5E e, como já se fazia adivinhar, por um enorme bruaá vindo da bancada da Liga, que se desdobrou em apupos e pateada.

"Admito que nunca to tenha dito, até porque não diz respeito às competências de governo, mas os detentores de cargos governamentais devem evitar, em comícios, juntar aos slogans políticos os símbolos religiosos."
Giuseppe Conte, primeiro-ministro demissionário, para Matteo Salvini

Porém, ainda estava para vir o momento em que os partidários de Salvini acabaram por causar o momento mais tenso da sessão desta terça-feira no debate, quando Conte entrou em território sagrado: o terço do homem forte da Liga.

“Admito que nunca to tenha dito, até porque não diz respeito às competências de governo, mas os detentores de cargos governamentais devem evitar, em comícios, juntar aos slogans políticos os símbolos religiosos”, disse.

De imediato, fizeram-se ouvir os gritos da bancada da Liga, os aplausos dos partidários do M5E e, a tentar calar todos estes, a presidente Maria Caselatti, cujo sino está longe cumprir a função que, na Câmara dos Comuns, no Reino Unido, é desempenhada pelos gritos do speaker John Bercow. Antes pelo contrário: o barulho continuou e a ordem não chegou. E, pelo meio de tudo isto, Salvini voltou a remexer no bolso esquerdo e, agora mais depressa, tirou de lá o seu terço. Primeiro pousou-o sobre a mesa e, depois, tornou a beijá-lo — desta vez, com os olhos cravados em Conte.

O primeiro-ministro continuou. Pousou a mão no ombro de Salvini e prosseguiu: “Matteo, este comportamento não impede os princípios de liberdade e consciência religiosa. Na verdade, são episódios de inconsciência religiosa, que se arriscam a ofender os sentimentos dos crentes e colocam uma nuvem sobre o Estado secular, característica fundamental de um Estado moderno”.

Foi só depois de tudo isto, depois de ter largado toda esta tensão acumulada por vários meses de crise com Salvini, que Conte anunciou a sua demissão. Aí, pela primeira e única vez, a bancada da Liga aplaudiu-o de pé.

Salvini: o “homem livre” que pedirá “sempre a proteção do coração imaculado de Maria”

Foram aquelas mesmas palmas e urras que se ouviram novamente quando chegou a vez de Salvini falar. Logo ao início do seu discurso, o líder da Liga recusou dar a outra face e deixou qualquer noção de arrependimento e redenção para a Bíblia Sagrada: “Voltaria a fazer tudo o que fiz”.

Dizendo que vive “com a grande força de ser um homem livre” e que “nao tem medo do juízo dos italianos”, Matteo Salvini pediu eleições antecipadas. “Nesta câmara, há mulheres e homens livres e mulheres e homens um pouco menos livres. Quem tem medo do juízo do povo italiano, não é nem uma mulher nem um homem livre”, rematou.

"Os homens e mulheres da Liga, os seus ministros, não têm medo. É gente livre, que só responde ao povo italiano, não a Merkel ou Macron. Só responde ao povo italiano: orgulhoso, livre e soberano. Soberano! Com uma ideia de futuro, de filhos, de família. E de filhos que têm uma mãe e um pai!"
Matteo Salvini

Salvini não gostou nada do discurso de Conte. Pouco habituado a ouvi-lo de língua afiada, o líder da Liga disse que todas as acusações que lhe foram endereçadas eram “uma novidade”. E queixando-se de que foi apelidado de “perigoso, autoritário, preocupante, ineficaz, inconsciente”, Salvini referiu: “Para isso, já havia [o jornalista de investigação Roberto] Saviano para juntar tantos insultos, já havia [o jornalista de investigação Marco] Travaglio, ou [o ex-primeiro-ministro Matteo] Renzi… Não o presidente do Conselho de Ministros”.

E, sobre as provocações de Conte, sobre o uso do terço em comícios e vídeos de campanha, Salvini atacou forte contra o primeiro-ministro que rapidamente deixaria de sê-lo. “Os italianos não votam com base no rosário, mas sim na sua cabeça e no seu coração. Pedirei sempre a proteção do coração imaculado de Maria para toda a Itália e não tenho vergonha disso”, atirou. Mais tarde, já ao final do dia, Salvini ironizou a situação, dizendo que “não sabia que no código penal havia um artigo que proibia o porte do terço, esse artigo tão perigoso”.

Quando terminou o seu discurso — que foi interrompido várias vezes, por alguns deputados da oposição de esquerda, que ergueram cartazes anti-Salvini —, o líder da Liga era já aplaudido de pé, e continuamente, pelos seus senadores.

"Não sabia que no código penal havia um artigo que proibia o porte do terço, esse artigo tão perigoso."
Matteo Salvini

“Os homens e mulheres da Liga, os seus ministros, não têm medo. É gente livre, que só responde ao povo italiano, não a Merkel ou Macron. Só responde ao povo italiano: orgulhoso, livre e soberano. Soberano! Com uma ideia de futuro, de filhos, de família. E de filhos que têm uma mãe e um pai!”, atirou.

Enquanto isto, o sino da presidente do Senado a soar, impotente, para pedir silêncio a todos. Não foi necessário por muito mais tempo. Salvini já estava perto de acabar, mas não o fez antes de mandar uma última facada ao Movimento 5 Estrelas, que tem agora no horizonte, entre vários cenários possíveis, uma coligação com o Partido Democrático, do qual sempre foi um feroz crítico.

(Simona Granati - Corbis/Getty Images)

“Se quiserem governar com Renzi, Boschi e Lotti, boa sorte a explicá-lo aos italianos”, atirou Salvini, elencando o nome de três polémicos social-democratas: Matteo Renzi, ex-primeiro-ministro e homem que deixou poucas saudades à direita italiana; Maria Elena Boschi, ex-ministra e conhecida por escândalos com a banca; e Luca Lotti, ex-ministro envolvido num escândalo com o Conselho Superior de Magistratura.

Renzi: o “Alabama dos anos 50” contra o evangelho segundo Mateus

Logo a seguir a Salvini, foi a vez de falar precisamente um dos supracitados centro-esquerdistas: Matteo Renzi, senador do PD, antigo primeiro-ministro e ex-líder daquele partido do centro-esquerda, ainda hoje dividido entre aqueles que lhe são leais (os renzianos) e aqueles que estão com o secretário-geral do momento, Nicola Zingaretti.

Renzi tem um objetivo: juntar o PD ao M5E num governo de gestão, de forma a evitar eleições antecipadas — e, quanto a isso, garantiu esta terça-feira que, a haver uma solução entre aquelas duas forças, ele não teria qualquer cargo nela.

"Eu respeito a sua [de Salvini] fé religiosa e comparto-a, embora com ênfases diferentes, e leio o evangelho — o Evangelho segundo Mateus, claro! — quando diz 'eu tinha frio e tu me acolheste, eu tinha fome e tu deste-me de comer'. Se acredita neste valores, permita que desembarquem as pessoas que estão presas, até agora, reféns de uma política vergonhosa!"
Matteo Renzi, ex-primeiro-ministro e senador do Partido Democrático

Dessa forma, de forma a manter o M5E no seu lado bom, o maior alvo do seu discurso foi mesmo Salvini e a Liga. Recordando o pedido de “poderes plenos” de Salvini, Renzi pôs o dedo nas feridas abertas pela russofilia do líder da Lega e disse: “Salvini quer poderes plenos talvez para tirar Itália do euro e metê-la no rublo”.

Renzi foi também incisivo contra a Liga na altura de denunciar um “clima de ódio” em Itália, enunciado alguns exemplos de racismo conhecidos do público italiano. “Isto são cenas do Alabama dos anos 50, não é a Itália de 2020”, atirou.

Matteo Renzi quer levar o PD a fazer um pacto com o M5E — mas a direção do seu partido é contra essa aliança (Antonio Masiello/Getty Images)

Também aqui, o ex-líder do PD decidiu ter a sua boutade religiosa. De memória, citou a Bíblia — “Evangelho segundo Mateus, claro!”, gracejou, por tanto ele como Salvini partilharem o nome com aquele apóstolo de Jesus Cristo.

“Eu respeito a sua [de Salvini] fé religiosa e comparto-a, embora com ênfases diferentes, e leio o evangelho — o Evangelho segundo Mateus, claro! — quando diz ‘eu tinha frio e tu me acolheste, eu tinha fome e tu deste-me de comer’. Se acredita neste valores, permita que desembarquem as pessoas que estão presas, até agora, reféns de uma política vergonhosa!”, atirou o ex-primeiro-ministro Renzi.

E agora? Mattarella é que sabe, Mattarella é que decide

Há muito que não se sabe de Sergio Mattarrella — mas é agora por ele que todos esperam em Itália. No final deste longo dia da política italiana, Giuseppe Conte fez uma última viagem como primeiro-ministro até ao Palácio do Quirinale, onde apresentou a demissão ao chefe de Estado de Itália.

Agora, cabe a Sergio Mattarella decidir se abre espaço aos partidos para entrarem em negociações para formar um governo ou se convoca eleições antecipadas. A par com esta dinâmica de contornos pouco claros — em teoria, Sergio Mattarella pode demorar semanas ou até meses a tomar uma decisão —, está outra bem mais concreta.

O Presidente da República, Sergio Mattarella, tem nas mãos a decisão de abrir espaço a um governo interino ou a eleições antecipadas(Michele Tantussi/Getty Images)

O governo italiano, seja ele qual for, tem até 15 de outubro para entregar a Bruxelas a sua proposta de Orçamento do Estado. De seguida, há outro prazo, fixado a 31 de dezembro, que é a data limite para aprovar no parlamento esse mesmo Orçamento do Estado. Caso tudo isto falhe, entra em funcionamento a lei da salvaguarda orçamental, que levará a um aumento automático do IVA: a taxa intermédia passa de 10 para 13% e a taxa máxima sobre dos 22 para os 25,2%. Os efeitos desta subida podem levar Itália de um crescimento anémico para uma recessão.

Este não foi, porém, um tema pelo qual se tivessem demorado os principais oradores do dia em que caiu o 65º governo desde que foi inaugurada a República de Itália, em 1946, após a Segunda Guerra Mundial. Deste dia, o que houve de sobra em insultos faltou em soluções. Na Bíblia, pouco antes de morrer na cruz, Jesus Cristo diz: “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem”. Terão os italianos essa capacidade de perdoar?

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