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Pablo Iglesias no momento em que anunciou a retirada da política ativa

Europa Press via Getty Images

Pablo Iglesias no momento em que anunciou a retirada da política ativa

Europa Press via Getty Images

Da foto no boletim de voto ao resultado trágico. Os sete anos da curta era de Iglesias na política espanhola /premium

Em 2014 foi a estrela que desequilibrou o sistema partidário espanhol. Apenas sete anos depois, abandonou a política ativa após uma votação desastrosa. A ascensão e queda de Pablo Iglesias.

Quando os espanhóis foram às urnas no dia 25 de maio de 2014 para eleger os 54 deputados a que o país tem direito no Parlamento Europeu, só uma das forças políticas a votos não estava representada pelo logótipo ou sigla, mas pela fotografia do cabeça-de-lista. O Podemos fora fundado poucos meses antes, em janeiro de 2014, mas o seu líder, o jovem académico e comentador televisivo Pablo Iglesias, então com 35 anos, já alcançara o estatuto de estrela política em ascensão. Por isso, o partido recém-criado não hesitou na escolha do símbolo para o boletim de voto. “Pablo Iglesias é muito mais conhecido do que a iniciativa”, justificou o Podemos, detalhando que as sondagens diziam que mais de 50% dos espanhóis identificavam Iglesias, mas só 10% reconheciam o partido.

O boletim de voto do Podemos nas Europeias de 2014

Autêntico terramoto na política espanhola, Iglesias e o Podemos revolucionaram o equilíbrio das forças partidárias no país. Em tempo recorde, o Podemos assumiu-se como um dos partidos centrais do sistema político espanhol — enquanto Iglesias resistia a uma sucessão de crises internas e se impunha como condição para a esquerda governar em Espanha, chegando (após uma sucessão de eleições e de impasses para o PSOE formar governo) a vice-primeiro-ministro de Pedro Sánchez.

"Pablo Iglesias é muito mais conhecido do que a iniciativa."
Comunicado do Podemos, 2014

Porém, a época de ouro de Iglesias esgotou-se em tempo igualmente recorde. Ao fim de apenas sete anos, e de uma cisão interna que fragilizou o partido, de onde saíram fundadores e os que lhe chegaram a ser os mais fiéis, Pablo Iglesias anunciou o fim da vida política ativa na sequência de uma jogada arriscada que correu mal: apostado em salvar o partido da humilhação eleitoral numa altura em que todas as sondagens lhe davam menos de 5% de intenções de voto, decidiu abandonar a vice-presidência do governo para concorrer às eleições regionais de Madrid, anunciando-se como a única solução para cortar o caminho à extrema-direita. Contudo, não passou do quinto lugar. Com 7,21% dos votos, a coligação encabeçada por Iglesias elegeu menos deputados regionais que o Más Madrid (o movimento que resultou da cisão interna no Podemos) e que o Vox (a extrema-direita que o Podemos queria combater). Com a saída da liderança do Podemos prometida desde o início de abril, chegou também ao fim a curta era de Iglesias na política espanhola, anunciada ao fim da noite deste domingo depois de uma votação trágica.

A estreia surpreendente

É preciso recuar até janeiro de 2014 para encontrar as raízes do Podemos. O primeiro passo foi um manifesto publicado no jornal espanhol Público, assinado por cerca de trinta intelectuais, professores universitários, líderes sindicais e ativistas de esquerda que queriam aproveitar as eleições europeias que se aproximavam para levar a cabo uma recuperação da “soberania popular”. Entre a lista de subscritores do manifesto inicial não se encontrava Pablo Iglesias, mas no mesmo dia foi anunciado que daquele documento surgiria uma candidatura intitulada Podemos que teria como cabeça-de-lista o professor de Ciências Políticas na Universidade Complutense de Madrid e analista político, que entre os 14 e os 21 anos havia sido membro da Juventude Comunista. Por ser presença frequente em debates políticos televisivos, Iglesias já era uma cara conhecida do grande público, o que ajudou naquele salto para a política ativa.

Podemos, a surpresa política em Espanha

O mediatismo de Iglesias levou o Podemos a um primeiro resultado eleitoral surpreendente. Em maio de 2014, o partido recém-fundado obteve 1,2 milhões de votos (7,98%), tendo sido a quarta força política mais votada do país, conseguindo eleger cinco eurodeputados e contribuindo para dissolver a lógica do bipartidarismo na política espanhola. O resultado de Pablo Iglesias deu gás ao Podemos, que nos meses seguintes se converteu num fenómeno de massas. Em agosto de 2014, o Observador incluía Iglesias na lista dos jovens políticos que estavam a revolucionar a política europeia. O novo partido disparou nas sondagens e na popularidade digital, o que conduziu à pergunta óbvia: seria possível para o Podemos voltar a surpreender nas eleições seguintes, as legislativas de 2015?

O que pode fazer ‘Podemos’?

Com efeito, em dezembro de 2015, o Podemos afirmou-se decisivamente como um partido fundamental no sistema partidário espanhol. Com 20,68% dos votos, elegeu 69 deputados para o Congresso e ficou apenas ligeiramente atrás do PSOE (que teve 22% dos votos) e do PP (com 28,71%). Após décadas de alternância entre PSOE e PP na liderança do governo, o bipartidarismo espanhol dava mostras de ter sucumbido à entrada de novas forças políticas na equação, como o Podemos e o Ciudadaños — e o parlamento fragmentado que resultou das eleições de dezembro de 2015 foi incapaz de chegar a acordo para uma solução governativa.

Durante os meses das negociações falhadas para a formação de governo, o Podemos, que completava um ano de vida, começou a dar sinais de crise interna, evidenciando a existência de duas alas dentro do partido.

Durante vários meses, os partidos multiplicaram-se em negociações infrutíferas. A proposta de Iglesias ao PSOE para formar um governo de esquerdas que incluísse os socialistas, o Podemos como segunda força e um conjunto de partidos que defendiam a independência da Catalunha foi mal recebida por alguns dirigentes do PSOE, que a consideraram “um insulto”. Com o PP, embora vencedor, sem capacidade para formar uma maioria à direita, os socialistas ainda tentaram outras alternativas — incluindo um pacto com o Ciudadaños, mas não conseguiu atrair mais nenhum partido, nem à esquerda nem à direita. A última tentativa, um acordo entre PSOE, Podemos e Ciudadaños, também falhou, o que obrigou à dissolução do Congresso e à convocação de novas eleições para junho de 2016.

As crises internas

Durante os meses das negociações falhadas para a formação de governo, o Podemos, que completava um ano de vida, começou a dar sinais de crise interna, evidenciando a existência de duas alas dentro do partido. De um lado, a fação de Pablo Iglesias, uma esquerda mais tradicional e hierárquica, fruto do passado comunista de Iglesias e de alguns dos seus colaboradores mais próximos; do outro lado, a ala de Íñigo Errejón, o número dois do Podemos, apostado na criação de um partido mais aberto, plural e transversal. Em março de 2016, nove dirigentes da estrutura regional do Podemos em Madrid, próximos de Errejón, demitiram-se em desacordo com a linha política de Iglesias.

O Podemos — já no âmbito da coligação Unidas Podemos, encabeçada por Pablo Iglesias e com vários partidos de esquerda — conseguiria manter o resultado eleitoral no sufrágio de junho de 2016, assegurando 21,15% dos votos e elegendo 71 deputados. Dessa vez, porém, o PP de Mariano Rajoy acabaria por conseguir formar governo, assegurando, após várias negociações, o apoio do Ciudadaños e a abstenção do PSOE na investidura. Pelo meio, o Podemos afundou-se ainda mais na crise interna. A campanha eleitoral de junho de 2016, coordenada por Errejón, deixou ainda mais evidentes as diferenças entre Iglesias, que pretendia um partido combativo e disposto a “cavar trincheiras na sociedade civil”, e o número dois do Podemos, que queria um partido “que não dê medo” a quem ainda não tinha optado por votar nele. Para Pablo Iglesias, entrar no governo como vice-primeiro-ministro seria sempre condição fundamental para apoiar um governo socialista; para Íñigo Errejón, o apoio parlamentar seria preferível. Por isso, a estratégia do Podemos de bloquear a governação socialista depois das primeiras eleições era um dos pontos quentes da discussão interna quando, em fevereiro de 2017, o partido organizou o segundo congresso, em que deveria ser eleito o novo líder. Pablo Iglesias acabaria por vencer a eleição interna e ser reconduzido no cargo, distanciando-se de Íñigo Errejón na votação final e superando aquela primeira crise interna.

Íñigo Errejón era o número dois de Pablo Iglesias na liderança do Podemos

Entretanto, contudo, o contexto político espanhol voltaria a complexificar-se. As suspeitas de corrupção em torno do governo de Mariano Rajoy, muito fragilizado pela questão da independência da Catalunha, levaram o Podemos a avançar com uma moção de censura contra o governo de direita. Essa primeira moção foi chumbada pelo parlamento, mas acabou por abrir caminho a que, no ano seguinte, o PSOE apresentasse uma nova moção contra Rajoy, já na sequência da condenação do PP no caso Gürtel. Dessa vez, em junho de 2018, Rajoy perdeu mesmo a condenação parlamentar e foi substituído, com efeito imediato, por Pedro Sánchez na liderança do governo espanhol.

No entanto, governando com uma minoria parlamentar, Sánchez não conseguiu ver o seu orçamento aprovado para 2019 e, em fevereiro desse ano, propôs a dissolução do parlamento e a convocação de eleições antecipadas para abril de 2019. O PSOE ganhou as eleições, é certo, mas também sem maioria absoluta, o que precipitou Espanha para novas negociações com vista à formação de um governo. O parceiro óbvio para as negociações, novamente, foi o Podemos de Pablo Iglesias — mas a recusa de Sánchez em admitir a entrada de membros do Podemos no executivo levou a um novo falhanço negocial e a uma nova convocatória de eleições, para novembro desse mesmo ano de 2019.

Porque é que o impasse na esquerda espanhola nunca mais acaba?

O regresso às urnas não resultou como Sánchez pretendia. O PSOE baixou o número de deputados de 123 para 120 e o Podemos de 42 para 35, o que complicou ainda mais as negociações. Sem margem para outra solução, o líder socialista acabou por ter de fazer aquilo que no verão não admitira — negociar com o Podemos, mas também com os nacionalistas bascos, os independentistas catalães e vários outros pequenos partidos, multiplicando-se em cedências. A mais difícil, mas inevitável, foi a Iglesias: aceitá-lo como vice-presidente do governo e dar outros ministérios ao Podemos. Só assim se ultrapassou um bloqueio político tão longo que até ganhara nome próprio: el bloqueo.

Da vice-presidência ao preço de portagens: o que Sánchez teve de ceder para formar governo

Seis anos depois da fundar o Podemos, o disruptivo Pablo Iglesias, que rompera com os cânones do bipartidarismo espanhol ao impô-lo como partido indispensável para qualquer acordo relevante, chegava ao governo.

O célebre abraço que firmou o acordo entre Iglesias e Sánchez em 2019

Getty Images

Todavia, não ficaria durante muito tempo.

Uma nova crise do Podemos começou a desenhar-se em janeiro de 2019, um ano antes de Pablo Iglesias tomar posse como vice-presidente do governo espanhol, quando o ex-número dois do partido, Íñigo Errejón, também ex-porta-voz, voltou a surgir em destaque na guerra interna. Nessa altura, Errejón, que se mantinha como líder da fação menos radical do Podemos, anunciou que seria candidato nas eleições regionais de Madrid pela lista do Más Madrid, o movimento criado no ano anterior pela presidente da câmara da capital espanhola, Manuela Carmena, para apresentar a sua recandidatura.

A notícia abateu-se com estrondo no Podemos, que só terá sabido da decisão de Íñigo Errejón no próprio dia do anúncio. Aliás, o próprio Pablo Iglesias, que nessa altura se encontrava de licença de paternidade depois do nascimento dos seus filhos gémeos (com a deputada do Podemos Irene Montero), viu-se obrigado a interromper o período de ausência para vir a público esclarecer que o Podemos apresentaria uma candidatura própria, no contexto da coligação Unidas Podemos. “Desejo sorte ao Iñigo na construção do seu novo partido com Manuela, mas o Podemos já tem o seu roteiro, definido pelos militantes e decidido nas nossas assembleias cidadãs”, disse na altura Iglesias. A eleição regional viria a ser ganha pelo PSOE, com Errejón relegado para o quarto lugar e o Unidas Podemos para o sexto. Porém, a articulação de deputados regionais do PP e do Ciudadaños levou a que Isabel Días Ayuso, do PP, ascendesse à presidência da comunidade autónoma de Madrid.

A jogada de risco que correu mal

A cisão interna do Podemos, que levou para o Más Madrid vários elementos do partido de Iglesias, prolongou-se para as eleições regionais deste ano, marcadas antecipadamente na sequência das críticas à atuação de Isabel Días Ayuso durante a pandemia da Covid-19, que faziam antever a possibilidade de moções de censura no parlamento regional.

Como escreveu o Observador no mês passado, as crises internas dos últimos anos só contribuíram para consolidar aquilo que o boletim de voto de maio de 2014 já dizia sobre o Podemos: que o partido gira à volta de Pablo Iglesias. A saída de figuras como Íñigo Errejón, Juan Carlos Monedero ou Carolina Bescansa, que estiveram presentes na fundação do partido, deixaram o Podemos encaminhar-se no sentido de um partido unipessoal.

É possível imaginar o Podemos sem Pablo Iglesias? Líder prepara uma saída sem data ou rumo definido

Ao fim de um ano no governo, a relação entre Pedro Sánchez e Pablo Iglesias também se tornara cada vez mais tensa — designadamente em alguns dos tópicos mais quentes do último ano, como o independentismo catalão ou, mais recentemente, os problemas em torno do rei emérito Juan Carlos ou da detenção do rapper Pablo Hásel. Desgastado num governo de maioria socialista e com sondagens a colocar o Unidas Podemos abaixo dos 5% (limiar mínimo para eleger deputados regionais) nas eleições de Madrid, Pablo Iglesias lançou-se nesta tal jogada política de alto risco: deixar o governo para se candidatar às eleições regionais de Madrid. Depois, anunciou também que não se recandidataria à liderança do Podemos no próprio congresso, abrindo a porta a uma renovação difícil de imaginar.

"Ser útil para o Unidas Podemos é a minha maior aspiração, e acho que é evidente que hoje não contribuo para somar, não sou uma figura que contribua para somar para que possamos vencer na Comunidade de Madrid e na Câmara Municipal, e quando a situação é esta, quando te transformaram em bode expiatório, quando o teu papel mobiliza o pior dos que odeiam a democracia, tu tomas decisões. Deixo todos os meus cargos, saio da política, política institucional."
Pablo Iglesias, depois das eleições regionais de 2021

Foi, de facto, o tudo ou nada: um mau resultado poderia significar o fim político do homem que até há dois meses era o número dois do governo de Espanha. E foi o que aconteceu.

Isabel Díaz Ayuso venceu confortavelmente ficando a 4 deputados da maioria absoluta (embora precise de uma abstenção do Vox para ser investida no parlamento regional, e até admita incluir o partido de extrema-direita no governo da região), mas Pablo Iglesias não foi além de um quinto lugar, com apenas 7,21% dos votos e 10 deputados em 136. Teve menos de metade dos votos do Más Madrid, uma candidatura encabeçada pela ex-Podemos Mónica García, e menos quase 100 mil votos do que o Vox — quando um dos objetivos centrais de Iglesias era impedir que “a extrema-direita se apodere das instituições”.

Ao fim de apenas sete anos, o rosto (literalmente) do Podemos cumpriu a promessa e abandonou a política ativa definitivamente. Já com uma candidata à sucessão — a ministra do Trabalho, Yolanda Díaz —, resta saber o que será do partido agora que perdeu aquela que era a sua figura central desde a fundação. Iglesias, por seu turno, parece já ter planos para a próxima fase. De acordo com o jornal ABC, desde há várias semanas que o agora ex-vice-presidente do governo espanhol tem vindo a negociar um “plano B” para o seu futuro profissional: um projeto televisivo, que está a ser preparado com a ajuda do empresário dos media Jaume Roures — que em 2007 fundou o jornal Público, onde a ideia do Podemos teve o seu início. Para já, não são conhecidos os detalhes concretos, mas parece certo que Iglesias vai voltar aos meios de comunicação, o lugar que lhe deu a notoriedade que foi chave na rápida ascensão do Podemos.

Pablo Iglesias abandona a política face à “tragédia” dos resultados. “Deixo todos os meus cargos, deixo a política”

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