David Berman: o mais iluminado dos miseráveis tem um disco novo /premium

17 Julho 2019

Poeta, recluso e ex-junkie: David Berman foi o líder dos Silver Jews, a melhor banda que ninguém conhece. Esteve desaparecido e agora regressa com os Purple Mountains e o disco mais negro que já fez.

O sonho das coisas escalavradas é serem reparadas – e é isso que nos traz aqui dez anos depois de David Berman, o maior ilusionista de palavras da canção americana, ter decidido sair de cena e acabar com os Silver Jews: o mundo parece não ter conserto (eu próprio sinto-me um pouco indisposto) mas, em compensação, Berman tem uma nova banda, os Purple Mountains, e um novo disco homónimo – e basta isto para de repente uns quantos de nós entrarem no autocarro para o trabalho com aquele sorriso de esperança de quem apanha um táxi numa sexta-feira à noite.

É que alguns de nós devem-lhe muito, talvez mais que a qualquer outro músicos dos últimos 30 anos. Um exemplo prático: adorava dizer que a oração de abertura do parágrafo acima é minha mas não, é uma linha de “We Are Real”, o sétimo tema de American Water, terceiro disco dos Silver Jews. American Water é quase consensualmente considerado o melhor disco dos Jews em parte porque a ligação entre a voz de Berman e a guitarra de Stephen Malkmus é quase perfeita – tão perfeita que, ao ouvir a versão final do disco, Malkmus começou a pensar acabar com os Pavement.

Mas talvez o contexto seja a razão pela qual American Water seja (erradamente, a meu ver) mais apreciado que o resto da obra dos Jews: editado em 1998, o disco saiu um ano antes de Terror Twilight, o último e asfixiante disco dos Pavement, numa altura em que a banda de Malkmus tinha começado a tornar-se um gigante do indie-rock. Os fãs de guitarras ansiavam por aquele jeito trôpego que Malkmus tinha de percorrer as seis cordas e, vindo do nada, ali estava o que parecia ser um projeto paralelo do semi-deus do indie-rock, para mais com admiráveis letras existencialistas e uma voz seca, de gravilha, com um adorável trejeito a country.

A capa do álbum homónimo de Purple Mountains

Por esse dias pré-explosão da World Wide Web, a informação tendia a ser pouco fidedigna – e só mais tarde se tornou claro que os Silver Jews não eram um projeto paralelo de Stephen Malkmus mas sim a banda de David Berman, poeta americano, que fora colega de Malkmus (e de Bob Nastanovich, também dos Pavement) na universidade.

Agora imaginem o que fariam se os vossos colegas de banda tivessem outro grupo e este de repente explodisse – a maior parte de nós estaria a chateá-los para convidarem a “nossa” banda para fazer as primeiras partes deles. Mas David Berman não funciona assim: Starlite Walker, o primeiro disco dos Joos (como os fãs lhes chamam), saiu em outubro de 1994, pouco tempo depois da morte de Kurt Cobain, quando estávamos todos órfãos de guitarras; dois anos antes os Pavement haviam editado o seu disco de estreia (Slanted and Enchanted); em fevereiro de 1994 lançaram Crooked Rain Crooked Rain – e de repente os Pavement estavam em todo o lado. A reação de Berman ao sucesso dos seus colegas de banda e (acima de tudo) ao facto de ver a sua banda ser errada e constantemente referida na imprensa como “projeto paralelo de um par de tipos dos Pavement” foi, simplesmente, despedir Malkmus e Nastanovich.

Neste simples gesto encerram-se algumas características de Berman: uma desconfiança do sucesso, da indústria musical, da “fakeness”; uma tendência gritante para a reclusão; e uma necessidade de pureza, de fazer as coisas certas pelas razões certas. Há em Berman uma recusa visceral do dinheiro pelo dinheiro – há dez anos, quando os Joos finalmente pareciam a caminho do sucesso, Berman acabou abruptamente a banda.

Num gesto dramático, Berman publicou um texto duríssimo em que, além de anunciar o final dos Silver Jews, confessava que o seu pai, Richard Berman, era um advogado de Washington, republicano, que trabalhava para os lobbies anti-ambientalistas e da indústria do armamento. Para Berman não fazia sentido continuar com uma banda se essa banda era impotente para travar o mal que o seu pai trazia ao mundo.

Mesmo para os fãs mais acérrimos, o fim dos Jews foi surpreendente: em parte porque não há uma ligação direta entre a música que Berman faz e a atividade do seu pai – a impressão que ficou é que Berman tinha repulsa ao sucesso.

A entrega é extremamente parecida com a de "That’s Just the Way I Feel", que abre o disco dos Purple Mountains – mas com uma diferença: Purple Mountains é, em termos sónicos, um disco mais luzidio do que qualquer outra coisa que Berman fez; mas em termos líricos é muito mais direto e negro.

E por uma vez ele estava quase a ter sucesso: em 2005, e após 16 anos sem dar concertos, os Jews saíram em digressão para promover Tanglewood Numbers, o quinto disco. Uns meses antes Berman dera uma das suas escassíssimas entrevistas, na qual confessava que em 2003 tentara suicidar-se no mesmo quarto de hotel de Nashville em que Al Gore se hospedara quando perdeu as eleições para George Bush Jr: “Quero morrer onde a democracia morreu”, terá sido o que disse ao moço que operava o elevador do hotel. O acidente culminava cinco anos de crescente abuso de substâncias – Berman acordou no hospital e francamente só não morreu por milagre.

As atitudes de Berman podem soar pouco convencionais aos seres humanos comuns com empregos das nove às cinco: pode parecer exagerado que ele tenha despachado Malkmus e Nastanovich – mas é natural que ele quisesse reivindicar autonomia porque os Joos não eram semelhantes aos Pavement e basta ouvir “Trains Across the Sea”, a segunda canção de Starlite Walker, para perceber isso: por cima de uma progressão de guitarra típica do indie rock há um bordão de piano que se repete, até que uma guitarra slide invade o glorioso refrão, conferindo-lhe um travo simultaneamente onírico e country.

Neste simples motivo melódico encontramos o génio de Berman — a união entre o indie-rock, a country e uma espécie de existencialismo fraturado, magoado e clownesco. Berman canta:

“It’s been evening all day long
(…) 
Sin and gravity
drag me down to sleep
to dream of trains across the sea”

Aqui estava toda uma nova lírica americana centrada na necessidade de fuga da realidade.

Ao segundo disco, The Natural Bridge, o primeiro sem Nastanovich e Malkmus, as coisas ficariam mais negras: os primeiros versos de “How to Rent a Room”, a canção de abertura de Natural Bridge, diziam:

“No I don’t really wanna die
I just wanna die in your eyes” 

A entrega é extremamente parecida com a de “That’s Just the Way I Feel”, que abre o disco dos Purple Mountains – mas com uma diferença: Purple Mountains é, em termos sónicos, um disco mais luzidio do que qualquer outra coisa que Berman fez; mas em termos líricos é muito mais direto e negro.

[“That’s Just the Way I Feel”, dos Purple Mountains:]

As coisas já eram negras antes – e talvez nunca o tenham sido tanto como em Bright Flight, o quarto disco dos Jews e (esse sim) a obra-prima da banda e o meu disco preferido do século XXI (batendo marginalmente Ten, dos cLOUDDEAD). Bright Flight é um disco de country indie onírica mas é, acima de tudo, uma reflexão sobre a fragilidade humana: a solidão, as dependências, o amor, está tudo ali.

Uma das particularidades dos encontros marcantes é sermos capazes de memorizar detalhes insignificantes – lembro-me da primeira vez que ouvi os Silver Jews (foi com American Water) mas lembro-me de cada segundo do meu embate com Bright Flight, de comprar o disco a um sábado de manhã, sem o ouvir, sentar-me no café Ceuta, no Porto, botar o disco no discman e de, subitamente, sentir a necessidade urgente de ir para casa e durante horas aninhar-me naquele som.

Essa necessidade surgiu com a sequência “I Remember Me” / “Horseleg Swastikas”, a quarta e quinta canções; a primeira é uma canção countryesca, em que um homem se apaixona por uma mulher e, no momento em que a pede em casamento, é atropelado por um camião. Ele fica em coma; os amigos da proto-noiva aconselham-na a seguir com a vida; anos depois ele acorda do coma e, com o dinheiro da indemnização, compra um terreno e o camião que o atropelou.

O que nos traz de volta aos Purple Mountains: era suposto estar tudo bem mas logo aos primeiros singles percebemos que não está tudo bem, antes pelo contrário. Em "All My Happiness Is Gone", que abre com uma gloriosa cortina de violinos, Berman canta "Lately I tend to make strangers wherever I go / some of them where once / people I was happy to know".

Até hoje não sou capaz de ouvir “I Remember Me” sem me comover e durante muitos anos não entendi muito bem porquê. OK, é um espanto de composição, em particular na forma como o som da guitarra muda de acordo com as diferentes partes da história; é simultaneamente cómica e trágica e entrega-nos essa tragédia sem a esfregar na nossa cara: quando o homem toca no camião o que ele diz é:

“I remember her
And I remember him
I remember them
I remember then
I’m just remembering”

Demorei muito tempo a perceber: só quando ele toca no camião e entra em contacto com o que o ia matando e com o que o fez perder a mulher que amava é que está completo – só aí recorda. “And I remember him”, canta Berman, como se aquela pessoa que foi atropelada fosse outra pessoa. O que Berman nos está a dizer aqui é que a dor muda-nos – mas enquanto não olharmos para o que nos magoa, enquanto fugirmos do que nos mata, não estaremos completos. Só que dito assim não tem graça.

O que nos traz de volta aos Purple Mountains: era suposto estar tudo bem mas logo aos primeiros singles percebemos que não está tudo bem, antes pelo contrário. Em “All My Happiness Is Gone”, que abre com uma gloriosa cortina de violinos, Berman canta:

“Lately I tend to make strangers wherever I go
some of them where once
people I was happy to know”

E caraças, pouca gente é capaz de criar um par de versos tão admiráveis sobre a solidão e a capacidade de alienar os outros; mas logo a seguir acontece qualquer coisa de inesperado: uns segundos à frente, mesmo antes de o refrão chegar, ao fim de 1m26s, Berman canta “I confess I’m barely hanging on”.

[“All My Happiness is Gone”:]

A folk e em particular a country estão cheias desta confessionalidade exacerbada – mas Berman não costumava brincar neste parque; enquanto os outros meninos nos iam dando conta das suas dores, Berman optava por ser oblíquo – como em I Remember Me, ele tendia a disfarçar a dor (ou o que houvesse de pessoal na dor traduzida numa canção) com uma narrativa cujos pontinhos o ouvinte tinha de unir até, finalmente, extrair o sentido (como aqueles tipos que desenham os contornos de um cadáver a giz).

À terceira canção, “Darkness and Cold”, ouvimos:

“Light of my life is going out tonight
as the sun sinks in the west

Light of my life is going out tonight
with someone she just met”

O velho Berman está ali, na brincadeira semiótica da luz que sai à noite – mas o novo Berman, o Berman confessional e direto, surge escarrapachado no resto da canção, uma espécie de proto-country com um coro magistral e órgãos e um riff de guitarra e um arranjo de harmónica lindíssimos.

Sabem lá atrás quando escrevi que Berman, aquando da sua tentativa de suicídio, só não morreu por milagre? Não foi por milagre: foi porque Cassie Berman (Marrett, antes de se casar) o salvou. Cassie e Berman estão juntos há vinte anos – foi ela que lidou com as dependências do marido, que o foi buscar ao hotel nesse dia, que o convenceu a dar entrevistas, que o convenceu a ir em digressão.

Há cerca de dois anos, mais ou menos na mesma altura em que a mãe de Berman morreu, o casal separou-se – e essa separação, bem como a morte da mãe de Berman, marcam Purple Mountains de forma explícita: a sétima canção chama-se “I Loved Being My Mother’s Son” e é uma doçura, que inclui o que parecem ser cordas sintetizadas.

Todo o disco é assim, aliás – o que torna Purple Mountains o disco sonicamente mais doce da carreira de Berman (e também o mais produzido, com uma profusão de coros), por contra-ponto ao negrume direto das letras. Em “Margaritas at the Mall”, por entre uma slide-guitar espacial, coros e trompetes, Berman canta “I wake up blushing like I’m ashamed to be alive” e é difícil de ouvir.

[“Margaritas at the Mall”:]

À conta de Purple Mountains aproveitei para reouvir os Silver Jews de modo a situar este disco na obra de Berman, mas também procurando entender porque é que ele nunca encontrou o sucesso. Berman tem uma rara capacidade de dar sentido ao absurdo do comportamento humano, de revelar, com particular perspicácia, o negrume que subjaz aos nossos atos; talvez, num mundo em que toda a gente se tornou a máquina de publicidade de si mesmo, pessoas como ele, alheias à exposição gratuita, estejam condenadas a vender pouco; talvez, entre as drogas e a sua aversão a aceitar as regras do mercado, ele tenha acabado por praticar uma espécie de auto-sabotagem.

A dada altura deparei com dois pares de versos aos quais não tinha prestado a devida atenção, apesar de já os ter ouvido milhares de vezes. São de “We Are Real”, a canção que cito logo na abertura do texto. Berman canta:

“We’ve been raised on replicas of fake and winding roads
and day after day up on this beautiful stage
we’ve been playing tambourine for minimum wage
but we are real, I know we are real”

Há uns anos estava aborrecido em casa e levantei-me, fui até ao aeroporto, apanhei um avião e dei um pulinho aos Estados Unidos da América para dizer a um senhor chamado David Berman que ele era o músico vivo mais importante deste planeta. Passaram-se catorze anos e acredito piamente que desta vez o mundo retribuirá ao senhor David Berman por toda a grande música que ele nos ofereceu.

Por toda a obra encontramos aquela ideia de estarmos rodeados de replicas, de fake roads: o mundo, para Berman, parece muitas vezes uma encenação em que cada um desempenha um papel de modo a alcançar um determinado objetivo – e ele não queria ter nada a ver com isso.

Talvez escrever um disco explicitamente auto-biográfico seja a forma que Berman encontrou de dar cabo das replicas, do fake que há no mundo, na sua própria vida. Talvez – e digo isto depois de ler algumas entrevistas que ele recentemente deu – ele tenha começado a olhar para os seus próprios jogos de linguagem de antigamente como formas de disfarçar uma coisa muito simples: como todas as outras pessoas ao cimo da Terra o senhor David Berman sente-se só e tem dores.

Há uns anos estava aborrecido em casa e levantei-me, fui até ao aeroporto, apanhei um avião e dei um pulinho aos Estados Unidos da América para dizer a um senhor chamado David Berman que ele era o músico vivo mais importante deste planeta. Passaram-se catorze anos e acredito piamente que desta vez o mundo retribuirá ao senhor David Berman por toda a grande música que ele nos ofereceu.

Agora é convosco.

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