Lua. Guia de viagem para o novo destino da moda: os custos, os riscos e a História /premium

22 Setembro 2018

Turismo para milionários ou exploração para um dia podermos viver na Lua? Quanto custa uma viagem e quais são os riscos? Quem nos pode de facto levar lá e porquê?

Antes de responder à pergunta sobre para que precisamos de ir à Lua, Elon Musk responde a outra: para quê sair da Terra de todo? Desde que criou a SpaceX, uma das companhias espaciais privadas na vanguarda da exploração espacial, que o empresário insiste em explicá-lo. Segundo ele, na verdade, não temos outro remédio: “Pode haver alguns eventos naturais ou provocados pelo Homem que acabem com a civilização como a conhecemos. É importante que levemos a vida para lá da Terra. Devemos agir o mais depressa possível. O futuro é largamente mais entusiasmante e interessante se formos uma civilização exploradora do espaço e uma espécie multi-planetária do que se não formos. Queremos ser inspirados pelas coisas, queremos acordar pela manhã e pensar que o futuro vai ser incrível. E sermos uma civilização exploradora do espaço é isso mesmo. É sobre acreditar no futuro, pensar que ele vai ser melhor que o passado. E eu não consigo pensar em nada mais entusiasmante do que ir lá para cima e estar entre as estrelas”.

Elon Musk na conferência de imprensa de terça-feira. Créditos: Mario Tama/Getty Images

Desde 20 de julho de 1969, quando a missão Apollo 11 chegou a bom porto e alunou, fomos mais cinco vezes à Lua. A última foi a 7 de dezembro de 1972 com a missão Apollo 17 a bordo do foguetão Saturn V — o mais poderoso da História, pelo menos até ao momento. Desde esse dia, os engenheiros desenvolveram os satélites mais sofisticados de sempre, os maiores telescópios da exploração espacial e levaram os rovers mais avançados tecnologicamente para dentro de outros planetas. Mas a verdade é que já faz este ano 46 anos que não pisamos solo extraterrestre.

Esta semana a Humanidade ficou um passo mais perto de chegar à Lua uma vez mais: Yusaku Maezawa, multimilionário japonês, "pagou muito dinheiro" por todos os bilhetes disponíveis a bordo do Big Falcon Rocket da SpaceX para ser o primeiro turista espacial a circum-navegar a Lua e o primeiro astronauta espacial da História. 

Esta semana, no entanto, a Humanidade ficou um passo mais perto de chegar à Lua uma vez mais: Yusaku Maezawa, um multimilionário japonês, “pagou muito dinheiro” por todos os bilhetes disponíveis para viajar a bordo do Big Falcon Rocket da SpaceX e ser o primeiro turista espacial a circum-navegar a Lua e o primeiro astronauta privado da História. E, aos saltinhos de verdadeira emoção, disse estar entusiasmado com a viagem: “Finalmente posso dizer-vos que eu escolhi ir à Lua. Este é o meu sonho de vida”.

Elon Musk acha que consegue levá-lo até lá — mas sem aterrar no satélite natural, ainda assim — no máximo daqui a cinco anos. Outras empresas acham o mesmo, embora as agências governamentais acreditem que uma nova viagem à Lua pode demorar mais do que meia década a planear. De qualquer modo, para todos eles, a questão já não é se vamos à Lua ou mesmo a Marte. A questão é apenas quando. E quem o fará.

Enquanto as agências espaciais norte-americanas, europeias e russas, as maiores do mundo, são cautelosas em planear a chegada da espécie humana a outros planetas (pelo menos se for para lá ficar), as companhias privadas dizem que as pessoas vão ter uma nova casa fora da Terra já nos próximos trinta anos. O caminho para lá chegar é perigoso. Elon Musk já anunciou os seus planos: “Eu quero morrer em Marte. Só não quero morrer na aterragem”.

Porque é que nunca mais fomos à Lua?

A razão que nos colocou cinco décadas sem pisar solo extraterrestre foi a falta de dinheiro: “Neil Armstrong e colegas demonstraram que os humanos fornecem interpretações instantâneas do ambiente, guiadas pelas cores, tridimensões, visão humana de alta resolução que hoje só pode ser feita com sistemas robóticos. Mesmo esmagados pelos fatos espaciais, podiam reconhecer instantaneamente e recolher amostras de valor inestimável como a Pedra do Génenis da missão Apollo 15, que se se provou essencial para entender a história geológica da Lua. Quando o rover da missão Apollo 17 perdeu um pára-choques — algo que podia comprometer a missão robótica — os astronautas Cernan e Schmitt encontraram uma reparação e continuaram a conduzir. Todos os astronautas da missão Apollo montaram estações complexas com instrumentos geofísicos, muitas das quais funcionaram durante anos até que cortes nos orçamentos obrigaram a desligá-las”, recorda Paul D. Lowman Jr., geofísico no Departamento de Geodinâmica do Laboratório de Física Terrestre do Goddard Space Flight Center, num texto publicado em 2009 mo site da NASA.

Pedra do Génesis, um amostra lunar recolhida pela missão Apollo 15. Créditos: NASA

Mas não havia nas agências governamentais mais importantes da altura — a NASA nos Estados Unidos e a Roscosmos da União Soviética — nenhum sentimento de derrota quando a Lua foi, do ponto de vista científico, deixada para trás, garante o cientista. As missões Apollo da NASA tinham trazido para a Terra material suficiente para que uma parte fosse explorada no imediato, outra fosse distribuída por outros centros de investigação espalhados pelo mundo e algum fosse guardado à espera que a tecnologia avançasse e permitisse tirar conclusões mais profundas das que eram possíveis nos anos 70.

As missões Apollo da NASA tinham trazido para a Terra material suficiente para que uma parte fosse explorada no imediato, outra fosse distribuída por outros centros de investigação espalhados pelo mundo e algum fosse guardado à espera que a tecnologia avançasse.

Além disso, a União Soviética também fez o trabalho de casa: missões superficiais robóticas como a Luna 9 também resultaram em investigações “brilhantes”, adjetiva Paul D. Lowman Jr.: “A União Soviética realizou várias missões superficiais robóticas brilhantes, começando com a primeira aterragem suave, a Luna 9. A União Soviética operou dois robôs na Lua durante meses e realizou três missões robóticas de retorno de amostras, ambas conquistas nunca igualadas pelos Estados Unidos ou qualquer outro país. No entanto, ninguém argumentaria seriamente que essas missões produziam algo próximo dos resultados, por exemplo, da missão Apollo 15. Os astronautas da Apollo 15, Scott e Irwin, devolveram dezenas de quilos de rocha e solo, fizeram furos e aplicaram sondas para medições de fluxo de calor e tiraram centenas de fotos de alta resolução”.

Para quê sair da Terra em direção à Lua?

Mas ao fim de quase 50 anos, as coisas mudam: sair da Terra e voltar à Lua, seja para colonizá-la ou não, é para muitos necessário. E urgente. Emmet Fletcher, especialista em ciências aeronáuticas e engenharia do espaço e porta-voz da Agência Espacial Europeia, considera que precisamos de sair da Terra tendo em conta o futuro que se avizinha: “A verdade é que não sabemos como é que as coisas vão correr no Sistema Solar. Mesmo em relação ao Sol, não sabemos tudo sobre como é que ele se comporta. Neste momento, tem estado num período bastante calmo, estável e compreensão para nós, mas há a possibilidade de isso mudar. E nesse caso nós temos de saber como replicar a Terra noutro lado qualquer”.

E o geofísico da NASA concorda: “As últimas décadas de exploração espacial e astronomia mostraram que o universo é violento e perigoso, pelo menos no que diz respeito à vida humana. Para dar um exemplo pertinente: em 1908, um objeto de natureza desconhecida — provavelmente um cometa — atingiu a Sibéria com uma força equivalente a uma bomba de hidrogénio. Se esse impacto tivesse ocorrido algumas horas depois, permitindo a rotação da Terra, esse objeto teria destruído São Petersburgo e provavelmente muito mais. Há cerca de 65 milhões de anos, agora está essencialmente provado que um impacto ainda maior eliminou não apenas os dinossauros, mas a maioria das espécies que viviam na Terra na época. A importância dos impactos catastróficos só foi demonstrada nas últimas décadas e a exploração espacial tem desempenhado um papel fundamental”.

David Scott na superfície da Lua em 1971. Créditos: NASA

Além da urgência em sobreviver, há outros motivos para embarcar uma vez mais numa viagem à Lua — mesmo que seja de ida e volta: os científicos. Em primeiro lugar porque as centenas de quilos de rochas recolhidas na Lua nos anos 70 não chegam para conhecer o nosso satélite natural como a palma da nossa mão. Paul D. Lowman Jr. compara as idas do Homem à Lua, em missões tripuladas ou robóticas, aos Descobrimentos: “Seis desembarques na América do Norte ter-nos-iam dado apenas um conhecimento superficial deste continente e, essencialmente, nenhum sobre os seus recursos naturais, como minerais, petróleo, energia hidráulica e solo. A Lua é um planeta inteiro, por assim dizer, cujo valor está apenas a começar a ser apreciado”.

Um dos aspetos que levou a Humanidade até lá foi a possibilidade de estudar a radiação no espaço. Já há materiais que podem fazer isso por nós, como o Telescópio Espacial Hubble, mas Paul D. Lowman Jr. diz que há pormenores que nos escapariam se não fizermos ciência com as próprias mãos

Podia argumentar-se que aquilo que nos motivou a ir à Lua à partida já não tem interesse científico. Além da vantagem que daria a quem o fizesse primeiro na Guerra Fria, a vontade de ultrapassar limites e a possibilidade de conhecer melhor a origem do nosso próprio planeta, um dos aspetos que levou a Humanidade até lá foi a possibilidade de estudar a radiação no espaço. Já há materiais que podem fazer isso por nós, como o Telescópio Espacial Hubble, mas Paul D. Lowman Jr. diz que há pormenores que nos escapariam se não fizermos ciência com as próprias mãos: “A radioastronomia de baixa frequência só pode ser eficaz do outro lado da Lua, onde a estática da aurora da Terra é protegida. Outro exemplo de astronomia baseada na Lua pode ser a busca por inteligência extraterrestre, por radiotelescópios que, do outro lado, seriam protegidos da interferência terrestre. Pequenos telescópios na superfície sólida da Lua poderiam ser ligados para formar matrizes de interferómetro com enorme poder de resolução”.

O geofísico da NASA ainda encontra outra vantagem em voltar à Lua: pode ser que encontremos minerais com valor comercial em Terra. Harrison Schmitt, astronauta da missão Apollo 17, fez uma experiência no Instituto de Tecnologia de Fusão da Universidade de Wisconsin e provou que o hélio 3, um isótopo raro na Terra, existe em grandes quantidades no solo lunar, que o recebe levado pelo vento solar: “Um uso mais prático do hélio 3, testado na Universidade de Wisconsin, é a produção de isótopos médicos de curta duração. Esses isótopos devem agora ser fabricados em ciclotrões e rapidamente entregues antes que que se deteriorem. Mas Schmitt sugere que pequenos reatores de hélio 3 poderiam produzir tais isótopos no hospital. Em qualquer caso, a pesquisa sobre o uso de hélio 3 seria claramente beneficiada se grandes quantidades pudessem ser exportadas para a Terra”, defende. O hélio 3 pode ser usado na criogenia, na imagiologia pulmonar médica e na indústria.

O pé de Neil Armstrong na superfície lunar. Créditos: NASA

Afinal, parece ainda haver muito mistérios para desvendar na Lua. Numa entrevista à Space, Richard Vondrak, vice-diretor da Divisão de Exploração do Sistema Solar do Goddard Space Flight Center, diz que regressar à Lua era vantajoso para “identificar novos lugares para ir, como as regiões polares” visto que “os astronautas da Apollo fizeram apenas breves visitas a apenas seis lugares na Lua, todos perto do equador”. Além disso, ainda não sabemos sequer qual é a origem da Lua e como é que ela evoluiu. E Paul Spudis, geólogo do Instituto do Instituto Planetário e Lunar, acrescenta: “A superfície dinâmica da Terra apaga o registo de impactos. Mas  podemos refazer a história de impactos da Terra se estudarmos a história de impactos da Lua”. Como não está geologicamente ativa, a Lua preserva uma história de todos os seus impactos das rochas espaciais. A Terra não.

Paul Spudis, geólogo do Instituto do Instituto Planetário e Lunar, acrescenta: "A superfície dinâmica da Terra apaga o registo de impactos. Mas  podemos refazer a história de impactos da Terra se estudarmos a história de impactos da Lua". 

E viver lá?

Mas e se usarmos a Lua para viver? Na apresentação que fez esta semana na SpaceX, Elon Musk dizia não entender como é que em 2018 não há colónias a viver em permanência na Lua: “Devia haver uma base na Lua. Estamos em 2018, como é que é possível não haver o raio de uma base na Lua? Estava na hora de todos podermos ir lá. O Big Falcon Rocket está preparado para ir a qualquer planeta do Sistema Solar, quer tenha atmosfera ou não”, disse ele.

Sobre a possibilidade de vivermos na Lua, Paul D. Lowman Jr responde que “os homens viveram na Lua por até três dias, reconhecidamente em quartos apertados, mas acharam a superfície lunar fácil de lidar e a gravidade da Lua confortável e útil”. Para o geológo “seria uma tarefa enorme e provavelmente impossível transformar a Lua em outra Terra”, mas “é claro que um posto avançado lunar comparável, por exemplo, à Pequena América dos anos 1930, é bastante viável”.

Edwin E. Aldrin Jr. junto ao módulo lunar Eagle em 1969. Créditos: NASA

Ao Observador, Emmet Fletcher diz que a ESA tem outros planos: voltar à Lua sim, mas para ir a Marte. “Uma das propostas como parte da exploração é, na verdade, ir à Lua primeiro. Claro que isto é tudo discutível e todas as agências espaciais têm as suas próprias opiniões, mas uma das coisas que estamos a considerar seriamente é ensaiar a nossa ida a Marte usando a Lua como uma base de testes”.

A da NASA parece ser a mesma: “Continuaria a dar-nos experiência com viagens interplanetárias curtas, que é o que as missões Apollo eram. Estes seriam comprovadamente relativamente curtos e seguros em comparação com as viagens a Marte, mas forneceriam voos de teste inestimáveis, por assim dizer. Mais importante: abrigos, veículos e outros equipamentos construídos para a Lua poderiam ser super-projetados e, com modificações, poderiam ser usadas em Marte depois de serem demonstradas num posto avançado lunar.

A ESA tem outros planos: voltar à Lua sim, mas para ir a Marte. "Uma das propostas como parte da exploração é, na verdade, ir à Lua primeiro. Claro que isto é tudo discutível e todas as agências espaciais têm as suas próprias opiniões, mas uma das coisas que estamos a considerar seriamente é ensaiar a nossa ida a Marte usando a Lua como uma base de testes".

Quem é que nos vai levar para solo extraterrestre?

Mesmo tendo dado um passo em frente esta terça-feira ao apresentar novas configurações do Big Falcon Rocket, Elon Musk não é o único na corrida espacial. De um lado da barricada estão outras companhias privadas, como a Mars One, de Bas Lansdorp, a Virgin Galactic, de Richard Brandson, ou a Blue Origin, de Jeff Bezos. Do outro lado estão as agências espaciais públicas, como a NASA nos Estados Unidos ou a ESA, de 22 países membros. Mas também há quem defenda que o sucesso da exploração espacial estará “num esforço coletivo” entre todas estas entidades.

A ESA é dessa opinião: “Tudo isto só é possível se houver um consenso político nesse sentido, principalmente quando temos os olhos postos em outros planetas. Isso faz aliás parte da genética da ESA, que é composta por 22 estados-membros. Todos os dias mostramos que vinte e dois países a trabalharem juntos podem fazer coisas fantásticas. Porque no fundo tudo se resume a Ciência. Uma viagem destas não pode ser uma corrida, tem de ser um esforço cooperativo”, disse Emmet Fletcher.

"Tudo isto só é possível se houver um consenso político nesse sentido, principalmente quando temos os olhos postos em outros planetas Todos os dias mostramos que vinte e dois países a trabalharem juntos podem fazer coisas fantásticas. Tudo se resume a Ciência. Uma viagem destas não pode ser uma corrida, tem de ser um esforço cooperativo", disse Emmet Fletcher.

As últimas comunicações públicas tanto de Elon Musk à frente da SpaceX, como de Jim Bridenstine à frente da NASA mostram essa cooperação: a companhia privada e a agência governamental parecem mais parceiras do que concorrentes em matéria de exploração do espaço. Em vésperas de anunciar o nome do multimilionário que comprou viagens para passear à volta da Lua, Elon Musk publicou um tweet onde dizia: “Já agora, não posso sublinhar o suficiente como a SpaceX não estaria onde está hoje sem a NASA. Obrigada. A prioridade de topo da SpaceX é e vai sempre ser apoiar as viagens tripuladas da NASA e as missões de segurança nacional”. O diretor da NASA partilhou a mensagem e respondeu: “A nossa parceria com a SpaceX é crucial para lançar astronautas americanos de solo americano em foguetões americanos. Estou ansioso pelo lançamento do primeiro voo comercial no próximo ano”.

Quando a SpaceX entrou no mercado da exploração espacial, a NASA tratou de fornecer conselhos científicos à companhia privada e assinou um contrato de prestação de serviços na ordem dos 1,6 mil milhões de dólares, um valor quase todo aplicado no envio de 12 foguetões com carga para a Estação Espacial Internacional. Só que cooperações como estas não deixam toda a gente confortável. Neil Armstrong e Eugene Cernan chegaram a falar sobre isso no Congresso em 2010: “Estou muito preocupado que o novo plano [espacial] nos vá proibir de ter acesso humano à baixa órbita terrestre nos nossos próprios foguetões e veículos espaciais até que a indústria privada aeroespacial consiga qualificar o equipamento dela em desenvolvimento, como dizem, para ocupação humana. Encorajo o apoio aos novatos no seu objetivo de acesso a baixo preço ao espaço, mas tendo viajado em foguetões há mais de 50 anos, não estou confiante”, disse Neil Armstrong.

Neil Armstrong (Apollo 11) e Eugene Cernan (Apollo 17). Créditos: Chip Somodevilla/Getty Images

Em 2010, Gene Cernan também não acreditava nas capacidades das companhias privadas: “Neste plano encontramos vários milhões de dólares atribuídos a desenvolver acesso humano comercial à baixa órbita terrestre baseado no pressuposto e reivindicações pelos que competem por este contrato ilusivo. Dizem que podem atingir esse objetivo em pouco mais de três anos e que o podem fazer por menos de cinco mil milhões de euros. Com base na minha experiência pessoal e naquilo que acredito, acho que pode levar uma década e um custo talvez duas a três vezes maior do que eles previram. Apesar de eu apoiar fortemente os objetivos e ideais do acesso comercial ao espaço, o pessoal que propõe uma arquitetura tão limitada não sabem o que ainda não sabem”.

"Encontramos vários milhões de dólares atribuídos a desenvolver acesso humano comercial à baixa órbita terrestre baseado no pressuposto e reivindicações pelos que competem por este contrato ilusivo (...). Apesar de eu apoiar fortemente os objetivos e ideais do acesso comercial ao espaço, o pessoal que propõe uma arquitetura tão limitada não sabem o que ainda não sabem", disse Gene Cernan.

Neil DeGrasse Tyson tem uma visão diferente, pelo menos em parte: o astrofísico e divulgador científico norte-americano disse à The Verge que a cooperação entre agências governamentais e companhias privadas, nomeadamente entre a NASA e a SpaceX, é possível e real. Mas só porque a agência espacial norte-americana pode concentrar-se em novas conquistas, enquanto a empresas privadas podem ficar com os trabalhos menores: “Elas têm grandes sonhos e eu não tenho nenhum problema com pessoas que sonham. Marte One, deixe-os sonhar. Isso não é ilusão. A ilusão é pensar que a SpaceX vai liderar a fronteira espacial. Isso não vai acontecer, e isso não vai acontecer por três boas razões: uma, é muito cara. Duas, é muito perigoso fazer isso primeiro. Três, basicamente não há retorno sobre o investimento que se colocou para ter feito isso primeiro”.

E acrescenta: “O que está a SpaceX está fazer agora? Está a levar cargas para a estação espacial, como deveria ter acontecido há décadas. Não precisamos da NASA para movimentar cargas. A NASA serve para fazer coisas que nunca foram feitas antes. Quando faz isso o suficiente e há uma rotina, passa a tarefa para uma empresa privada, o que pode realmente ser feito de forma mais eficiente e presumivelmente fazer um dinheiro com isso”.

Neil DeGrasse Tyson. Créditos: Michael Campanella/Getty Images

O trunfo da Space X: Big Falcon Rocket

Mas na conferência de imprensa que deu na terça-feira, a SpaceX disse ter tudo pensado. Em primeiro lugar, o foguetão: Big Falcon Rocket (BFR), a bordo do qual um multimilionário japonês vai chegar à Lua, está a consumir todos os investimentos da empresa — que vai deixar de lado o fabrico e manutenção dos foguetões mais antigos — para ser um veículo espacial tão completo que mais nenhum será preciso seja para entregar carga à Estação Espacial Internacional, seja para levar pessoas até Marte para colonizar o planeta. O BFR ainda está em construção e apenas algumas partes dele já foram testadas. Mas Elon Musk tenciona fazer dele algo ainda mais poderoso do que o Saturn V da NASA, usado nas missões Apollo e Skylab.

Eis a ideia de Elon Musk: primeiro, o BFR vai a Marte para confirmar a existência de fontes de água e para largar as primeiras infraestruturas necessárias à vida humana num novo planeta. Depois, o foguetão regressa à Terra mas é reutilizado em 2024 para uma missão com carga e tripulação enviada novamente para Marte. Para que tudo isto corra bem, o BFR tem de furar a atmosfera marciana a 7,5 quilómetros por segundo. O escudo térmico do veículo é projetado para suportar várias entradas, mas é possível que fique desgastada por causa das altas temperaturas. Isso significa que a SpaceX precisaria de gastar dinheiro adicional para reparar o escudo.

Na última conferência de imprensa, Elon Musk deu mais pormenores sobre o BFR: tem dois estágios com 118 metros de comprimento — o primeiro estágio tem 55 metros —, sete motores Raptor, três módulos de aterragen e uma capacidade de 150 toneladas de carga. São mais 15 toneladas que o Saturn V da NASA, que levava 135 toneladas, e quase três vezes mais do que o Falcon Heavy estreado o ano passado. É a bordo deste foguetão, totalmente reutilizável, que o 14º. multimilionário mais rico do Japão, Yusaku Maezawa, vai dar meia volta à Terra, dirigir-se à Lua, dar meia volta ao satélite e regressar a casa.

Quanto custa ir à Lua?

Desde 2008 que a Google se aliou à X Prize, uma organização sem fins lucrativos que incentiva ao desenvolvimento tecnológico, e ofereceu um prémio de 20 milhões de dólares à primeira organização não governamental a completar uma missão lunar, nos termos impostos pelas duas marcas. O prazo inicial dizia que ganhava quem fosse à Lua até 2012, mas perante a falta de capacidade das empresas privadas, o Google X Prize foi adiado uma e outra vez. Em janeiro, Google e X Prize desistiram do concurso: era evidente no início do ano que ninguém conseguiria voltar a pôs os pés na Lua a três meses, a 31 de março de 2018, recorda o MIT Technological Review.

Um dos maiores problemas em voltar à Lua mesmo depois de isso já ter sido feito é precisamente a falta de dinheiro para ser investido, sublinha Emmet Fletcher: “Quando Kennedy disse que enviaria astronautas à Lua e que os traria de volta e em segurança, a percentagem de investimento do produto interno bruto dos Estados Unidos era uma imensidão. Nada como é agora. Esse é o nosso maior problema, porque a engenharia é algo que podemos criar. A tecnologia que temos ao nosso dispor já não é motivo de preocupação. Os recursos financeiros são”.

"Quando Kennedy disse que enviaria astronautas à Lua e que os traria de volta e em segurança, a percentagem de investimento do produto interno bruto dos Estados Unidos era uma imensidão. Nada como é agora. Esse é o nosso maior problema, porque a engenharia é algo que podemos criar. A tecnologia que temos ao nosso dispor já não é motivo de preocupação. Os recursos financeiros são".
Emmet Fletcher

Em 1973, quando terminaram as missões tripuladas à Lua, o custo total do programa Apollo reportado ao Congresso era de 25,4 mil milhões de dólares, que correspondem a 144 mil milhões atualmente: só para lançar o Saturn V, até ver o foguetão mais poderoso que alguma vez existiu, era preciso desembolsar 375 milhões de dólares em 1969 — o equivalente a 2,6 mil milhões de dólares em 2018. Em 2009, a NASA voltou a olhar para a folha de cálculos e atualizou-a: o programa Apollo custou, afinal, 219 mil milhões de dólares nos valores de hoje. Se dividirmos esse valor pelas 17 missões que compuseram o programa, em média cada uma delas custou cerca de 12,9 mil milhões de dólares.

Quando Elon Musk apresentou Yusaku Maezawa como o primeiro turista espacial a viajar até à Lua não revelou quanto vai custar a viagem. Limitou-se a dizer: “Ele procurou-nos e pagou muito dinheiro por esta viagem. Não vou dizer quanto, mas foi muito dinheiro. E isto é perigoso. Não é um passeio no parque. Não é como apanhar um avião. Há hipóteses de isto correr mal. Vamos fazer tudo para que isso não aconteça, mas ele teve de ser muito corajoso para fazer isto”. Quando um jornalista japonês perguntou ao multimilionário quanto pagou por aquele negócio, Yusaku Maezawa também disse: “Não posso responder a isso hoje”. Mas Elon Musk não resistiu a fazer uma piada: “Pelo menos vai ser gratuito para os artistas. E eu acho que isso é um gesto incrível”. Porque Maezawa comprou todos os lugares e quer levar com ele artistas de todo o mundo.

Elon Musk e Yusaka Maezawa. Créditos: Getty Images

A viagem deste multimilionário japonês é inédita por dois motivos: primeiro porque, se sempre se concretizar antes de todos os planos de outras empresas, faz de Yusaku Maezawa o primeiro astronauta privado da História. E além disso será o primeiro turista espacial a viajar até à Lua. Apesar de não alunar — o que torna a viagem menos dispendiosa —, os valores serão sempre astronómicos. Como recorda ao The Washington Post, Charles Walker, um engenheiro da McDonnell Douglas e o primeiro cidadão privado a participar numa missão espacial, pagou 40 mil dólares na altura (97 mil dólares hoje em dia) em cada uma das três vezes em que foi até à baixa órbita terrestre. É considerado um turista espacial, embora tenha ido ao espaço para fazer experiências científicas.

Na mesma altura, a NASA tinha constituído um programa espacial — o Space Flight Participant — para levar cidadãos ao espaço. A professora especializada em História Americana e Estudos Sociais, Christa McAuliffe foi uma delas, após ter sido escolhida entre 11 mil professores que concorreram ao programa. Mas morreu a caminho do espaço a bordo do veículo espacial Challenger a 28 de janeiro de 1896.

Acidente com o Challenger em 1986 que vitimou a professora Christa McAuliffe

A primeira vez que uma pessoa foi ao espaço meramente em passeio foi em 2001, quando o multimilionário Dennis Tito pagou 20 milhões de dólares na altura (28,5 milhões de dólares na atualidade) para viajar a bordo de um foguetão russo da Space Adventures. Depois dele e de Charles Walker, e até 2009, houve mais seis outros turistas espaciais que pagaram entre 20 milhões e 35 milhões de dólares para viajar até ao espaço. Mas nenhum deles saiu da baixa órbita terrestre. Antes da SpaceX dizer que queria ir à Lua, a Space Adventures já tinha dito que conseguiria chegar a 100 quilómetros da Lua. A Boeing também disse que chegaria lá primeiro — algo a que Elon Musk respondeu na conferência de imprensa com: “Desafio aceite”. Mas só a Space Adventures estimou um valor para a viagem: 100 milhões de dólares por lugar, mais 50 milhões pelo treino.

A primeira vez que uma pessoa foi ao espaço em passeio foi em 2001, quando o multimilionário Dennis Tito pagou 20 milhões de dólares na altura (28,5 milhões de dólares na atualidade) para viajar a bordo de um foguetão russo da Space Adventures. Depois dele e de Charles Walker, e até 2009, houve mais seis outros turistas espaciais que pagaram entre 20 milhões e 35 milhões de dólares para viajar até ao espaço. Mas nenhum deles saiu da baixa órbita terrestre. 

O preço a pagar

Não é apenas o dinheiro o problema de fazer uma viagem desta natureza, recorda a The Verge. Petra Illig, médica especializada em saúde aeroespacial, diz que a viagem é demasiado curta para que os tripulantes percam densidade óssea ou massa muscular — algumas das principais preocupações de um astronauta que fique longas semanas ou meses no espaço. Mas há logo na descolagem um desafio à saúde: primeiro estes turistas especiais serão expostos a uma força gravítica três vezes maior do que quando estão com os pés na Terra, o que resulta num maior fluxo de sangue em direção ao cérebro e à perda de consciência por consequência; depois, pelo facto de não sentirem peso algum, podem começar a vomitar.

Petra Illig explica porque é que isto acontece: “Somos seres terrestres. Nós andamos em superfícies planas. Temos um horizonte. Os nossos órgãos de equilíbrio dependem da gravidade”. E nenhum treino em Terra pode preparar os astronautas, principalmente os novatos, para essas sensações: o máximo que um tripulante pode experimentar durante os treinos em Terra é entrar num avião chamado “o cometa vómito”, onde se passa por alguns segundos — 30 no máximo — de ausência de gravidade.

Outro problema será a radiação cósmica: se essa pode ser perigosa para quem vive na Estação Espacial Internacional, pode ser ainda mais perigosa para quem viaja em redor da Lua. Isto porque a Estação Espacial Internacional ainda fica dentro do campo magnético da Terra, que nos protege das radiações cósmicas. Quem sai dela fica mais exposto, especialmente se o Sol lançar radiação de partículas carregadas. Os investigadores dizem que a probabilidade de isso acontecer é baixa num período de tempo tão curto. Mas se um evento desses acontecesse, os passageiros poderiam estar expostos a seis meses de radiação espacial em apenas alguns dias.

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