As palpitações no coração da banca europeia, centradas no Deutsche Bank, agravaram-se nas últimas semanas. 14 mil milhões de dólares parece ser, para início de conversa, o valor da multa das autoridades norte-americanas ao banco alemão, pela venda irregular de produtos complexos antes da crise. A multa pode ser negociada, mas o valor — não muito longe do valor atual do Deutsche Bank na bolsa — agravou a incerteza em torno do banco. Que impactos podem existir para Portugal e para os clientes e trabalhadores do banco? Ao Observador, fonte oficial reitera o compromisso do Deutsche Bank com o mercado português.

Poucos acreditam num colapso do Deutsche Bank. Poderia ser catastrófico para o sistema financeiro europeu e mundial. É comum comparar o impacto à falência do banco de investimento Lehman Brothers mas as consequências seriam, provavelmente, ainda mais graves e comparáveis ao que poderia ter acontecido se o governo norte-americano tivesse deixado falir a gigante seguradora AIG, no pico da crise. “This sucker could go down“, terá dito o Presidente George W. Bush, antes de passar um cheque de 85 mil milhões para salvar a seguradora.

Ninguém acredita que a chanceler Angela Merkel deixe este “sucker go down“, isto é, permitir a ruína completa da economia e da finança europeia. De uma forma ou de outra, tendo ou não tendo cão, será castigada a popularidade da chanceler alemã. Mas, depois de ter patrocinado resgates a bancos em Espanha e Portugal, por exemplo, todos acreditam que Merkel acabará por colocar a mão por baixo do banco alemão — o maior —, caso seja necessário.

E é muito provável que seja necessário. Paulo Pinho, professor de Banca e Finanças da Universidade Nova de Lisboa, diz ao Observador que “uma falência do Deutsche Bank parece-me ser algo altamente improvável porque mesmo que as dificuldades se agravem, o Estado alemão iria sempre colocar a mão por baixo de alguma forma”. O especialista acrescenta que “é provável que [Merkel] tenha de fazê-lo, porque é difícil resolver o problema sem que haja algum tipo de apoio implícito” por parte do governo federal alemão. Os problemas são significativos e os mercados estão desconfiados.

paulo pinho

“É provável que Merkel tenha de colocar a mão por baixo”, diz Paulo Pinho.

Nesta quarta-feira, foi noticiado que as autoridades alemãs já estariam a preparar um plano de contingência para um resgate ao banco. O plano, imediatamente desmentido pelo Ministério das Finanças alemão, admitia hipóteses como um apoio à venda de ativos a outros bancos mas, também, uma nacionalização parcial em que o Estado ficaria com até 25% do capital. Esta última hipótese criaria, é claro, um grande ponto de interrogação sobre a aplicação das novas regras europeias para a recapitalização de bancos, isto é, provavelmente teria de haver perdas para os investidores e grandes depositantes do Deutsche Bank.

Mesmo a notícia do semanário Die Zeit indicava, contudo, que o plano A é criar condições para que o banco prossiga a reestruturação que tem vindo a executar. “Uma recapitalização pública não será mais do que o ‘plano C’, porque obrigaria à aplicação das regras da diretiva europeia. Mas algum tipo de conforto, de apoio implícito, será importante para que se tente ajudar o banco a recapitalizar-se e reorganizar-se”, diz Paulo Pinho.

Uma reorganização que, como explica o professor universitário, arrisca vir tarde demais. “Nos últimos anos, na sequência da crise financeira e das novas relações bancárias, todos os bancos fizeram um esforço para reduzir as áreas de risco e recapitalizar. O Deutsche fez o contrário: expandiu, não se capitalizou, demorou mais do que os outros a começar a limpar a casa. Depois, deixou-se envolver em escândalos como a manipulação da Libor e a venda irregular de produtos nos EUA”.

Além disso, “o banco viveu um período complexo em que manteve dois co-CEO que tiveram uma coabitação complicada. Hoje, tem uma gestão mais sólida mas pouco credível e o banco tem diante de si eventuais perdas na banca de investimento cuja dimensão não se conhece. Essa incerteza tem sido muito penalizadora para o banco. Por outro lado, existe uma incerteza sobre como o governo alemão, que sempre quis mostrar uma atitude justiceira implacável com os bancos dos outros países, que atitude vai ter com este problema”.

Para os clientes e depositantes, importa lembrar que de acordo com as novas regras europeias, em caso de resolução os depósitos acima de 100 mil euros (por titular) não estão seguros e podem ser convertidos em capital (podendo haver perdas) em caso de necessidade. Conforme as necessidades da recapitalização, o banco teria de encontrar internamente passivos para converter em capital, antes da entrada de dinheiro público. Em maior risco do que os depositantes estão os detentores de dívida do banco, que são penalizados antes dos depositantes (com mais de 100 mil euros).

Em depósitos até 100 mil euros, estes estão totalmente protegidos em caso de resolução (nunca podem contar para os valores gerados internamente para cobrir o capital). Mesmo em caso de liquidação, o Deutsche Bank está naturalmente vinculado ao Fundo de Garantia de Depósitos, que neste caso é o sistema alemão de proteção de depositantes.

Colapso? Reestruturação profunda? Que efeitos pode haver para Portugal?

Terra de ninguém“. Era, provavelmente, em “terra de ninguém” que a economia europeia cairia com um colapso de um banco sistémico como o Deutsche Bank. A expressão, de um analista de bancos em Lisboa, indica que seria “muito difícil prever as consequências de uma falência do Deutsche Bank — seria extremamente mau e poderia, de novo, colocar no mundo questões relacionadas com a perda de liquidez nos mercados financeiros”.

Mas, por muitas dificuldades que viva o Deutsche Bank — por sinal, bem mais graves ainda do que todo o setor —, o cenário mais provável apontado pelos especialistas ouvidos pelo Observador passa por uma reestruturação profunda das operações do banco alemão em todo o mundo, que já está em curso mas pode ser acelerada. Que impactos para Portugal?

Diretamente, não vejo qualquer consequência relevante“, diz Paulo Pinho. “O banco tem pouca exposição a Portugal e Portugal tem pouca exposição ao banco. Ainda assim, alguns bancos portugueses podem sentir alguns impactos desta situação do Deutsche porque são contraparte em várias operações de derivados. Os bancos podem, por exemplo, exigir reforço de garantias ao Deutsche Bank, em algumas operações, o que pode criar algum atrito entre o Deutsche Bank e os outros bancos”.

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“O banco tem pouca exposição a Portugal e Portugal tem pouca exposição ao banco”, diz Paulo Pinho.

A relevância do Deutsche Bank no sistema financeiro português é marginal. Apenas um em cada centena de colaboradores dos bancos em território nacional trabalha para a sucursal portuguesa do banco alemão. Também apenas um em cada 100 balcões bancários pertence ao universo alemão. O Deutsche Bank funciona em Portugal com agências próprias — centros financeiros, centros de investimentos e unidades de banca privada — mas também através promotores, bancários empreendedores com carteiras próprias de clientes.

Deutsche reitera “forte compromisso” com o mercado português

Bernardo Meyrelles, o presidente da sucursal portuguesa do banco alemão, confirmou à Visão que está a preparar o encerramento de cerca de 15 balcões, maioritariamente em Lisboa e Porto, na sequência de um plano alemão de reestruturação do grupo. Meyrelles confirmou também a redução de pessoal, mas os cortes “não deverão chegar a 10%” do total de 400 funcionários que o banco emprega em Portugal.

Questionada pelo Observador, fonte oficial do banco em Portugal reiterou o compromisso do Deutsche Bank com este mercado.

“No que respeita ao nosso posicionamento em Portugal, reiteramos o nosso forte compromisso com o país, mantendo o nosso posicionamento de advisory banking que, cada vez mais numa era digital, é compatível com o ajuste da nossa rede de distribuição, com o encerramento de 15 balcões convertidos em 6 centros de Investimento, concentrados em Lisboa e Porto. Isto é, o compromisso e estabilidade com Portugal manter-se-á, tal como se manterá a estratégia para o mesmo target de clientes e com uma oferta de produtos mais competitiva”.

Banco está mais sólido, garante fonte oficial

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Numa apreciação geral à situação do grupo, fonte oficial do banco diz que “o Deutsche Bank actualmente é um banco muito mais seguro e forte do que antes da crise financeira. Desde 2007 nós quase que dobrámos o nosso capital e as nossas reservas de liquidez estão três vezes mais altas. Também os recentes stress testes aos bancos europeus demonstram que o Deutsche Bank entre todos os bancos internacionais apresenta os melhores resultados crediticios mesmo num cenário adverso.”

Portugal é o 55.º mercado para o DB. E dá lucro.

O negócio português é também marginal para o grupo Deutsche Bank. A receita que o banco retirou de Portugal em 2015 — 79 milhões de euros em termos líquidos — coloca o mercado nacional na 55.ª posição das principais geografias do grupo, que são lideradas pela Alemanha, Estados Unidos da América e Grã-Bretanha. Estas receitas líquidas geraram um lucro antes de impostos de 16 milhões de euros. Este montante posiciona o Deutsche Bank na oitava posição dos bancos mais lucrativos em Portugal em 2015.

Como é que o Deutsche Bank gera esse lucro? Focando-se nos clientes mais ricos. No ano passado, uma investigação do Observador à oferta de crédito à habitação revelou que os funcionários do banco só fazem simulações aos potenciais clientes que digam que terão património após a concessão do financiamento e que provem que têm um rendimento anual líquido superior a 42 mil euros.

O Deutsche Bank português especializou-se a oferecer soluções de investimento aos seus clientes. No entanto, não promove os produtos mais populares entre os portugueses, como depósitos a prazo e os seguros de capitalização. Aliás, é um dos bancos que menos pagam nos depósitos a prazo: uma taxa anual bruta de 0,01% qualquer que seja a duração da aplicação.

Os clientes da sucursal portuguesa do Deutsche Bank contam com produtos financeiros mais avançados, como fundos de investimento. O Deutsche Bank é o maior colocador de fundos estrangeiros junto de clientes portugueses. No final de junho passado, quase 22.500 clientes nacionais do banco tinham 670 milhões de euros aplicados em fundos estrangeiros, uma média de cerca de 30 mil euros por cliente.

FRANKFURT AM MAIN, GERMANY - OCTOBER 29: Deutsche Bank co-Chairman John Cryan arrives to speak to the media at Deutsche Bank headquarters on October 29, 2015 in Frankfurt, Germany. This is Cryan's first press conference since he replaced former co-Chairman Anshu Jain earlier this year. (Photo by Thomas Lohnes/Getty Images)

O Deutsche Bank é o maior colocador de fundos estrangeiros junto de clientes portugueses. No final de junho, quase 22.500 clientes nacionais do banco tinham 670 milhões aplicados em fundos.

O Deutsche Bank é, também, um dos principais colocadores de produtos financeiros complexos junto dos portugueses, como ficou claro no apuramento das perdas dos investidores em produtos estruturados indexados às obrigações da Portugal Telecom International Finance. As perdas dos clientes da sucursal ascenderam a 82 milhões de euros, de acordo com a investigação do Observador.

Desde que o banco português Deutsche Bank (Portugal) S.A. se converteu na sucursal do Deutsche Bank alemão em 2011, foram propostos mais de 150 produtos financeiros complexos aos clientes nacionais, que poderiam somar mais de dez mil milhões de euros em investimentos. Estes produtos complexos são montados recorrendo à gigante estrutura no mercado de derivados do Deutsche Bank, que agora contribuem para colocar o banco no olho do furacão.

O mundo mudou (para melhor)

Com o avolumar dos problemas no Deutsche Bank, um alto responsável do banco central alemão, Andreas Dombret, foi notícia nesta quarta-feira ao dizer que, possivelmente, a única solução para os problemas do Deutsche Bank e de outros bancos é que estes se tornem mais pequenos. “Uma lição que aprendemos com os dinossauros é que o tamanho não pode ser, em si mesmo, um fim”, afirmou Andreas Dombret, em Viena, citado pela agência Reuters. “O tamanho de um dado banco não pode ser uma garantia da sua sobrevivência. Nem, tão pouco, o tamanho de um setor pode ser a garantia de que está a salvo de crises”, elaborou o responsável.

Nos mercados, apesar de alguma recuperação das ações do Deutsche Bank depois de o presidente descartar um aumento de capital e um pedido de ajuda a Merkel, continua a reinar a desconfiança. Numa nota enviada aos clientes, o holandês Rabobank escreve que “as compras massivas de ativos financeiros por parte dos bancos centrais e as mudanças na regulação mostraram, claramente, que não foram suficientes para anular os receios de que exista um enorme “esqueleto no armário dos mercados financeiros“.

Mas pode haver uma visão menos pessimista. Um analista do setor bancário recorda, em conversa com o Observador, que muito mudou (para melhor) no mundo financeiro após a crise de 2008. “Temos hoje uma situação de liquidez bastante diferente de 2008”, assinala o especialista, salientando que os bancos recebem hoje mais depósitos e dão menos crédito (o tal rácio de transformação). “A menos que haja um problema de fuga de depósitos, a banca europeia está muito mais sólida do que antes de crise financeira”.

Caso os problemas do Deutsche Bank se intensifiquem, pode haver outra consequência que alguns lerão como positiva. Paulo Pinho diz que, “do ponto de vista do governo alemão, o Deutsche Bank pode ser uma oportunidade para emendar a mão e lidar com os problemas da banca europeia de forma mais generalizada, eventualmente fazendo uma revisão da diretiva das resoluções que o governo alemão tanto defendeu”. “Por outro lado, o problema pode ajudar a acelerar os mecanismos de convergência na União Bancária, que estão um pouco parados neste momento”, acrescenta o professor da Universidade Nova de Lisboa.