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Entrevista com um detetive que não existe

Francisco José Viegas lançou "A Poeira que Cai sobre a Terra" e nós fomos falar com Jaime Ramos, o detetive destas e outras histórias. (Uma personagem de ficção, mas que diz coisas interessantes).

Jaime Ramos nasceu há 25 anos no papel e na mente do escritor, jornalista e editor Francisco José Viegas. Oito romances depois, aquele que é provavelmente o mais famoso inspetor português regressa para mais uma série de cinco aventuras policiais em A Poeira que Cai sobre a Terra e outras histórias de Jaime Ramos, onde a mulher é sempre a figura central.

Na semana em que o livro chegou às livrarias, o Observador foi entrevistar nada mais nada menos do que Jaime Ramos, o protagonista destas e de muitas outras histórias. O Jaime Ramos inspetor da Polícia Judiciária do Porto, que lê os livros que a namorada escolhe, que finge que ainda está “ligeiramente surdo” porque “é um bom processo e que “conhece as mulheres e os homens demasiado bem”.

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“A Poeira que Cai sobre a Terra” chegou às livrarias a 4 de fevereiro

O Jaime entrou para a Polícia Judiciária há muito tempo, nos anos 70. Ainda se recorda desses primeiros anos na polícia?

Foram anos saltitantes. Eu regressei ao Porto em 1973, vindo da Guiné, da guerra, e fui trabalhar para um banco ao mesmo tempo que começava a minha vida de militante comunista, no apoio ao setor clandestino. Depois do 25 de Abril muitos de nós, comunistas, fomos convidados a entrar na polícia. Era um velho argumento, o de que um novo país precisava de uma nova polícia.

Passados estes anos todos, eu percebo: era o “entrismo” nas polícias. Eu tinha casado em 1974 com uma mulher que se tornou dirigente comunista (era a nossa Robespierre; separámo-nos em 1975, foi um casamento revolucionário), tinha começado um curso universitário, tinha a minha vida toda para dedicar à polícia. Bebíamos muito, dormíamos pouco, comíamos mal, estragávamos a vida sempre que podíamos, éramos — fomos sempre — mal apreciados pelos políticos, pelos juízes e pelas outras polícias.

Quando é que deixou de ser comunista?

Não me lembro. Mas foi antes de o comunismo ter acabado. Eu não tinha disciplina suficiente para ser comunista, nem sentido de sacrifício, nem abnegação. Nem esperança, no fundo. Tenho uma grande amizade pelo meu controleiro da época, um homem que acreditava que o mundo ia mudar só por haver gente a querer.

Porque é que decidiu seguir essa carreira na polícia?

Não tinha maneira de voltar atrás. Fui transferido para os homicídios em 1978 (sou uma espécie de viciado em homicídios). Os casos acrescentaram-se uns aos outros, acabaram por encher a minha vida, por ser uma espécie de oxigénio. Depois, à medida que a idade ia avançando, vi que os mais velhos não podiam sair por uma questão de fidelidade, de hábito ou de jeito. A vida dos outros — os seus deslizes, os seus crimes — passou a ser a nossa especialidade. É como se deixasse de ter vida para lá dessa vida, que era investigar o outro lado do mundo bem comportado. Não é Marlowe quem quer… Mas esse “outro lado” ajuda a explicar muita coisa do país…

"A vida dos outros - os seus deslizes, os seus crimes - passou a ser a nossa especialidade. É como se deixasse de ter vida para lá dessa vida, que era investigar o outro lado do mundo bem comportado."
Jaime Ramos, inspetor da Polícia Judiciária

Considera-se um Marlowe?

Não, não. Não. Philip Marlowe é um herói. Eu sou um tipo banal que vai ao sábado ao mercado de Espinho e que vai a Vigo comprar charutos porque ainda acha que são de contrabando.

Apesar de atualmente viver na cidade do Porto, passou uma boa parte da infância numa aldeia no Douro. Há quem diga que foram anos que o marcaram muito. Concorda com essa afirmação?

Não sei. As pessoas, sobretudo os escritores, os vegetarianos e os moralistas, fazem uma ideia muito romântica do que é viver no campo numa aldeia que no inverno fica cheia de neve e de lama, e onde as pessoas da minha família morreram sem conhecer nada mais movimentado do que o comboio que passava no Pinhão. Lembro-me desse tempo. Depois veio a guerra, África, a polícia. Vou lá de passagem ou à procura de homicídios, mas não quero voltar. Mata-se muito nas nossas províncias.

Que relação tem com a cidade do Porto?

Não tenho outra cidade. Para gostar do Porto é preciso gostar dos seus defeitos, dos seus vícios, até do seu lado obscuro, do seu lado negro, oculto. Não basta dizer que é uma cidade onde a beleza pousou ou ficar pelas coisas evidentes, banais, boas para turistas. O Porto é a parte mais longa da minha vida, desde 1973. E de antes. De modo que sou uma pessoa do Porto, gosto dos seus bairros, dos seus tipos, dos sotaques, das árvores, da comida, da burguesia da cidade, das mulheres da cidade, do seu lado antigo…

Da atmosfera.

Pode ser, sim, agora diz-se muito isso. O Porto é a cidade onde tudo é possível, porque não é demasiado conservadora nem demasiado excêntrica. Mas tem as duas coisas.

Quando [em Um Crime na Exposição] o seu diretor quis aplicar-lhe um castigo, mandou-o 15 dias para Lisboa.

Que nunca mais acabavam. Foi na altura da Expo. Dos crimes na Expo. Na altura era uma cidade muito empertigada, com a fantasia de ser moderna…

Há muitos crimes no Porto?

Os suficientes. Os homicídios fazem vender jornais. Há sociólogos na televisão a discutir a insegurança e os costumes. A insegurança dá picante à noite do Porto e prova que não andamos só em Francelos, no Lagarteiro ou em Ermesinde e Gondomar. Os juristas também vão muito à televisão explicar isto.

Antes de entrar para a polícia esteve algum tempo em África, durante a Guerra Colonial, como já referiu. Sobre essa altura, disse uma vez que foi na Guiné que redescobriu a morte. Quantos anos é que lá passou?

Eu conhecia a morte na minha família, é isso que eu quis dizer. Mas não conhecia aquela morte que vinha de todo o lado, do meio do mato, da savana, dos pântanos. A Guiné era isso– isso e mosquitos, baratas, regimentos de portugueses, hospitais de campanha. Não tive tempo para muito mais. Fui ferido na estrada de Bafatá. Perdi um amigo no norte, perto da Casamansa. Estive de baixa nos Bijagós (era uma praia cheia de lodo onde vinham parar oficiais bêbedos), depois de quinze dias num hospital de Bissau. Fiquei surdo, ou quase, durante um mês.

Havia um camarada que me lia à cabeceira, eu achava estranho. “Estás a ler-me isso para quê, se eu estou surdo?” E ele leu, leu, leu. Até que um dia comecei a ouvi-lo. A ele e a um rádio de pilhas onde estava a dar um relato de futebol. Ao todo, um ano e meio de Guiné.

"Havia um camarada que me lia à cabeceira, eu achava estranho. 'Estás a ler-me isso para quê, se eu estou surdo?' E ele leu, leu, leu. Até que um dia comecei a ouvi-lo. A ele e a um rádio de pilhas onde estava a dar um relato de futebol."
Jaime Ramos, inspetor da Polícia Judiciária

De todos os casos que lhe passaram pelas mãos, de quais é que se recorda melhor?

Daqueles que nunca resultaram num relatório com princípio, meio e fim. Gosto do caso de Manaus [Longe de Manaus]. Gosto do caso do Vidago [O Mar em Casablanca].

Por vezes, o Jaime parece saber qual será o resultado final das investigações muito antes de estas terminarem. Isso acontece em O Colecionador de Erva, e também nesta série de histórias [A Poeira que Cai sobre a Terra e outras histórias de Jaime Ramos]. Porquê?

A idade torna-nos mais cínicos e conhecer os outros faz de nós muito mais céticos. Eu já era isso antes de ser personagem. Tenho um certo gosto em ver a minha equipa a trabalhar.

Mas antes era mais solitário, trabalhava quase só com Isaltino de Jesus. Agora, alargou o seu círculo íntimo a José Corsário e Olívia.

Isaltino está comigo há 25 anos, mais ou menos. Ele cuida de mim. Toda essa gente é a minha família. A Olívia é uma mulher muito corajosa. O Corsário traz-me discos de mornas, e eu gosto. Antes quase só ouvia boleros mexicanos ou Van Morrison. O Corsário trouxe a música de Cabo Verde para a minha vida. As mornas. O pai do Corsário, que era funcionário das Finanças do Mindelo, ilha de São Vicente, tocava numa pequena orquestra de “mornas”.

O Jaime tem uma paixão secreta por livros, que tenta esconder dos outros. Quando visitou uma livraria durante o caso da morte de Paula Martinho da Luz [A Poeira Que Cai Sobre a Terra e outras histórias de Jaime Ramos], professora da Faculdade de Letras, esforçou-se para desviar os olhos das estantes. Acha que o papel de leitor não fica bem a um polícia?

O papel de leitor não fica bem a um exibicionista, nem o de exibicionista fica bem a um leitor. O que acontece é que não gosto de andar a mostrar que li isto ou aquilo, ou que podia ter lido isto e aquilo se quisesse.

A sua casa está repleta de livros, que só lê no inverno. Porque é que acha que o verão não é uma boa altura para ler?

É uma excentricidade como qualquer outra. Talvez o meu sonho seja o de atravessar a rua a caminho do café e as pessoas pensarem “ali vai o Jaime Ramos, que não é mau tipo e nunca escreveu um livro”.

Que tipo de livros é que gosta de ler? O facto de ser polícia talvez leve muita gente a pensar que prefere policiais.

A minha namorada é que escolhe os meus livros. Ela é responsável pelo meu lado civilizado, apresentável. Até pelo meu lado amável, se é que eu tenho um. Pela minha roupa, até. Por mim, vestia sempre o mesmo tipo de roupa.

Então e os livros?

Não gosto de falar de livros.

"Talvez o meu sonho seja o de atravessar a rua a caminho do café e as pessoas pensarem 'ali vai o Jaime Ramos, que não é mau tipo e nunca escreveu um livro'."
Jaime Ramos, inspetor da Polícia Judiciária

O Jaime mantém uma relação com Rosa, a vizinha que vive dois andares acima do seu. Apesar de estarem juntos há muito tempo, nunca casaram. Mas viajaram juntos, cozinharam juntos. Nunca pensou em casar? Ou acredita que o casamento não é coisa para si?

Claro que já pensámos [em Longe de Manaus]. Mas estamos bem assim. Ela tem a chave do meu apartamento, acho que isso diz tudo.

Mas o Jaime não tem a chave do apartamento dela.

Não, não preciso. Basta-me bater à porta. Se ela estiver, abre. Pode nem lhe apetecer abrir a porta. Sei o meu lugar. Sou um tipo livre.

Deixou de fumar cigarros há muitos anos, desde que apareceram as primeiras máquinas de distribuição de tabaco. Agora só fuma cigarrilhas e charutos. O que é que o incomoda tanto nas máquinas de distribuição?

Acho que é outra excentricidade. Com a idade vamos perdendo a paciência para coisas dessas. Não me agrada e pronto. Era mais fácil se as pessoas assumissem com mais desprendimento aquilo de que gostam e aquilo de que não gostam, em vez de se fingirem civilizadas e adaptadas. Eu não gosto de máquinas de distribuição de tabaco. Vivemos num mundo de gente adaptada, de gente que não acredita naquilo que faz — ou de gente que vive neste mundo para dar lições de moral aos outros.

E se as cigarrilhas e os charutos começarem também a ser vendidos em máquinas? Deixará de fumar?

Nunca deixarei de fumar. Ser personagem de papel tem essa vantagem. Fumar dá-me tempo, obriga-me a desrespeitar a regra de não se fumar nos edifícios públicos (na polícia, abro a janela do meu gabinete — todos me protegem mas pensam que eu não sei). Dá-me um certo ar de Bogart (ele era mais elegante do que eu, claro).

E ele tinha a Lauren Bacall.

Eu tenho a Rosa. Ele tinha charme. Eu sou só um tipo do Porto que nunca diz tudo o que sabe.

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