Não há forma de o nó se desatar definitivamente em Lisboa. Apesar de existir já um princípio de acordo para que a coligação de Carlos Moedas venha a integrar o CDS e os mais recentes parceiros da Iniciativa Liberal, a verdade é que as negociações continuam para lá e para cá sem que exista ainda um desenho final do que pode ser a distribuição de lugares no futuro executivo autárquico. Aliás, a única coisa que não pára de aumentar é mesmo o mal-estar entre todas as partes envolvidas.
Da parte de Carlos Moedas, há só um recado para todos: “Cada coisa a seu tempo”, diz fonte próxima do presidente da Câmara de Lisboa ao Observador. Que é o mesmo que dizer que se o CDS e ou Iniciativa Liberal continuarem com pressa e a fazer exigências desproporcionais, arriscam-se a ficar fora do barco. De resto, não é segredo para ninguém que Moedas está a perder a paciência com as estruturas locais dos dois partidos, sobretudo o do CDS, que ainda há um par de semanas convocou um plenário local para referendar a continuidade na coligação “Novos Tempos”.
Com as negociações a decorrerem normalmente e dentro de prazos que considera aceitáveis, Moedas tem evitado comentar publicamente essas questões por entender que qualquer dramatização extemporânea pode prejudicar e o processo. Apesar de tudo, o autarca tem registado todos os recados que se vão passando através da comunicação social (e não só). Se as coisas continuarem a escalar, pode sentir-se obrigado a dar como terminadas as conversações. Significa isto que Moedas poderá decidir ir a votos sozinho? No limite, e se sentir que tem mais a perder do que a ganhar com parceiros tão instáveis, porque não?
CDS a roer as unhas
Nas fileiras do CDS o nervosismo está instalado. Desde logo, porque há muito poucos democratas-cristãos que estejam verdadeiramente a par do andamento do processo, que está a ser conduzido, deste lado, pelo vice (e secretário de Estado) Telmo Correia. O que se constata, já de há umas semanas para cá, é que existe um “impasse” que atrasa as negociações – e que isso está longe de beneficiar o CDS.
Nos corredores do CDS Lisboa, as contas que se fazem são ao número de vereadores que o partido conseguirá negociar numa eventual lista da coligação Novos Tempos 2.0 – agora tem três – mas também aos dias que vão passando sem que o dossiê se encerre. “É do interesse de Carlos Moedas: quanto mais tarde, melhor”, comenta um dirigente local do CDS.
É o mesmo que dizer que para o CDS “quanto mais tarde… pior”. Os democratas-cristãos já queriam ter a pasta fechada desde o início do ano, não só para prepararem a candidatura como também para terem melhores condições de negociação – no CDS existe o medo de que Moedas vá prolongando as conversas até ao limite para as encerrar em cima da hora, já com pouca margem para que os democratas-cristãos, que querem repetir a coligação mas em condições dignas, consigam negociar as suas posições.
No jogo do empurra também surge um passa-culpas frequente: do lado do CDS têm sido comuns as queixas sobre a “indecisão” da Iniciativa Liberal e sobre as diferentes vozes que, no partido, vão defendendo perspetivas diferentes sobre o caminho a tomar para Lisboa. Sobretudo numa altura em que a liderança muda e o rumo do partido volta a ser discutido – mesmo que boa parte da direção se mantenha.
Também por isso têm surgido, do lado do partido mais pequeno, vários recados – nomeadamente aquele que saiu do último plenário concelhio de Lisboa, que acabou a aprovar por unanimidade um texto em que se reconhecia que o caminho natural é repetir a coligação, mas que o CDS não pode ser desvalorizado ou menorizado. Desde logo, como se tem repetido nos corredores do partido, se a Iniciativa Liberal entrar nestas contas, uma vez que tendo em conta o seu peso eleitoral será natural que fique com mais vereadores do que o parceiro inicial, o CDS.
Ainda assim, se os democratas-cristãos conseguissem salvar a face nas negociações, assegurando dois lugares (tendo em conta que já perderam na prática um vereador, Filipe Anacoreta Correia, que anunciou a desfiliação e conta, se entrar na lista, fazê-lo como independente), já seria uma perspetiva suficiente. Até porque não falta quem recorde que nestas negociações podem sempre entrar outras variáveis, como a negociação de candidaturas a presidências de junta onde a vitória seja mais favorável para compensar uma redução da representação nas listas para a autarquia.
Assim, no CDS causaram irritação as interpretações sobre as palavras de Nuno Melo, durante a convenção autárquica do partido no fim de semana passado, quando falou nas condições para o CDS participar em coligações autárquicas. O líder do CDS (e ministro da Defesa) começou por dizer, numa aparente referência a Lisboa: “Há coligações que neste momento estão vigentes e nós percebemos que os tempos mudam, e pode ser conveniente que, em alguns casos, outros parceiros entrem. Agora, quando entrando outros parceiros, o CDS continue a ser respeitado no sentido de poder continuar a exercer mandatos, como vinha fazendo (…) naturalmente que essas coligações poderão acontecer”.
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Até aqui tudo bem. A nuance que fez notícia surgiria depois: “Onde o CDS desempenha com relevância o poder autárquico, expressando os seus valores nesses mandatos, e para entrarem outros, o CDS tem que sair, ou tem que baixar, não tendo a expectativa de exercer esses mandatos (…) então naturalmente aí o CDS concorrerá sozinho”. Não “baixar” a sua representação parecia uma condição para entrar numa reedição da coligação Novos Tempos – condição difícil, no mínimo, de cumprir, dada a redução do peso eleitoral do CDS, a possível entrada da IL e a passagem a independente de Anacoreta Correia.
Mas no CDS frisa-se que essa interpretação não teve “relação nenhuma” com a realidade, salvaguardando-se que a tal redução no número de candidatos na lista não tem como consequência automática a saída do CDS da coligação (até porque existem as tais outras variáveis, como presidências de junta, a negociar).
Fonte da direção sublinha que o presidente do partido até repetiu que estava a falar na “doutrina geral” e não sobre nenhum caso em concreto, e que por isso não estaria a deixar um ultimato a Moedas – embora estivesse, sim, a fazer questão de reafirmar a posição do CDS, que não quer, naturalmente, sair diminuído ou humilhado da negociação sobre a coligação que ajudou a compor.
IL fechada em copas
Na Iniciativa Liberal, o silêncio está a ser usado como arma de negociação. Depois de irritações e desconfianças mútuas entre possíveis parceiros de coligação nos últimos meses, os liberais preferem fechar-se em copas e não dizer uma palavra. Até porque, num passado recente, o coordenador do núcleo de Lisboa, Rodrigo Mello Gonçalves, foi dando declarações públicas, desde logo quando, à boleia da operação Tutti-Frutti, garantiu ao Observador que “a Iniciativa Liberal está a trabalhar no seu projeto autárquico para a cidade de Lisboa” — uma ideia que já tinha deixado anteriormente —, mas rematando que “questões sobre o PSD devem ser dirigidas ao PSD, porque este é o momento do PSD arrumar a sua casa“. Agora, contactado pelo Observador, prefere não comentar o assunto.
Passaram poucos meses após as notícias que abalaram a confiança na relação entre liberais e sociais-democratas — e que deixaram a IL pé atrás relativamente ao apoio a Carlos Moedas — e, nessa altura, também Mariana Leitão, agora prestes a tornar-se presidente do partido, disse em entrevista ao Now que está em causa “um facto grave” que “certamente será devidamente ponderado pelo núcleo de Lisboa” no momento de tomar a decisão. Já que, sublinhou, foram estabelecidos princípios basilares para avaliar em casos de coligações e um deles era a existência de uma “equipa idónea” — “A partir deste momento isto está em causa”, sugeriu.
Apesar de existir a crença, entre diversos liberais, de que o caso judicial pode abanar a decisão final, a verdade é que havia a tese, partilhada publicamente por protagonistas liberais, nomeadamente na última reunião magna, de que contra uma frente de esquerda, Carlos Moedas não deveria ir sem o apoio liberal. Aliás, a própria Mariana Leitão, nessa altura, assumiu “alguma reserva” e acusou o presidente da Câmara Municipal de Lisboa de não ter feito um “trabalho excecional”, mas reconheceu que o apoio “seria o mais sensato a fazer” no caso de haver uma frente de esquerda.
João Cotrim Figueiredo também considerou que Lisboa seria uma “boa exceção” à opção liberal de ir sozinha a votos, crente de que há o “risco, que parece real, de haver uma grande coligação à esquerda”. “Não gostaria de ver a IL ser responsável por uma maioria de esquerda que má memória nos deixou na última vez que lá estiveram”, alertou.
A verdade é que, da última vez que a IL foi sozinha a votos em Lisboa, não correu bem e os liberais ficaram sem nenhum vereador. Passaram quatro anos, o partido cresceu consideravelmente — nessa altura só tinha um deputado único e atualmente tem um grupo parlamentar de nove deputados — e para estas autárquicas já estão aprovadas uma série de coligações por todo o país, mesmo que essa não seja a opção preferencial dos liberais. Mas nem a nega a Moedas é de boa memória, nem Lisboa é uma autarquia em que não vale a pena fazer grandes contas.
Por falar em contas e apesar de esse não ser propriamente um tema que os liberais tenham tendência a priorizar — desde cedo carregam o mote de as ideias serem superiores a cargos —, dificilmente um partido com o peso da IL permitiria que o CDS tivesse mais vereadores em lugares elegíveis, um assunto que tem feito parte da discussão e que deixa os democratas-cristãos numa posição bastante mais delicada do que há quatro anos.