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Little Richard: o que teria sido de nós se o maestro do rock’n’roll nunca tivesse existido? /premium

De Hendrix a Prince, passando por Elton John, todos seguiram os ensinamentos de Little Richard (1932-2010), com o boogie-woogie eletrificado, as performances no limite e a vida acidentada.

Richard Wayne Penniman estava destinado a ser Little, mas morreu um gigante. O mundo, contudo, não é perfeito, e o gigante Richard despediu-se ainda Little, e não apenas de nome artístico: se alguém fosse espreitar o seu caixão e levasse consigo uma fita métrica daria conta de que uma suas pernas era maior que a outra. Sempre foi – e ainda é, apesar de toda a glória, dos êxitos, das palmas.

Muito sofreu Richard à conta do seu físico: além de, em miúdo, ter uma cabeça grande num corpo little, também tinha uma perna mais little que outra. Em 1932, quando nasceu, isto era razão mais do que suficiente para ser vítima de uma coisa que na altura ainda nem sequer fora definida: o bullying. E quando se tem 11 irmãos e um pai violento e emocionalmente cruel está-se fadado a ser gozado e a levar muita porrada à conta de algo que não se tem culpa: ter nascido com uma perna mais curta do que outra.

O que teria acontecido se Little Richard tivesse nascido com duas pernas iguais, ou no seio de uma família mais equilibrada – ou se não tivesse nascido? Assim logo à primeira: não haveria Prince, que pilhou no sentido estético e excessivo de Little Richard, nas cabeleiras, na maquilhagem, nos trejeitos de dança efeminados, naquela forma incrivelmente sedutora de usar o instrumento como se fosse um parceiro de uma dança particularmente sexualizada, enfim: Prince pilhou a showmanship de Little Richard ao mais ínfimo detalhe, sofisticou-a e foi o que se viu.

[“Tutti Frutti” em 1956:]

É mais fácil resumir o que a existência de Little Richard significou recorrendo às palavras dos músicos. Por exemplo, Brian Johnson, dos AC/DC: “Não havia nada e depois havia isto”. Stevie van Zandt, tão conhecido por fazer parte da E Street Band, de Bruce Springsteen, como pelo seu papel enquanto Silvio Dante na série “Sopranos”, escreveu: “RIP Little Richard. O homem que inventou o rock’n’roll. Elvis popularizou-o. Chuck Berry era o contador de histórias. Mas o Richard era a encarnação do Espírito do Rock’n’Roll”.

Little Richard talvez não tenha inventado o rock’n’roll, como gostava de dizer – ao fim e ao cabo, o termo, que começara por significar o movimento das ondas e posteriormente tomou um sentido sexualizado, foi usado pela primeira vez em 1942, na Billboard, para descrever “Rock me”, uma canção upbeat de Sister Rosetta Tharpe –, mas foi pelo menos o primeiro a praticá-lo com a contundência que hoje lhe reconhecemos.

Morreu Little Richard, pioneiro do “rock’n’roll” e personagem extravagante que influenciou gerações

A mistura de rhythm and blues, gospel, jazz, boogie woogie e country, que está na origem do rock, já andava por ali, mas quando Little Richard lançou “Tutti-frutti”, em setembro de 1955, nunca se tinha visto nada assim: um dirty blues cheio de boogie, de ritmo infernal, tinha o condão de enlouquecer as gentes que se apinhavam em night-clubs para o ouvir. De súbito, havia música para aquele sentimento que se apodera de nós, de querermos ser outra coisa, usar o corpo, não ter freios, celebrar a vida apesar de todos os escolhos, esquecer a moral na dobra do flanco da rapariga do lado.

Richard não mudava a maneira de ser – o bullying tinha-o endurecido e estava firmemente convicto de que havia de ser o que quer que fosse. Como resultado, o pai pô-lo fora de casa quando o rapaz tinha apenas 13 anos e uma única arma a seu favor: a sua voz, cujas capacidades começara a descobrir na missa.

“Tutti-frutti” foi um êxito instantâneo, seguido no ano seguinte por “Long Tall Sally” e por uma crescente explosividade cénica nas atuações ao vivo, que marcaram tanto Prince como Elton John como qualquer artista que encare a sua arte igualmente como entretenimento. Richard não foi só um pioneiro musical – foi ele que ditou as regras segundo as quais o rock’n’roll se apresenta até hoje.

O que teria acontecido se Little Richard tivesse nascido com duas pernas iguais, ou no seio de uma família mais equilibrada – ou se não tivesse nascido? Talvez ele tenha tido azar com a época e a condição social: na sua recém-editada Autobiografia, Woody Allen conta que o filho Ronan Farrow fora, numa altura em que não havia maneira de crescer, operado várias vezes às pernas de modo a ficar mais alto, o que aumentaria as suas hipóteses de vingar na carreira política que a sua mãe, Mia Farrow, imaginou para o filho.

Mas em 1932 não havia operações para fazer crescer pernas, o termo bullying ainda não fora inventado, simplesmente sobrevivia-se ao dito e arrastava-se os traumas vida fora – e Little Richard também não foi criado num lar abonado: nascido em Macron, Georgia, no sul dos EUA, Richard foi criado no seio de uma família extremamente conservadora: dois dos seus tios eram pastores, o seu pai era diácono.

[“Long Tall Sally”:]

O senhor Penniman Sr. batia-lhe constantemente, não só por causa do seu tamanho (e da sua tendência para pregar partidas), mas acima de tudo pelos seus trejeitos efeminados: Richard gostava de usar maquilhagem, deixava crescer o cabelo e penteá-lo ao jeito de uma permanente de senhora, usava roupas de mulher e o pai não suportava nada disto. Mas Richard não mudava a maneira de ser – o bullying tinha-o endurecido e estava firmemente convicto de que havia de ser o que quer que fosse. Como resultado, o pai pô-lo fora de casa quando o rapaz tinha apenas 13 anos e uma única arma a seu favor: a sua voz, cujas capacidades começara a descobrir na missa.

A voz deu-lhe de imediato um lar: Richard dirigiu-se a um nightclub chamado TickTock, pediu para atuar, e o casal que dirigia o clube, um par de brancos chamado Ann e Johny, gostaram tanto que, segundo Little Richard, adotaram-no: deram-lhe de comer, onde dormir, puseram-no de volta na escola e ofereceram-lhe o palco, sempre que quisesse – e terá sido ali que ele desenvolveu não só a sua escrita como a sua arte de palco.

(A propósito: Richard dizia que na primeira noite em que atuou no TickTock tocou “Tutti-frutti”, o que a ser verdade significa que a teria escrito mesmo muito novo.)

Do TickTock para o estrelato foi um salto mínimo nos ponteiros do relógio e seria ótimo que a história acabasse assim, com o sucesso como redenção – mas os seres humanos são confusões, ambíguos, transportam mágoas e traumas e mais difícil se torna conviver com nós mesmos quando mancamos da alma, situação comum em infâncias como a que Little Richard foi sujeito.

Até o trajeto acidentado de Little Richard parece ser fundacional, no rock’n’roll: Prince deixou de fazer música secular durante uns tempos, David Bowie herdou de Little Richard a ambiguidade sexual, o glam, a tendência para a cocaína, as orgias, mas também a capacidade de se reerguer, negar o passado e reinventar-se.

Rapidamente o consumo de drogas de Richard escalou: primeiro a marijuana, depois o PCP e finalmente a cocaína, que lhe custava milhares de dólares por dia. O seu comportamento com a sua banda era (de forma não inesperada) de um bully: multava-os por tudo e por nada, até por tocarem bem demais e ofuscarem o líder; Jimmy Hendrix foi despedido por usar uma camisa melhor que a de Little Richard e readmitido no dia seguinte – depois de jurar nunca mais usar aquela camisa.

A sua sexualidade nunca pareceu resolvida: Richard gostava de ver as namoradas a terem sexo com outros homens no carro, o que lhe valeu, uma vez, três dias de cadeia e a proibição de atuar em Macron, Georgia. Em 1957 abandonou o rock’n’roll (pela primeira vez) para se tornar pastor, mas os seus hábitos não mudaram: foi apanhado a mostrar os genitais a um estudante e posteriormente, em 1962, foi preso por espiar homens a urinar em casas-de-banho públicas.

1962 foi o ano em que Richard voltou à música secular (isto é, não-religiosa) e o ano em que, além de se dedicar ao voyeurismo com as namoradas, começou a participar em orgias. Na década de 80 chegou a declarar que a homossexualidade não era natural, para posteriormente, em 1995, assumir numa entrevista que fora gay a vida inteira. Mas em 2017 voltou a dizer que a homossexualidade era uma forma de afeto não-natural que vai contra a vontade de Deus.

[“Lucille”:]

Esta é uma lista muito sintética das ambiguidades e atribulações e tragédias da vida de um homem que nunca se conseguiu decidir entre o conservadorismo que lhe inculcaram na infância e o deboche extremo que o estrelato lhe permitiu, e viveu uma vida inteira em sofrimento à conta disso – e estou a deixar de fora episódios como o assassinato do pai, em 1952, ou a ameaça de homicídio, feita pelo seu amigo Larry Williams, em 1977, que estava farto de Richard lhe dever dinheiro da droga. Foi nesse ano que se tornou padre, tendo casado, entre outros, Stevie van Zandt.

Até este trajeto parece ser fundacional, no rock’n’roll: Prince deixou de fazer música secular durante uns tempos, David Bowie herdou de Little Richard a ambiguidade sexual, o glam, a tendência para a cocaína, as orgias, mas também a capacidade de se reerguer, negar o passado e reinventar-se.

O que teria acontecido se Little Richard tivesse nascido com duas pernas iguais, ou no seio de uma família mais equilibrada – ou se não tivesse nascido? Talvez outro homem qualquer, negro, gay ou bissexual, espancado pelo pai ou pela mãe, encontrasse na música o seu escape, a sua vontade de ser outra coisa, e criasse o rock’n’roll. Talvez fossem preciso um exército de crianças precocemente talentosas e estupidamente abusadas para criar a revolução que Little Richard criou.

Nunca saberemos a resposta a estas perguntas. Temos o rock’n’roll, as canções de Little Richard e de todos os seus herdeiros, de Hendrix a Prince, passando por Bowie, e aquela lição de esperança e realismo que o rock’n’roll nos ensina vez após vez: podes ser outra coisa, sem as regras que te impuseram, livre e dionisíaco – mas só durante algum tempo, porque quando estiveres desatento, o passado vem e traça-te a perna outra vez.

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