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Os três médicos ouvidos pelo Observador defendem que não faz sentido usar luvas na rua. Máscaras só em algumas situações

AFP via Getty Images

Os três médicos ouvidos pelo Observador defendem que não faz sentido usar luvas na rua. Máscaras só em algumas situações

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Luvas e máscaras são eficazes, mas não da forma como andam a ser usadas na rua

DGS diz ao Observador que não mudava a recomendação mesmo que existissem máscaras para todos e insiste que dão uma "falsa sensação de segurança". Medidas básicas de higiene são mais eficazes.

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As luvas e as máscaras são eficazes para impedir o contágio do coronavírus? São. Vale a pena usá-las sempre que saímos à rua? Não. São eficazes só se as soubermos usar como deve de ser? Sim. E, nesse caso, devemos andar sempre com elas? Não. Pode imaginar esta explicação com a voz (e as pausas) do professor Marcelo Rebelo de Sousa, no tempo em que dava aulas e estava longe de ocupar o Palácio de Belém. Em plena pandemia do SARS-CoV-2, a Direção-Geral da Saúde deixou um novo alerta: depois de já ter desaconselhado o uso de máscaras, avisou que “usar luvas na rua não é eficaz” para evitar o contágio. O Observador ouviu a opinião de três médicos, que são unânimes: a proteção individual é eficaz, mas não da maneira que anda a ser usada na rua pelos portugueses.

Durante a conferência de imprensa diária da DGS, na sexta-feira, o Observador questionou a diretora-geral da Saúde sobre o assunto. Se o uso é desaconselhado com o argumento de que os cidadãos não os sabem usar, porque é que a opção não é, em alternativa, ensinar as pessoas a usar corretamente os materiais de proteção? “Essa poderá ser uma opção se, e quando, houver material de proteção para toda a gente. Neste momento é inútil dizermos que há proteção para 10 milhões de pessoas, todos os dias, várias vezes ao dia, e utilizada corretamente.”

No momento atual, argumentou Graça Freitas, o uso deve ser parcimonioso e deve ser feito de acordo com prioridades. “No futuro, havendo para todos, com medidas pedagógicas, esta poderá ser considerada uma medida útil.”

O grande problema de usar este tipo de proteção nas ruas é a população baixar a guarda, pensando que está protegida, quando na realidade não está. “Se chegássemos ao ponto de todos usarem máscaras, nunca as pessoas fiquem com a falsa sensação de segurança. A medida essencial não é usar a máscara, é o distanciamento social.” As máscaras, continuou Graça Freitas, podem ter um efeito demasiado tranquilizador.

Mesmo com milhões de máscaras, a recomendação seria a mesma?

Se cada português usasse quatro máscaras por dia, ao final do dia seriam precisas 40 milhões de máscaras. Ao fim de uma semana, 280 milhões. Mas mesmo que houvesse capacidade para fornecer um número tão elevado de máscaras à população, a DGS, questionada pelo Observador, garante que não mudaria a recomendação atual. 

A DGS lembra que “como o uso de uma máscara pode ser desconfortável, o desconforto pode fazer com que as pessoas toquem o rosto com mais frequência e esse gesto pode contribuir para a contaminação”. Não havendo máscaras para todos, a DGS mantém o que disse Graça Freitas sobre privilegiar o seu uso por grupos prioritários. “Na atual situação de crise, é fundamental que haja um uso criterioso das máscaras, para que possam ser utilizadas por quem mais delas vai beneficiar, diminuindo a possibilidade de transmissão da doença e contribuindo, dessa forma, para o bem da comunidade.”

[Veja o vídeo da Organização Mundial de Saúde sobre o uso correto de uma máscara]

“Se as máscaras não fossem eficazes, os médicos não as usavam”

Dizer que a população não deve usar máscaras quando sai para ir ao supermercado ou à farmácia não é sinónimo de dizer que não são são capazes de proteger de uma infeção. “Se as máscaras não fossem eficazes, os médicos não as usavam”, diz o médico pneumologista Filipe Froes, esclarecendo que quando o equipamento usado é adequado ao risco é 100% eficaz.

“Há situações em que as máscaras são mandatórias, há situações em que o seu uso tem de ser avaliado, e há outras em que simplesmente não faz sentido usá-las”, defende o coordenador do gabinete de crise da Ordem dos Médicos e que é também membro do Conselho Nacional de Saúde Pública. Se uma pessoa anda na rua sozinha, a passear o cão, não precisa da máscara para nada, defende.

É exatamente nesse exemplo que pega o médico virologista Francisco Antunes para ilustrar os momentos em que as máscaras são inúteis. Na sua opinião, mesmo nos momentos em que devem ser usadas, as máscaras cirúrgicas, as que mais se veem nas ruas, não são barreira garantida. “São eficazes, mas não garanto que o sejam a 100%. Nas circunstâncias atuais, quando faz sentido usá-las, é melhor do que não usar nada”, clarifica o professor catedrático jubilado da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

Acima de tudo, frisa, depende de como são usadas. “Temos de saber como é que devem ser colocadas, se podem ser reutilizadas, como devem ser descartadas… Se o carro for bom e o condutor for mau não serve de nada.”

Luvas “nem nos corredores dos hospitais” fazem sentido

“As luvas são para observar doentes e para usar nas urgências, nem nos corredores dos hospitais precisam de ser usadas”, defende o bastonário da Ordem dos Médicos, que diz que usá-las na rua não faz sentido nenhum.

“Percebo a ideia das pessoas. Vão tocar em superfícies e acreditam que se levarem luvas ficam protegidas. Mas as luvas só protegem se forem boas, e se a seguir forem eliminadas como deve de ser. De outra maneira, podem ficar infetadas durante muito tempo”, explica Miguel Guimarães, sublinhando que o vírus não passa pela pele. O mesmo não se pode dizer do material de que são feitas as luvas. “Se elas se infetam em algum lado — e atenção que o vírus não está em todo o lado — e levamos a mão à cara ficamos infetados.”

Francisco Antunes diz perceber o porquê de a DGS desaconselhar o uso de luvas e lembra que o seu uso permanente pode causar problemas de pele na mão. “Só faz sentido usá-las para proteger os outros de infeções, nos blocos operatórios ou quando se manipula doentes”, acrescenta. Noutras profissões, fará sentido quando se faz recolha de lixo, por exemplo, e entre empregadas de limpeza dependerá do ambiente em que trabalham. Num hospital, será esperado que o façam.

E usá-las para ir ao supermercado? Um redondo não dos dois médicos. O importante é lavar as mãos assim que se chega a casa. “É um exagero, fundamentado no medo e que nos leva a criar mecanismos de defesa contraproducentes porque dão falsa sensação de segurança. Por exemplo, usar luvas sem lavar as mãos antes e depois é puro desperdício”, diz Francisco Antunes. A sua recomendação é antes usar a mão esquerda para tocar nas superfícies, já que levamos a mão não dominante menos vezes à cara, e ter um lápis com borracha na ponta para tocar em algumas coisas, como botões de elevadores ou de multibancos.

[Veja no vídeo como colocar e retirar as luvas corretamente]

No final do dia, quem deve usar máscaras?

Atualmente, as máscaras de proteção individual usadas pelos profissionais de saúde dividem-se em três tipos: P1, P2 e P3. As últimas são as que dão maior proteção, explica o bastonário da Ordem dos Médicos.

“As P3 fazem parte de um equipamento que parece de astronauta, um fato mais rigoroso, com botas, bata, e uma máscara especial que deve ser usada no local onde são tratados os doentes de Covid-19”, sublinha. As P2, que dão boa proteção para este tipo de vírus, são as que devem ser usadas por quem está nas urgências e a fazer a triagem dos doentes, a par de uma proteção ocular, uma bata cirúrgica que não deixa passar nada, e luvas especiais. As botas já podem ser dispensadas.

“Dentro do hospital, como no de São João onde está a maioria destes doentes, todos deviam usar máscara cirúrgica. Se o doente usar e eu usar, é mais difícil que se dê o contágio”, argumenta.

Na situação atual, num corredor de hospital, defende o bastonário dos Médicos, os profissionais de saúde devem usar sempre máscara cirúrgica. As luvas são dispensáveis

AFP via Getty Images

Fora do hospital, o bastonário lembra que não é obrigatório andar de máscara. “O vírus não anda por aí com o vento. Temos é de manter algum cuidado.” Numa ida a um supermercado, por exemplo, defende que só quem for mais sensível deve usar máscara, mas o melhor mesmo é não saírem de casa. “A máscara cirúrgica não é 100% eficaz. Se estiver à minha beira e eu tossir, as gotículas podem passar pela máscara. Pode dar alguma proteção, mas é mais eficaz para evitar que um doente infete terceiros. Se eu tossir dentro da máscara, as gotículas ficam por ali e espalham-se menos.”

Francisco Antunes defende que as máscaras só devem ser usadas por quem tenha sintomas respiratórios, como tosse ou espirros, pelos profissionais de saúde e por doentes crónicos — doenças respiratórias, imunodeprimidos ou doentes oncológicos. E mesmo estes, só se estiverem em grupo, sendo dispensáveis se forem dar um passeio sozinhos: “As máscaras e as luvas não são adornos. Não faz sentido usá-las dessa maneira”.

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