“Não é uma pasta fácil, mas há alguma que o seja?”. Logo depois de ter tomado posse, Maria Lúcia Amaral prometeu “estudar os dossiês” antes de definir prioridades para a Administração Interna. Corria contra o tempo: foi empossada no início de junho, a poucas semanas da altura crítica dos incêndios. Resistiu a esse teste, mas não se livrou de críticas por ter comunicado tarde e com algumas gafes. Marcelo Rebelo de Sousa pareceu defendê-la: “Admito que quem acaba de chegar há dois meses esteja a descobrir os problemas e as respostas a dar”. Mas os meses passaram e o obstáculo foi ainda maior e mais imprevisível. As críticas repetiram-se na gestão das tempestades deste ano e a notícia chegou através do Presidente da República, que revelou a demissão da ministra.
No verão, demorou a reagir aos incêndios e, quando o fez, ficaram mais na retina os comentários desajustados do que a assertividade exigida numa pasta complicada. Depois de ter ficado em silêncio durante vários dias, a ministra teve uma curta declaração sobre o estado do combate aos fogos. Durou menos de cinco minutos e terminou com um “vamos embora“, que afastou qualquer hipótese de perguntas por parte dos jornalistas.
Até 2026, cujo arranque fica inevitavelmente marcado pelos comboios de tempestades que tiveram a fase mais crítica com a passagem da depressão Kristin, a ministra foi tendo destaque através de algumas intervenções públicas, em eventos rotineiros de agenda ou em audições no Parlamento. Numa das audições mais recentes foi questionada pelos deputados sobre a gestão dos aeroportos durante o período do Natal. A 16 de dezembro, disse que não tinha uma “resposta fechada sobre esse tema”. “Estamos a tratar e a pensar nesse plano de contingência”, atirou, sendo acusada pela oposição de preparar um tema sensível “em cima do joelho”.
O episódio do aeroporto, cujo controlo de segurança cabe à PSP, foi apenas mais um episódio de tensão entre a ministra e os sindicatos da polícia — que se manifestaram em pleno Aeroporto Humberto Delgado. Mas antes a relação já não era a melhor. Em novembro do ano passado, o presidente da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia (ASPP/PSP) decidiu abandonar as negociações com o Governo. “A ASPP abandona as negociações porque a proposta apresentada não vai ao encontro daquilo que esperaríamos”, disse à Lusa Paulo Santos, líder do maior sindicato da PSP.
Mas mesmo com intervenções públicas criticadas e vários pedidos de demissão (que agora se repetiram), Maria Lúcia Amaral foi segurada por Luís Montenegro. Até que em janeiro deste ano voltou a estar no foco mediático pela gestão das tempestades. A cena voltou a acontecer. Demorou a reagir, chegou ao terreno alguns dias depois e cometeu gafes. “Isto [a gestão das tempestades] pressupõe uma aprendizagem coletiva”, disse, perante um Presidente da Câmara de Leiria cansado e sem meios para devolver a normalidade ao município.
Antes da antiga Provedora da Justiça, passou pelo ministério Margarida Blasco. Entre a queda do Governo e a tomada de posse da nova ministra, várias fontes na área ouvidas pelo Observador confessaram a “desilusão” com Blasco, a quem reconheciam capacidades teóricas — foi Diretora-Geral do Serviço de Informações de Segurança e Inspetora-Geral da Administração Interna. Mas a comunicação nunca foi o seu forte. A sina repetiu-se com Maria Lúcia Amaral.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
“Vamos embora”. Ministra falou pouco durante o combate aos incêndios e foi criticada por desvalorizar a falta de meios aéreos
Tão certo como este ser um ministério complexo e uma máquina de triturar governantes, é o principal desafio destes ministros ser, quase sempre, os incêndios. O primeiro-ministro sabia-o quando escolheu uma nova cara para a pasta, mas pesava, antes de todo o resto, a indisponibilidade de Margarida Blasco em continuar no cargo num novo Governo, como avançou em abril o Observador, que referia motivos pessoais e familiares como entrave.
A anterior ministra deixou pelo menos o assunto das forças de segurança bem encaminhado. Assim, quando tomou posse, Maria Lúcia Amaral tinha pouco tempo para se focar na fase crítica de incêndios — posição ingrata, já que, como é do conhecimento de bombeiros e Proteção Civil, os fogos combatem-se com (muita) antecedência.
Para ajudá-la, a nova ministra continuava com dois repetentes como secretários de Estado: Telmo Correia (que continuou como Secretário de Estado da Administração Interna) e Paulo Simões Ribeiro (que passou a ser Secretário de Estado Adjunto da Administração Interna), deixando o cargo de Secretário de Estado da Proteção Civil para Rui Novo Rocha, a cara fresca da equipa.
A primeira prova de fogo chegou pouco mais de um mês depois de ter assumido o cargo. Em julho, quando centenas de bombeiros combatiam dezenas de incêndios em todo o país, Maria Lúcia Amaral desvalorizou a falta de meios aéreos. “A complexidade das operações é tal que não ajuda nada saber quantos meios aéreos temos”. A frase soou estranha a muitas pessoas, mas a ministra não se ficou por aí.
Na mesma ocasião, antes de anunciar, irritada e sem o conhecimento da Proteção Civil, uma visita à sede da ANEPC, acrescentou que “a intervenção dos meios aéreos” seria irrelevante, uma vez que as dificuldades do combate, segundo a governante, residiam “nos problemas da orografia acidentada” e nas “dificuldades de acesso” às frentes de incêndio.
Mais uma vez, as declarações não foram bem recebidas, mas o Secretário de Estado da Proteção Civil apressou-se em apagar o fogo: “Os meios aéreos são essenciais, como é evidente. (…) O que relevava a senhora ministra (…) é que em determinados teatros de operações, os meios aéreos dão um contributo importante, mas não resolvem todas as circunstâncias”.
Foi a primeira intervenção da ministra durante a crise e houve imediatamente uma necessidade de controlar os danos com uma frase pouco esclarecedora. Mas houve outra frase que revela, se não a falta de preparação da governante, pelo menos o desconhecimento da pasta. Acompanhada por Luís Montenegro, a máxima responsável pela resposta do Governo nesta situação assumiu que também ela, “como a maior parte das pessoas” não dominava o tema do combate aos incêndios.
Vincou que foi por esse motivo que se dirigiu, com o primeiro-ministro, à sede da Proteção Civil: “foi por isso que cá viemos, para obter informações”. “Oportunidade de conversas com responsáveis deu-nos uma imagem, mas pequena imagem, da complexidade de todas as operações”, resumiu Maria Lúcia Amaral.
Enquanto as chamas consumiam boa parte do mato português, o silêncio da ministra era ensurdecedor. Para evitar gafes ou más interpretações das palavras da ministra só havia uma solução para evitar os danos: evitar a exposição desnecessária.
Maria Lúcia Amaral foi escapando, mas quando voltou a falar, não correu bem. A 18 de agosto, a ministra deu a cara numa conferência de imprensa. Falou pouco. Disse que persistiam as condições meteorológicas “muito desfavoráveis”, prolongou por mais 48 horas a situação de alerta, agradeceu aos elementos que combatiam as chamas e enalteceu o apoio estrangeiro.
Depois, quando os jornalistas começavam as perguntas, Maria Lúcia Amaral empilhou as folhas que tinha, levantou-se e virou-se para a comitiva, deixando escapar um apressado “vamos embora” que ainda foi captado pelos microfones — tudo enquanto um jornalista tentava terminar a pergunta que tinha começado ainda com a ministra sentada.
JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA
Foi, talvez, o momento mais crítico e mais visível da fragilidade da ministra perante a comunicação social. O tema não passou impune à oposição: a ministra foi chamada ao Parlamento e, pela primeira vez desde a tomada de posse, ecoaram pedidos de demissão, que não chegaram aos ouvidos do primeiro-ministro.
No dia seguinte a essa intervenção, a ministra apareceu ao lado de Marcelo Rebelo de Sousa. O experiente Presidente pareceu desvalorizar as críticas a Maria Lúcia Amaral, mas assumiu, implicitamente, a falta de estudo da professora catedrática sobre a pasta que tinha em mãos. “Admito que quem acaba de chegar há dois meses esteja a descobrir os problemas e as respostas a dar”. Mas mostrou-se esperançoso: “isso também se aprende”.
Alguns dias depois, com a situação dos fogos mais calma, a ministra assumiu que “nem tudo correu bem“, mas congratulou-se por não ter havido “colapso”. “Agora é tempo de compreender o que se passou e de avaliar”.
Ministra não apaziguou relação com polícias, que pediram a demissão. É “incapaz de assegurar a estabilidade”, acusaram
Até pelo menos ao Natal, a ministra foi escapando aos holofotes. As críticas mantiveram-se, mas com problemas mais relevantes no setor, as atenções desviaram-se e recaíram, sobretudo, na ministra da Saúde. Mas nem quando as suas gafes estavam longe das notícias a ministra evitou as polémicas.
O tema parecia estar serenado com as negociações levadas a cabo por Margarida Blasco, mas a remuneração dos polícias da PSP e dos militares da GNR continuava em cima da mesa. Em outubro, o verniz estalou e a ASPP/PSP fez um ultimato à ministra. “Vai ser dada uma última oportunidade à ministra”, disse à Lusa Paulo Santos, presidente do maior sindicato da PSP. O desafio estava lançado, ou era apresentada uma proposta concreta sobre as remunerações com efeitos a partir de janeiro de 2026, ou o sindicato iria abandonar as negociações, ameaçando protestos.
Apesar de elogiarem a importância do acordo conseguido em 2024, criticavam a “má-fé do Ministério da Administração Interna” por “empurrar para 2027” a valorização remuneratória e a falta de propostas concretas do Governo, que acusavam de ter um Orçamento do Estado “omisso e fechado” sobre o acordo.
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Maria Lúcia Amaral tinha até 28 de novembro, segundo a ASPP/PSP, para se chegar à frente. Um mês depois, Paulo Santos cumpriu com a palavra, depois de considerar a proposta insuficiente. “A ASPP abandona as negociações porque a proposta apresentada não vai ao encontro daquilo que esperaríamos em relação às tabelas remuneratórias, suplementos e portaria de avaliação”, disse à Lusa. Depois de acusar o Governo de não “cumprir integralmente o acordo assinado” em 2024, disse que a direção do sindicato iria reunir para decidir ações de protesto.
A situação não só não se apaziguou como se alastrou. A 5 de dezembro, o Sindicato Nacional da Polícia pediu a demissão da ministra, considerando-a “incapaz de assegurar a estabilidade” das polícias. “A única forma de evitar a repetição de protestos massivos em todo o país passa pela demissão da atual ministra e pela nomeação de um novo responsável político para o Ministério da Administração Interna, uma vez que se tornou evidente, para a classe policial, que a atual ministra da Administração Interna não reúne as condições políticas nem institucionais necessárias para continuar a tutelar a pasta das forças de segurança”, escreveram num comunicado.
A relação conturbada com polícias não ficaria por aqui e ganhou novos contornos com a criação da Unidade Nacional de Estrangeiros e Fronteiras (UNEF) da PSP, com a complicada missão de assegurar algumas competências do extinto Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), nomeadamente a segurança aeroportuária e o controlo fronteiriço.
FILIPE AMORIM/LUSA
Assumiu que o sistema “pifou” e foi criticada por não ter preparado plano de contingência a poucos dias do Natal
Entre crises (de incêndios e tempestades) a ministra da Administração Interna foi aparecendo em eventos de agenda, sobretudo com a GNR ou com a PSP, mas foi no Parlamento que acabou por ter mais tempo de antena. A primeira audição na Comissão dos Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias só chegou a 16 de dezembro e logo numa sala cheia de deputados para responder a um tema que dominava a discussão: as longas filas nos aeroportos e a eventual suspensão do controlo de fronteiras num período crítico, o Natal.
Foram discutidos outros assuntos, mas esse tópico dominou as questões dos deputados da oposição que procuraram saber, afinal, como estava a ser preparada a enorme afluência de passageiros na época festiva — quando era mencionada a hipótese de se adaptar o controlo de fronteiras nos aeroportos. “Claro que nunca esteve em causa” suspender totalmente o controlo de passageiros, garantiu na altura a ministra. “Seria uma ideia louca deixar entrar toda a gente. É uma coisa louca, não me passou pela cabeça. O que é admissível é o recurso excecional ao controlo simplificado, que implica a suspensão da possibilidade da recolha de todos os dados”.
O relato da ministra esbarrou na realidade relatada por vários polícias ao Observador. “A senhora ministra não está munida de informação para poder, às vezes, pronunciar-se sobre algumas realidades da PSP. (…) A ministra, quando se pronuncia sobre situações desta natureza, desta dimensão e desta responsabilidade, das duas uma: ou está a tentar branquear a situação ou não está com a informação necessária para poder emitir qualquer opinião sobre esta matéria”, respondeu o líder da ASPP/PSP.
Certo é que na comissão, a ministra recusou comprometer-se com uma decisão. “Não depende apenas de mim. (…) Não tenho uma resposta fechada sobre esse tema. Da parte que me toca, a minha posição seria de evitar [essa medida]”. Assumiu que o plano de contingência estava a ser tratado e ainda pensado, a poucos dias do Natal. Os deputados criticaram-na por estar a fazer uma “gestão aeroportuária (…) em cima do joelho”.
Apesar da falta de resposta a um problema apontado por vários agentes, sobretudo no Aeroporto de Lisboa, onde se acumulavam filas com longas horas de espera e onde a utilização do método simplificado, que deveria ser excecional, ocorria com muita regularidade, a audição ficou marcada por outro momento. Quando justificava a falha nos serviços de controlo aéreo, Maria Lúcia Amaral disse que um dos servidores “pifou” (há “dois grandes servidores” que permitem o funcionamento dos sistemas de recolha de dados dos aeroportos: um instalado na AIMA e outro na Secretaria-Geral da Administração Interna).
“Hoje [terça-feira, dia “particularmente crítico de tráfego aéreo”], justamente na madrugada, o que aconteceu é que um dos servidores que está alojado na Secretaria-Geral do MAI, pelo menos foi a informação que me deram, teve… não pifou, mas por momentos pifou, bastou isso”. Mais uma vez, a comunicação de Maria Lúcia Amaral voltou a ser notícia.
Curiosamente, a ministra teria agendado um regresso à Comissão dos Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias, depois de ter sido aprovada, por unanimidade parlamentar, a audição urgente para responder sobre os efeitos da passagem da depressão Kristin em Portugal, sobretudo as falhas da rede de comunicações SIRESP.
MIGUEL A. LOPES/LUSA
Ministra não resistiu às tempestades. “Não sei o que falhou”
2026 não trouxe uma vida nova para a ministra. Na véspera da chegada da depressão Kristin a Portugal, os portugueses assistiam ao debate entre António José Seguro e André Ventura. Ao mesmo tempo, a Proteção Civil desdobrava-se em avisos: estava uma tempestade a caminho, e não era uma depressão como as outras.
O tempo deu razão aos alertas das autoridades. Na manhã seguinte, já se conhecia uma morte. Os números, que ainda não pararam de crescer, pintaram um cenário trágico. Até ao momento, morreram pelo menos 15 pessoas devido às várias tempestades que se sucederam em território continental. A Kristin passou por Portugal a 28 de janeiro, mas a ministra, como no verão, só falou passados alguns dias.
E, mais uma vez, surgiram os comentários mal interpretados. A 3o de janeiro, quando falou pela primeira vez em público depois da tempestade, justificou o silêncio e a ausência do terreno com o trabalho feito longe das câmaras. “Sou a responsável pela Administração Interna, com toda a honra, e sou por isso responsável pela Proteção Civil, com muita honra. (…) Quero explicar aos jornalistas que há muito, muito trabalho que se faz em contexto de invisibilidade, no gabinete de trabalho, de informação.”
A “invisibilidade” da ministra continuou a ser tema até que, a 2 de fevereiro, voltou a repetir uma conversa antiga. Se nos incêndios disse que “nem tudo correu bem”, e na gestão dos aeroportos assumiu falhas, desta vez voltou a falar em erros, mas acrescentou: “Não sei o que falhou. Não posso dizer exatamente o que falhou. O sistema é complexo e é preciso ter em conta que as necessidades são muitas. Há aspetos múltiplos: comunicações, falta de energia. Tudo isso pode ter contribuído para que se sentisse a falta [de apoio] durante mais tempo”.
Mas antes da assunção desse erro cuja origem desconhecia, Maria Lúcia Amaral foi criticada por outra intervenção. As câmaras captaram uma conversa entre a ministra e o autarca de Leiria. Perante um agastado Gonçalo Lopes, a tentar responder aos apelos dos munícipes, a ministra desabafou: “Isto pressupõe uma aprendizagem coletiva, sabe? De parte a parte. A todos os níveis. A nível central, local, societal também”.
Dias depois, quando as críticas à comunicação do Governo eram já muitas, Marcelo assumiu: “a falta de clareza já custou muito a determinados governos”. Neste caso, custou caro à ministra que falou pouco e quase sempre de forma controversa. Luís Montenegro procura agora um novo responsável para um cargo que não tem sido fácil para quem por ele passa.