Maria: a bebé que nasceu com a troika

19 Maio 2014652

Quando José Sócrates anunciou ao país o acordo para o resgate financeiro, Vera Agostinho e Guilherme Cruz já tinham chorado muito, mas de alegria. Maria nasceu a 3 de maio.

A família estava na sala de espera quando a epidural fez efeito. Consumiu-lhe o nervoso miudinho e fê-la esquecer as dores do parto. Muitas. Como convulsões teimosas. Eram 12h57 daquele dia 3 de maio quando lhe puseram a Maria nos braços: 3,180 quilos e 48 centímetros difíceis de aconchegar de tão diminutos. Naquele momento, Vera Agostinho e Guilherme Cruz esqueceram tudo. Abraçados no quarto do hospital, despejaram lágrimas e esboçaram sorrisos. Uma vida nova a cerca de sete horas e oito quilómetros do Palácio de São Bento, Lisboa, onde o então primeiro-ministro, José Sócrates, iria anunciar que o País chegara a acordo com a troika para um programa de resgate. Passaram três anos.

A primeira versão do “Memorando da troika” tem a data e a primeira hora de vida de Maria. Vera Agostinho recuperava do parto no hospital dos Lusíadas, em Lisboa, quando José Sócrates, já demissionário, falou ao país. Foi o dia em que muitos portugueses perceberam que os três anos seguintes seriam de austeridade. “O dia em que a Maria nasceu foi o dia mais importante da vida de muita gente”, recordou Vera, hoje com 32 anos, no blogue dedicado à família. Referia-se aos seus familiares próximos, mas, afinal, aquele dia ia ser “importante” para muito mais gente.

Maria começou a ser pensada mais de um ano antes. Naquele primeiro trimestre de 2010, um relatório da Associação Empresarial de Portugal, baseado em dados da Comissão Europeia, indicava retoma no consumo privado em Portugal, face à “clara desaceleração” registada no final do ano anterior, com sinais positivos no investimento – embora sem “concluir pelo regresso da retoma”. Longe destes números, Vera enterrara o sonho de ser jornalista, depois de uma licenciatura que lhe trouxe pouco mais do que estágios não remunerados. E trabalhava como empregada de mesa.

Conseguiu o trabalho em 2008. Foi de chinelos de enfiar no dedo e de calças de ganga à entrevista. O “brasileiro simpático” de um restaurante no Bairro Alto telefonou-lhe no próprio dia a dizer que ficava. Havia dias, já de madrugada, em que o dinheiro ganho servia apenas para pagar o táxi de regresso a casa. Mas foi ali que a vida dela mudou. Na cozinha conheceu o chef Guilherme, por quem se apaixonou. Na sala, foi reunindo histórias com as quais foi alimentando um blogue e o “bichinho” da escrita. Acabou por publicá-lo em livro.

Aquele ano de 2010 foi de emoções. Depois da alegria de publicar um livro, veio a tristeza de uma gravidez falhada. Um aborto espontâneo. Culpou o esforço físico do trabalho, chorou, mas não desistiu. Em agosto descobriu que estava novamente grávida. Maria vinha a caminho. Vera deixou de trabalhar naquele instante e passou o período da gravidez a preparar-se para a nova vida. No dia antes do anúncio do resgate, limpou a casa e dormiu tranquilamente. “É aquele síndrome do ninho”, diz ao Observador.

"Pensámos no que pagaríamos de creche e no dinheiro que sobrava. Com a cabecinha de pais de primeira viagem achámos que não valia a pena"
Vera Agostinho

Dois dias antes de Maria completar um mês, o PSD ganhava as eleições com 39% dos votos, coligando-se depois com o CDS. O País conhecia já o memorando de entendimento que permitia a Portugal receber 78 mil milhões de euros. Em troca, a imposição de uma série de reformas em todos os setores do Estado. Mas as medidas concretas iam saindo aos bochechos. O primeiro impacto veio no final do junho com o anúncio do primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho: cortes no subsídio de Natal. “A intenção é que o peso desta medida fiscal temporária seja equivalente a 50% do subsídio de Natal acima do salário mínimo nacional”, disse. Precisamente o contrário do que Sócrates havia anunciado a 3 de maio: “o acordo que o Governo conseguiu não mexe no 13º mês, nem no 14º mês”.

A evolução de Maria quase acompanhou as primeiras reformas. Em agosto de 2011, a primeira gargalhada, lê-se no diário de Vera. Em setembro, enquanto Portugal passava na primeira de doze avaliações da troika, ela comia papa pela primeira vez. E Vera, dedicada a ser mãe a tempo inteiro, tomou outra importante decisão: não voltar a trabalhar. “Começámos a fazer contas e, com o que teria de pagar de colégio, sobrava pouco. Prefiro ficar com a minha filha do que ter luxos como ir ao cinema ou jantar fora”. A escolha veio a revelar-se acertada quando Maria completou nove meses. Vera descobriu estar novamente grávida.

Corria outubro quando Passos Coelho apresentou o Orçamento do Estado previsto para 2012. Mais cortes. As “medidas são temporárias” alertou. Mais uma vez. Maria já conseguia sentar-se sem a ajuda da mãe. Gatinhar ou pôr-se de pé é que ainda não. Como Portugal. Dois meses depois, rompia o primeiro dente de Maria. Com ele as febres e os períodos de espera no serviço de urgências. Na Saúde também chegaram mudanças. A partir de Janeiro, anunciava o Governo, os preços das taxas moderadoras iriam duplicar: nos centros de saúde, de 2,25 para cinco euros, e nas urgências hospitalares de 9,60 para 20. “Não me apercebi de nada. No supermercado sim, as coisas estavam mais caras, mas eu ainda penso em escudos, o que me obriga depois a converter para euros”.

Maria ainda era demasiado bebé para perceber o que era o Natal. Mas para Vera era o primeiro como mãe. E para Passos Coelho, o primeiro como ministro à frente de um país de “desigualdades e injustiças de muitos aspetos da sociedade portuguesa”, como ele próprio admitiu na mensagem de Natal. No mesmo discurso lembrava aquilo que Vera não ouviu, mas que sentiu na pele: “a taxa de desemprego continua a afetar sobretudo os jovens – o desemprego jovem superou já os 30%”. Anunciou reformas estruturais na economia para 2012. E rematou: “uma sociedade que se preza, não pode desperdiçar nem os seus jovens nem as pessoas que se encontram na fase mais avançada da sua vida ativa.”

Vera chegou a ocultar no currículo que era licenciada em jornalismo. Também nunca disse que tinha um blogue. Até começar a perceber que grande parte dos colegas de trabalho, muitos imigrantes, eram licenciados. “Alguns não tinham trabalho e estavam a trabalhar como empregados de mesa. O gerente, por exemplo, era licenciado em marketing. Outras pessoas trabalhavam para pagar o curso”.

"A vida de uma empregada de mesa pode ser muito mais interessante do que a maioria das pessoas imagina, sobretudo porque temos de lidar com duas espécies muito complexas: os clientes e os chefes de cozinha".
Vera Agostinho, no blogue "pshht, ó menina"

2012 começou com acordos de concertação social e mexidas no Código Laboral. Em casa, Maria começava a dizer as primeiras palavras. “Mamã, papá e olá”. Continuava sem gostar de chuchas. “É uma menina muito tranquila e simpática”, descrevia Vera no blogue. A cada minuto, acrescentou, “aprende uma coisa nova”. Era persistente. “Devemos persistir, ser exigentes, não sermos piegas”, dizia, por essa altura, Passos Coelho ao País, depois de ter recusado tolerância de ponto para o feriado de Carnaval. Vera nunca gostou do Carnaval, mas lembrou-se do álbum de fotografias que um dia iria mostrar a Maria. Colocou-lhe umas asas nas costas e mascarou-a de borboleta. A “Maria Borboleta”.

Aos dez meses, Maria dormia mal. O dente que tentava perfurar-lhe a gengiva provocava-lhe dores e tirava-lhe o sono. Mas havia mais quem tivesse dificuldades em adormecer. A comunicação social dava conta de que mais de 100 mil portugueses tinham os ordenados penhorados. As estimativas da Câmara dos Solicitadores centravam-se numa explicação: nos últimos anos, os portugueses “endividaram-se sem limites” e, com a crise económica, “as pessoas começaram a ter cada vez mais dificuldades em cumprir com as suas obrigações” afirmava Carlos de Matos, presidente do Colégio da Especialidade dos Agentes de Execução.

Maria também avançava depressa. Não quis aprender a gatinhar. Mal sentiu força nas pernas, levantou-se e tentou andar. “O mundo na vertical”. A mãe, Vera, que não contraiu qualquer empréstimo e vive, sempre viveu, numa casa arrendada, preocupava-se em vigiar a pequena para ela não cair. Corria março. O Tribunal de Contas chumbava o TGV, previsto entre o Poceirão e Caia, por descobrir ilegalidades no caderno de encargos. O BPN, já nacionalizado, era vendido ao BIC por 40 milhões de euros. Nas mãos do Estado ficava o que os angolanos não quiseram: todos os ativos tóxicos, como o crédito malparado, colocados em duas empresas públicas, a Parvalorem e a Parups. Mais empréstimos por pagar.

Vera começou a preparar a primeira festa de aniversário de Maria com um mês de antecedência. Queria uma festa temática, “vintage”, para assinalar a data. A sala foi decorada a rigor. Com rendas, molduras e cores rosa e branco na decoração e no vestido de Maria. Completava-se um ano do anúncio de José Sócrates e de troika em Portugal quando Maria soprou a primeira vela. Nos meses que se seguiram anunciaram-se mais aumentos: IMI, combustível, Taxa Social Única. O crédito malparado não parava de crescer. Em Julho um volte face: o Tribunal Constitucional considerou inconstitucional a suspensão do pagamento dos subsídios de férias e de Natal dos funcionários públicos, pensionistas e reformados. Foi a primeira de seis vezes que o TC foi chamado a pronunciar-se durante os três anos de presença da troika.

Vera estava quase a ter Miguel quando o ministro das Finanças, Vítor Gaspar, anunciou um “enorme aumento de impostos”, em outubro. As alterações aos escalões do IRS, uma sobretaxa de IRS de 4% (que acabou fixada nos 3,5%) e a reposição dos subsídios à Função Pública e aos pensionistas. Mais uma vez o governante sublinhou que os sacrifícios não seriam “para sempre”. Um mês depois, várias famílias portuguesas saíam à rua em sinal de protesto numa manifestação convocada pela CGTP – que começou no Rossio e terminou à porta da Assembleia da República com carga policial, feridos e detidos. Vera ficou em casa com os filhos.

O ano de 2013 seria de retoma. Pelo menos assim apregoava o Governo. Mas o ordenado de Guilherme, namorado de Vera, sofrera cortes e a família aumentara com o nascimento de Miguel. O ano parou em fevereiro, quando ele recebeu uma proposta de emprego para trabalhar na Noruega. Vera apoiou e decidiu que mudariam todos. Era importante que a família ficasse unida. Guilherme arrancou para Oslo, ainda esteve em Tromsø em formação, e Vera ficou sozinha com os filhos enquanto esperava condições para juntar-se a ele.

Ficou no País onde o ministro-adjunto dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, se demitiu após várias polémicas sobre a forma como se licenciou na Universidade Lusófona. Ficou no Portugal que, nos meses seguintes, perdeu o ministro das Finanças. Em pleno período de ajuda externa, Vítor Gaspar demitiu-se. E também o da Economia, Álvaro Santos Pereira, na sequência de uma remodelação. Mais. O País onde, após estas mudanças, o ministro dos Negócios Estrangeiros (CDS), Paulo Portas, se demitiu numa decisão que afirmou ser “irrevogável”. Dias depois, aceitou mudar de pasta no Governo e subiu a vice primeiro-ministro.

As mudanças políticas alinhavam-se, desta vez, com a solidão de Vera, que só conseguiu juntar-se ao marido em setembro. “Estive lá quase quatro meses e nem consigo falar das diferenças culturais. Achei a cidade feia… tudo muito escuro”, diz. A experiência tinha razão de ser. “Um dia ter alguma coisa para lhes dar [aos filhos]. Não houve outra razão senão a do dinheiro”. Mas a falta do sol, “de pessoas calorosas”, da família, fizeram-nos questionar a decisão. “Eles dormiam muito, porque ao meio-dia já começava a ficar escuro. Faziam sestas intermináveis de cinco, seis horas. Não tínhamos uma casa nossa. Foi muito difícil”, conta Vera. Em Portugal o assunto do dia era o cumprimento do plano de ajuda, na Noruega, Vera e Guilherme falavam em testar o regresso a Portugal para “recuperar a Maria”.

“Tudo o que a Maria nos dá supera mil e uma vezes o que a troika nos tem tirado, mas tem sido difícil”.
Guilherme Cruz

A família aterrou no aeroporto da Portela para o Natal. Maria e Miguel dormiam e não sentiram os beijos e os abraços dos avós e dos tios. No outro dia de manhã, Maria tinha uma árvore de Natal, a que já tinha pedido. Percebeu que estava em casa. Sorriu e voltou a ser como antes. Vera decidiu que a casa deles era em Portugal, e não na Noruega. “A principal razão para termos vindo embora foi a Maria. Eu não estava bem, porque ela não estava bem. Eu e o Guilherme acabávamos por discutir porque não conseguíamos lidar com a situação”, explica. “Aqui há sol” e eles são felizes. Maria fez três anos a 3 de maio. Comemorou-os ao sol, no parque perto de casa, em Lisboa. À tarde visitou o jardim zoológico. Agora pede à mãe para ir para a “escola” e levar o irmão. “Como os outros meninos”.

Vera sabe que está tudo mais caro. Continua sem acompanhar a estadia e a “saída limpa” da troika em Portugal. E sem saber que, afinal, algumas medidas “provisórias” tendem a ficar. O marido ainda foi à Noruega buscar as coisas e ganhar o ordenado de um mês para a família poder voltar a comprar um carro. “Posso dizer que tudo o que a Maria nos dá supera mil e uma vezes o que a troika nos tem tirado, mas tem sido difícil”, confessa Guilherme. Ele que regressou ao posto de trabalho no restaurante do Bairro Alto, onde tudo começou. Ela quer voltar a ser mãe.

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