O que é que a Gronelândia tem? E Trump quer mesmo comprar? /premium

22 Agosto 2019192

A ideia passou de notícia, a piada, a incidente diplomático, mas é difícil perceber se tem fundamento. A Gronelândia tem riqueza natural e interesse geoestratégico, mas pode não passar de um bluff.

Começou por ser uma notícia avançada por fontes anónimas aos jornais, há menos de uma semana. O Presidente norte-americano teria demonstrado interesse, durante algumas reuniões e até num jantar, em comprar a ilha da Gronelândia, região autónoma da Dinamarca. A Casa Branca estaria mesmo a investigar essa possibilidade, para informar Donald Trump do que implicaria a compra. Daí à notícia tornar-se motivo de piada, sobretudo na Internet, foi um passo.

Mas eis que Trump confirmava a alto e bom som que está de facto interessado e que isso não é brincadeira. “No fundo, é um grande negócio imobiliário”, declarou aos jornalistas. Depois foi ele próprio a fazer uma piada online: no Twitter, publicou uma montagem de uma Trump Tower no meio das pequenas casas coloridas espalhadas pela ilha, com a legenda “Prometo não fazer isto à Gronelândia!”

O assunto podia ter ficado por aqui. Só que ação provoca reação e os dinamarqueses e gronelandeses não acharam graça ao facto de se terem tornado quer objeto de piada, quer potenciais vendedores num negócio cujos pormenores não conhecem. “A Gronelândia não está à venda”, declarou a primeira-ministra dinamarquesa Mette Fredriksen. “Espero mesmo que isto não seja a sério.” E a seguir à reação veio outra reação, com Trump a deixar claro que, para si, nada disto é brincadeira e a cancelar a visita de Estado que estava planeada à Dinamarca. O Presidente norte-americano aproveitou ainda para dizer que Fredriksen foi “desagradável” ao classificar a ideia como absurda. “Ela só tinha de dizer ‘não, não estamos interessados’”, afirmou. Subitamente, já ninguém se estava a rir com o assunto Gronelândia.

A Gronelândia é a maior ilha do mundo, mas tem apenas 56 mil habitantes (Ashley Cooper/Construction Photography/Avalon/Getty Images)

Como é que um tema aparentemente inócuo se torna um incidente diplomático? Trump estava a brincar ou a falar a sério quando propôs comprar a ilha gelada de 56 mil habitantes? A compra faria sentido? Ou tudo isto não passa de fumaça destinada desviar atenções de algo que o magnata possa querer esconder? Os especialistas ouvidos pelo Observador apontam para os precedentes e para o potencial do Ártico, mas não levam a ideia do Presidente a sério. Certezas, para já, são apenas aquelas sobre o que move Trump e a sua eficácia: a mentalidade do homem de negócios, a ação por instinto e um talento nato para desviar atenções dos temas desagradáveis.

“O senhor Trump está a agir de improviso”, aponta Iwan Morgan, especialista em Estudos Norte-Americanos e da presidência dos EUA da University College of London ao Observador. “Ele sente-se pessoalmente insultado pela recusa da primeira-ministra dinamarquesa em levar isto a sério. Quem está a falar é o magnata do mobiliário, não é o Presidente dos Estados Unidos”, resume. Já Stephan Lewandowsky, professor de Psicologia Cognitiva na Universidade de Bristol e responsável por vários estudos de análise às reações à presidência Trump, é taxativo noutro ponto: “Trump parece ser muito bom a desviar as atenções e já temos provas quantitativas disso mesmo. Portanto, quando ele diz algo que parece absurdo, vale a pena olhar em volta para o mundo real e tentar identificar o que está a provocar isto.”

As “riquezas potenciais” da ilha existem. Mas para quê comprar a Gronelândia “quando se tem o Alasca?”

Em primeiro lugar, é preciso olhar para a questão de base — a hipotética compra da Gronelândia pelos Estados Unidos — e perguntar: isto faz sentido? Para Malte Humpert, investigador do norte-americano Instituto do Árctico, a resposta é só uma: “Isto é completamente ridículo. Já não estamos no século XIX, em que se podia andar aí a comprar países ou regiões autónomas.”

A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Fredriksen, classificou a ideia de comprar a Gronelândia como absurda (MADS CLAUS RASMUSSEN/AFP/Getty Images)

O especialista em geopolítica do Ártico e consultor em política energética reconhece o potencial da Gronelândia, tanto em termos económicos como em questões estratégicas. Mas, para Humpert, isso não torna a ideia numa boa ideia. A começar pelas questões práticas: “Ainda não vi nenhuma sondagem, mas não me surpreenderia que mais de 90% dos cidadãos da Gronelândia se opusessem a fazer parte dos EUA. Porque é que haviam de querer? A maioria dos indicadores sociais e económicos dos EUA são significativamente piores do que os da Gronelândia e da Dinamarca.”

E a vontade popular é fulcral neste tema já que, de acordo com o Direito Internacional e com a própria Constituição dinamarquesa, os gronelandeses têm de deixar claro que querem alterar a sua situação. Como explicou um jurista dinamarquês ao New York Times, primeiro a Gronelândia teria de se tornar independente da Dinamarca e, só depois, poderia expressar vontade de fazer parte dos EUA.

Trump terá esperança de que os mais de 700 milhões de euros que a Dinamarca gasta anualmente em subsídios dados à Gronelândia pudessem servir de motivação para se livrarem da ilha. Mas num país com um nível de dívida baixo (1,3% do PIB), cujo PIB per capita está no top dez mundial e cuja economia faz parte das quarenta mais saudáveis do mundo — apesar de ter uma população abaixo dos seis milhões de habitantes —, esses 700 milhões não são problemáticos e justificam-se pelos laços históricos.

O professor Iwan Morgan, contudo, relembra que não seria a primeira vez que os Estados Unidos compravam território a outros: “Os EUA adquiriram grande parte do seu território através de compras no século XIX: foi o caso da bacia do Mississippi, da Flórida e do Alaska, por exemplo, embora sejam todos territórios continentais”, aponta. “Curiosamente, a última vez que os EUA compraram um território não-contíguo foi à Dinamarca, em 1917. Foram as Índias Ocidentais Dinamarquesas [atualmente chamadas de Ilhas Virgens], como forma de prevenir que fossem perdidas para a Alemanha se o Kaiser ordenasse a invasão da Dinamarca na I Guerra Mundial.”

“Isto é completamente ridículo. Já não estamos no século XIX, em que se podia andar aí a comprar países ou regiões autónomas.”
Malte Humpert, investigador do Instituto do Ártico

Este é o precedente histórico, mas o especialista em Estudos Norte-Americanos não tem dúvidas em afirmar que comprar “a Gronelândia seria muito diferente”. É verdade que os norte-americanos já o tentaram: em 1946, o Presidente Harry Truman ofereceu aos dinamarqueses 100 milhões de dólares em ouro e uma possível parte do Alaska em troca da Gronelândia. O negócio não se concretizou, porque acabou por não ser preciso, já que os dinamarqueses deram aos americanos aquilo que eles queriam: uma base aérea na ilha, que ainda hoje existe.

Se esse era um objetivo bem delineado pela política do pós-II Guerra Mundial, desta vez há dúvidas sobre o planeamento por detrás desta proposta. “Duvido que haja muitas políticas bem planeadas na administração Trump, quanto mais uma estratégia pensada para o Ártico…”, diz o investigador Humpert ao Observador. “Tenho a certeza que Trump leu qualquer coisa sobre ‘as riquezas potenciais futuras’ da Gronelândia e depois disse aos seus funcionários ‘devíamos comprá-la!’ e toda a gente respondeu ‘isso é uma grande ideia!’.”

As “riquezas potenciais futuras” a que Humpert se refere são os recursos naturais em minerais e petróleo, que se estima que existam na ilha. Como explicava, em 2014, um relatório do Brookings Institute, “há uma crença generalizada de que a Gronelândia é dotada de recursos muito bons e até de classe mundial em alguns casos”. Em concreto, o think tank explicava haver já explorações de minas de ferro, zinco, chumbo, níquel ou urânio” e que poderá haver “potencial para cobre e ouro”.

Um investigador em Geologia procura minerais na Gronelândia, classificada como uma espécie de paraíso virgem com potencial nesta área (Joe Raedle/Getty Images)

O especialista no Ártico, porém, desvaloriza por completo esse ponto. “É verdade que há um grande potencial de reservas de recursos. Mas — e isto é um grande mas — podem ser tecnicamente e economicamente irrecuperáveis. Se fosse fácil, já alguém o teria feito há anos”, afirma, dando como exemplo as tentativas de encontrar petróleo no mar da Gronelândia, que falharam. “À medida que o gelo derrete, pode ser mais fácil chegar a alguns recursos, mas o Ártico continuará a ser um lugar onde é muito caro e muito difícil fazer negócios.”

Se fosse o potencial económico a mover Trump, explica o especialista, não seria preciso adquirir uma ilha estrangeira: “Atualmente, há muito mais potencial económico (petróleo, gás e minerais) no Alasca, do qual os EUA já são ‘donos’, que não está a ser explorado. Porquê comprar a Gronelândia, que praticamente não tem infraestrutura nem atividade industrial em grande escala, quando se tem o Alasca ‘pronto a funcionar’?”, pergunta.

E se, afinal, tudo se resumir a uma rivalidade chamada China?

A resposta pode estar numa palavra de cinco letrinhas apenas, com a qual o Presidente norte-americano parece muitas vezes obcecado: China. O gigante asiático já acordou há algum tempo para o potencial de algumas zonas do Ártico, razão pela qual anunciou, em 2018, uma estratégia chamada “Rota da Seda Polar”, que pretende aumentar a sua influência económica na região.

Em concreto, na Gronelândia, a China já tem presença através de uma empresa australiana, a Greenland Minerals, cujo principal acionista é a chinesa Shenghe Resources Holdings, como relembra a Forbes. E, no final de 2018, a China demonstrou interesse em ganhar os concursos para construir três novos aeroportos na ilha — o que levou à intervenção direta do à altura secretário da Defesa, Jim Mattis, para convencer a Dinamarca a não permitir que Pequim ficasse com esses recursos. Copenhaga acabou por assumir as rédeas da situação e tentar ser o próprio país a financiar essas construções.

“Atualmente, há muito mais potencial económico (petróleo, gás e minerais) no Alasca, do qual os EUA já são ‘donos’, que não está a ser explorado. Porquê comprar a Gronelândia, que praticamente não tem infraestrutura nem atividade industrial em grande escala, quando se tem o Alasca ‘pronto a funcionar’?”
Malte Humpert, investigador do Instituto do Ártico

Malte Humpert, no entanto, não está convencido de que isso seja suficiente para motivar os EUA a atirarem-se de cabeça para um negócio deste tipo. “Em teoria, os EUA podem estar interessados na ideia de ‘vamos travar a China no Ártico’. Mas a China ainda não fez nada de concreto no Ártico, a não ser, em primeiro lugar, investir em petróleo e gás russos e, em segundo, enviar navios para passarem através do Ártico. A ideia de que eles estão a ‘comprar’ a região ou a construir infraestruturas é falsa”, avisa. “Esta administração não tem qualquer política coerente para o Ártico e a Casa Branca só demonstra interesse na região quando quer usar retórica forte contra a Rússia e a China noutras matérias, como por exemplo na guerra comercial.”

Assim se explica o discurso que o secretário de Estado Mike Pompeo tinha planeado fazer precisamente na Gronelândia em maio deste ano — mas cuja visita acabou por ser cancelada devido à tensão com o Irão. “A região tornou-se uma arena de competição e de poder global”, avisou dias antes o responsável pela diplomacia americana, num recado para a China. “Só porque o Ártico é um local selvagem, não significa que deva tornar-se num sítio sem lei.”

A China tem demonstrado interesse no Ártico através da sua Rota da Seda Polar, mas o investimento na Gronelândia ainda é incipiente (STR/AFP/Getty Images)

Dentro da Casa Branca, há quem se preocupe com o avanço geopolítico chinês na região, razão pela qual esta Administração decidiu passar a ter um responsável norte-americano na ilha durante metade do ano. “Os nossos adversários ficaram tão audazes com a nossa retirada do Ártico como ficaram no Médio Oriente ou na Ásia”, lamentava-se um funcionário do Departamento de Estado ao Politico em maio. E nos sectores mais conservadores da política norte-americana, alerta-se para a “importância da Gronelândia para a segurança nacional dos EUA”.

Os especialistas, contudo, duvidam que exista um compromisso a fundo desta presidência com a região e apontam para um exemplo concreto: a recusa do governo norte-americano em comprometer-se com as políticas de combate às alterações climáticas, que ajudariam a preservar o Ártico, como destacaram os restantes membros do Conselho Ártico na última reunião, reforçando o compromisso “da maioria” dos seus membros com esse combate. “As agências norte-americanas, como a Guarda Costeira ou a Marinha, nem sequer podem usar o termo ‘alterações climáticas’ nos documentos oficiais”, aponta Humpert, para lá da recusa em assinar o Acordo de Paris. “Isso mostra quão pouco entendimento ou interesse existe no impacto que as alterações climáticas têm na região.”

Como Trump consegue mudar o assunto — ou, pelo menos, pôr o mundo a falar do que lhe apetece

No domingo — antes de a visita de Estado à Dinamarca ter sido cancelada e de Trump ter chamado “desagradável” à líder dinamarquesa —, o Presidente dos Estados Unidos justificava uma possível compra da Gronelândia como sendo “um grande negócio imobiliário” que poderia fazer sentido “estratégico” para os norte-americanos. O seu conselheiro económico e responsável pelas negociações com a China, Larry Kudlow, apoiava: “O Presidente, que sabe uma coisa ou outra sobre imobiliário, quer dar uma olhada”, afirmou.

A ideia de fazer diplomacia como quem trata de negócios imobiliários não é algo novo nesta administração. Afinal de contas, Trump chegou a falar da Coreia do Norte como sendo um sítio “com grandes praias” onde se poderiam construir “excelentes condomínios”.

Antes da presidência, Donald Trump destacou-se como magnata do imobiliário (Joe McNally/Getty Images)

Para o académico Iwan Morgan, Donald Trump continua a pensar muito mais vezes com o chapéu de homem de negócios do que com o de Presidente e pode ser isso que se passa com a Gronelândia. A forma de contornar a influência chinesa estaria, assim, nos negócios: “Trump está a pensar no seu legado. Ele não tem muito mais a mostrar no campo da política internacional, portanto um promotor imobiliário como ele pensa logo em propriedade”, explica ao Observador.

“Um cínico poderia dizer que esta é outra das suas estratégias de Fusões e Aquisições a um nível nacional, em vez do simples nível empresarial. Se Trump quisesse mesmo deixar um legado na política internacional, poderia dedicar mais tempo a questões como a Síria, o Iémen ou as alterações climáticas. Não é por acaso que ele vê a sua marca na História como estando ligado à aquisição de propriedade.”

Se um cínico poderia dizer isto, outro poderia dizer que tudo se trata de uma estratégia para desviar atenções de assuntos mais complicados como a própria Síria ou Iémen — ou até mesmo dentro dos próprios EUA. É isso que a cartoonista do Washington Post Ann Telnaes tem feito repetidamente ao longo do tempo: ora desenha Trump aos pulos a aparecer de lados diferentes do ecrã enquanto diz ‘Olhem para aqui!’, ora coloca a cabeça do Presidente como bola de pingue-pongue manobrada por ele próprio enquanto grita ‘Comprar a Gronelândia! Maior multidão! Ganhar! Fake News!’ com o título “Trump está a tentar distrair-nos de novo”.

Essa é uma tese partilhada por muitos, como pelo estratega democrata Robby Mook, que lhe chamou “A Armadilha Trump”: aquela em que o Presidente, através “dos seus insultos e controvérsias desnecessários, cria uma constelação de indignações que desviam a responsabilidade das suas ações”. Não é preciso puxar muito pela cabeça para encontrar vários momentos ao longo da presidência em que algumas polémicas foram abafadas por outras, trazidas ao de cima pelo próprio Presidente:

Podem ser tudo coincidências, mas o investigador da Universidade de Bristol Stephan Lewandowsky acredita que não: para Lewandowsky, a distração é propositada e serve para desviar atenções de outros tópicos. E o professor de Psicologia Cognitiva diz tê-lo provado no estudo Beyond Misinformation: Understanding and Coping with the ‘Post-Truth’ Era, publicado em 2017.

“Aquilo que é importante perceber é que a imprevisibilidade e a aparente aleatoriedade do comportamento do Presidente, quer seja intencional ou não, está a corroer a crença pública de que é possível estabelecer determinadas coisas como factos ou como verdade. Ao fazer isto, estão a normalizar aquilo que ao início parecia uma ideia surreal e a preparar o terreno para outras ideias surreais no futuro. Essa normalização provavelmente favorecerá Trump na campanha para a reeleição”.
Stephan Lewandowsky, professor de Psicologia Cognitiva na Universidade de Bristol

“Um exemplo que observei foram alguns dos tweets dele no final de 2016 em que atacava repetidamente o elenco de uma peça da Broadway (Hamilton), porque eles tinham pedido uma América onde se valoriza mais a diferença no final de um espetáculo onde esteve presente o [vice-presidente] Mike Pence. Isto coincidiu com o momento em que Trump chegou a acordo no caso da sua ‘Universidade’ defunta, acordo esse em que ele pagou milhões de dólares e uma multa de um milhão”, explica ao Observador o investigador. “Isso foi claramente uma distração para o público, como podemos ver na análise do Google Trends”, diz, apontando para o desenho que mostra um pico de interesse online esmagadoramente maior pelo assunto Hamilton do que pelo assunto Universidade.

Imagem de análise através do Google Trends do interesse pelos temas ‘acordo da Universidade Trump’ e ‘Trump Hamilton’ durante o mesmo período de tempo, retirada do estudo Beyond Misinformation: Understanding and Coping with the ‘Post-Truth’ Era, de Stephan Lewandowsky (D.R.)

Mais recentemente, a colunista Kathleen Park, do Washington Post, relembrou que os ataques às congressistas norte-americanas não-brancas, a quem Trump disse para “voltarem para o lugar de onde vieram”, aconteceu precisamente na mesma semana em que a investigação a Jeffrey Epstein, milionário acusado de gerir uma rede de tráfico sexual de menores com quem Trump conviveu socialmente, ganhava gás. “Como sempre, é preciso questionarmo-nos: qual é a Outra Coisa que ele não quer que vejamos?”, perguntava a colunista.

Iwan Morgan aponta o abrandamento da economia americana, “em parte provocado pela guerra comercial com a China”, como sendo essa Outra Coisa possível neste momento. “A Gronelândia pode ser uma maneira de desviar as atenções dos media disso”, prevê. Já Lewandowsky não vai tão longe: “Não sou capaz de dizer em concreto o que será”, explica, referindo-se às análises online que tem feito. “Mas isso não quer dizer que não haja nada”, avisa.

“Aquilo que é importante perceber é que a imprevisibilidade e a aparente aleatoriedade do comportamento do Presidente, quer seja intencional ou não, está a corroer a crença pública de que é possível estabelecer determinadas coisas como factos ou como verdade”, reflete o professor da Universidade de Bristol. Essa estratégia traz os seus frutos, com alguns dos apoiantes do Presidente a apoiarem tudo aquilo que ele diz, explica o investigador, dando o exemplo de um colunista do Washington Post que elogiou esta semana a decisão de comprar a Gronelândia. “Ao fazer isto, estão a normalizar aquilo que ao início parecia uma ideia surreal e a preparar o terreno para outras ideias surreais no futuro. Essa normalização provavelmente favorecerá Trump na campanha para a reeleição”.

A correspondente do New York Times na Casa Branca, Maggie Haberman, também sugeriu que o caso Gronelândia poderia não passar de uma distração. Mas também apontou que, com Trump, nem sempre o mais importante é perceber quão bem delineada foi a estratégia, mas sim o seu resultado: “Às vezes as suas táticas são pré-planeadas, como quando deixa claro a Israel que quer que duas congressistas sejam proibidas de entrar no país. E às vezes ele simplesmente tropeça nelas, como quando sai uma história a dizer que ele está há meses obcecado com comprar a Gronelândia e ele alinha nisso”, escreveu no Twitter.

A habilidade mediática do Presidente faz com que, muitas vezes, o tema discutido passe a ser aquele que ele quer e não o que era referido anteriormente (Scott Olson/Getty Images)

Deliberado ou não, aquilo de que não há dúvidas é de que o Presidente norte-americano consegue pôr o mundo o falar daquilo que ele quer falar.  “Nunca devemos subestimá-lo. Ele sabe como controlar a agenda mediática e os media caem no colo dele. A Gronelândia é um exemplo clássico disso”, aponta ao Observador Iwan Morgan. “Em termos de assuntos mundiais, isto é completamente insignificante, mas aqui estamos nós a dedicar muitos centímetros de colunas de jornais a este tema, em vez de os dedicar aos problemas reais do mundo que Trump poderia tentar resolver.”

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