Para Mark Twain, ninguém ensinou inglês como Pedro Carolino

27 Agosto 2016

José da Fonseca morreu há 150 anos. Foi este autor que inspirou a obra histórica de Pedro Carolino, o "Guia de Conversação Portuguez-Inglez". Não é piada, ou como diria Carolino, "is not joke".

Diz-se hoje em dia que um livro, para alcançar fama universal, tem de se impor no exigente mercado Anglo-Saxónico. Que, sem o consentimento da crítica saxónica, de nada vale ao escritor jactar-se da sua fama intramuros, do reconhecimento nacional ou do domínio da sua língua. De nada vale exibir um prémio Cervantes na cinta dos livros, ou um ancho Goncourt ao pescoço; que são Cervantes ou os Goncourt diante de um esgar de surpresa na cara de um crítico da New Yorker ou de um parágrafo no Times Literary supplement a considerar tolerável a obra de um estreante?

Pois bem: não sabem os intelectuais ambiciosos, nem os eruditos mais experimentados, que há um público muito mais difícil de agradar, uma crítica muito mais apertada, no rincão mais Ocidental da Europa. De que outra maneira se explica que um livro que conquistou a Grã-Bretanha, que conseguiu o que não lograram Filipes ou Napoleões, seja por cá ignorado? Como se explica que o orgulho pátrio não rejubile quando um português desarma o delfim das letras Americanas, o grande Mark Twain?

A liga dos injustiçados literários, que todos os anos brada contra o esquecimento de Miguel Torga ou de Soeiro Pereira Gomes — ou de qualquer outro que não tenha uma reedição das obras completas em livro de bolso a cada novo mês – devia insurgir-se contra o esquecimento daquele que Mark Twain, num prefácio à sua obra, equiparou a Shakespeare: o grande Pedro Carolino.

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Mark Twain haveria de afirmar, sobre a obra de Carolino: “Há frases e parágrafos que nenhuma pretensa ignorância poderia alcançar”

Que outra coisa que não uma secreta trama de todo o panorama intelectual, que outra coisa que não um bem urdido plano da perfídia do governo, poderia ostracizar dos escaparates portugueses um génio Luso que, em leilões ingleses e Americanos, tem a sua obra vendida por 600 dólares, 1300 libras numa edição especial ilustrada, ou 250 libras numa edição com o ex-libris do duque de Norfolk? Que outra coisa que não uma estratégia fortíssima, soviética mesmo, de apagamento pode contrariar escritores mundialmente famosos, bibliófilos e negociantes no unânime amor a um livro português?

A única hipótese possível, excluída a cabala Universal ou a supina exigência dos literatos portugueses, é a de se tratar de um clássico que, de alguma forma, mancha a reputação nacional.

Nunca se leu nada assim

De facto, Pedro Carolino, embora fiel ao carácter descobridor e História aventurosa lusos, foi pioneiro, mas não numa área especialmente apetecível: antes do poderoso império do Youtube, já Pedro Carolino demonstrava a possibilidade de fama transatlântica através do humor involuntário.

Este escritor fugidio, avesso às amarras bibliográficas como um bom maldito, deixou apenas uma obra: um Guia de Conversação Portuguez-Inglez, dado à estampa em 1855 e que era, na verdade, adaptação de um outra guia – de português-francês – escrito por José da Fonseca:

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Ora, da mesma maneira que se diz que Cendrars melhorou a obra de Ferreira de Castro na tradução, também Pedro Carolino transformou um banal guia de conversação num clássico da literatura humorística. Nada, na capa ou contracapa, faz prever as gargalhadas a que o interior obriga; é que Pedro Carolino tinha a particularidade de não saber uma palavra de inglês. Destarte, o livro provocou pérolas como estas:

Diálogo 16 — Para ver a cidade (For to see the town)
António, acompanha estes senhores e mostra-lhes a cidade (Anthony, go to accompany they gentilsmen, do they see the town)
Desejamos ver o que ela contem de curioso (We won’t to see all that is it remarquable here)

Diálogo 17
Quem é aquele sujeito que lhe falava há pouco? (How is that gentilman who you did speak by and by?)
É um alemão (Is a german)
Parecia-me inglês (I did think him englishman)
Ele é da parte da saxónia (He is of the saxony side)

Diálogo 26
Este lago parece-me bem piscoso (That pound it seems many multiplied of fishes)

Qual surrealismo, qual arte Dada, qual ironia pós-moderna! Antes de todos eles, com o simples recurso a um dicionário, Pedro Carolino explorou todo o potencial dos duplos sentidos das palavras, da tradução literal de expressões idiomáticas, ou das diferentes estruturas de cada língua. Exemplos disso:

Diálogo 30
Francisco, que fazes aí (What you make hither, Francis?)
Rego este canteiro de flores (I water this flowers parterre)

Diálogo 40
Vamos nadar (Go to row)
Gosto mais de ver os nadadores do que de nadar, o senhor nada bem? (I like better to see the swimmers what to row myself. Sir, ddo you row well?)

O escrúpulo do autor leva-o a tomar tão à letra o dicionário que é capaz de traduzir “bom dia” por “good the day”. O resultado é tão hilariante que alguns académicos especializados desconfiaram das intenções do autor. Mark Twain, porém, refuta essa hipótese. “Há frases no livro que poderiam ter sido manufacturadas por um Homem sensato e com inteligentes e deliberadas intenções de parecer inocentemente ignorante; mas há outras frases e parágrafos que nenhuma pretensa ignorância poderia alcançar – nem mesmo a mais genuína e compreensiva ignorância, sem o suporte da inspiração”.

Pedro Carolino é um génio, sim, mas um génio involuntário, um descarado, sim, mas um descarado generoso, que procurou partilhar a glória com outros, privados da mesma arte de pegar num dicionário e traduzir literalmente um guia de conversação.

Escreveu Mark Twain: “Este celebrado livrinho não morrerá enquanto a língua inglesa durar”, antes de o considerar “inalcançável, como as perfeições de Shakespeare” e “perfeito”, de “imortalidade certa”.

Na primeira edição o guia é, realmente, atribuído não só a Pedro Carolino como também a José da Fonseca. Quando o êxito começou a captar a atenção de académicos, estes quiseram aferir que parcela de responsabilidade caberia a cada um dos autores. Foi então descoberto o logro: José da Fonseca era apenas um solerte e competente tradutor, que fizera um banalmente correcto guia português-francês e outro francês-inglês, com todos os termos no lugar próprio. Carolino copia o livro de Fonseca, de tal maneira que não traduz apenas o portugês.

Expressões como “deitar pérolas a porcos”, que Fonseca traduz vulgarmente por uma expressão idiomática semelhante “faire de la bouillie pour les chats”, é transcrita por Carolino como “to make paps for the cats” e não “give pearls to the pigs”, como seria de esperar. A abnegação e honestidade de Pedro Carolino, como explica o académico Alexander MacBride, levou-o a acrescentar à capa do livro o nome do autor de quem copiou o guia. Munido do livro de José da Fonseca para criar a sua obra-prima, quis oferecer-lhe também a glória que retirou do livro dele. A História, no entanto, implacável, descobriu os lugares de cada um: José da Fonseca, o mero conhecedor, Pedro Carolino, o imortal cómico.

Boa educação

Ora, como um livro destes, com uma subtileza cómica pouco imediata, não atrai atenção imediata, igual mérito merece quem, primeiro, descobriu o seu potencial jocoso. Infelizmente, este Colombo não deixou mais do que uma iniciais – W.T.M. – no jornal Notes and Queries de 16 de Janeiro de 1869. O Notes and Queries tinha uma grande secção de correspondência de leitores, que se entretinham a relatar situações insólitas, problemas de tradução em livros e bizarrias de todos os géneros.

Este benfazejo e anónimo W. T. M. escreveu, sob o título “An Educational Book”, uma pequena carta para explicar que quando passara por Macau dera conta de um livrito que era usado na educação das crianças para aprenderem inglês. Era o Guia de Conversação de Carolino, em que o autor da carta, transcrevendo algumas passagens, confiava para fazer rir os leitores do jornal. Tanta razão tinha que, logo nesse ano, saiu a primeira edição intencionalmente cómica do livro, ao mesmo tempo que, em Portugal, esgotavam as edições existentes, expedidas misteriosamente para Inglaterra e para os Estados Unidos.

Pouco depois, sai a edição Americana, com o famoso prefácio de Mark Twain. É este que lhe dá o nome por que ficou conhecido English as she is spoke, apenas uma pálida imitação dos erros verdadeiros, e que lhe tece os mais encomiásticos elogios. “Este celebrado livrinho não morrerá enquanto a língua inglesa durar”, diz, antes de o considerar “inalcançável, como as perfeições de Shakespeare” e “perfeito”, de “imortalidade certa”. Desde aí, sucedem-se as edições e os estudos – Paul Collins, o bibliófilo, reeditou o livro há pouco — do livro capaz de levar a língua inglesa às mais inimagináveis paragens, como nestes casos:

Diálogo 36
Doem-me os dentes (I have the teeth-ache)
Então arranque-o (In such case, draw it)
Limpar-lhe-ei também a boca. Cuidará em conservá-la bem limpa (I shall you neat also your mouth, and you could care entertain it clean)

Diálogo 33
Eis o carteiro: vou dar-lhe a minha carta (There is the postman i go to puti t him again)

Num Homem destes, até a biografia condiz com a obra. É que mesmo o que se sabe da sua vida – data de nascimento e morte – são apenas plasmados do seu autor-sombra, José da Fonseca. Este sim, viveu de 1788 a 1866, pelo que podemos celebrar este ano os 150 anos da sua morte. De Pedro Carolino não podemos celebrar nada. Apenas lamentar que em Portugal o seu génio continue a ser ignorado.

Carlos Maria Bobone é licenciado em Filosofia. Colabora no site Velho Critério.

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