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▲Estragos na delegação da União Europeia em Kiev

AFP via Getty Images

▲Estragos na delegação da União Europeia em Kiev

AFP via Getty Images

Putin tenta intimidar Europa ao atacar delegação da UE em Kiev. Europeus avançam com sanções e pressionam Trump

Foi o 2.º maior ataque de sempre da Rússia a Kiev. Delegação da UE e edifício do British Council foram atingidos. Europeus garantem que não se vão deixar "intimidar" pelo "tiro de aviso" de Putin.

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598 drones e 31 mísseis, incluindo os sofisticados balísticos hipersónicos Kinzhal. A Rússia levou a cabo, na madrugada desta quinta-feira, o segundo maior ataque aéreo de sempre contra território ucraniano. Pelo menos 18 pessoas morreram, incluindo quatro crianças, numa investida que atingiu zonas civis e residenciais. Para além das baixas e da destruição que causou na capital da Ucrânia, este ataque preciso teve outro objetivo: atacar a delegação da União Europeia (UE) em Kiev e o edifício do British Council, uma organização internacional cultural e de ensino gerida pelo governo britânico.

Num momento em que decorrem negociações e os Estados Unidos tentam chegar a uma resolução para este conflito, este ataque pode ser visto como uma provocação e uma tentativa de intimidação do Kremlin à União Europeia e ao Reino Unido — que Moscovo considera atualmente os seus principais inimigos geopolíticos. Desde que Donald Trump regressou à Casa Branca, o Presidente russo, Vladimir Putin, tem tentado negociar bilateralmente (sem a presença da Ucrânia ou dos europeus) um acordo de paz com o homólogo norte-americano, numa solução que idealmente cumpra todos os objetivos que o líder da Rússia estipulou no início da “operação militar especial”.

No entanto, a Rússia tem tido dificuldades em negociar diretamente com os Estados Unidos, apesar de alguma aparente simpatia que certos membros da administração Trump nutrem por Moscovo. Sussurrando ao ouvido de Donald Trump, alguns líderes europeus têm sido bem-sucedidos em alertar para os perigos de um acordo de paz que favoreça apenas o lado russo e têm feito tudo para que haja garantias de segurança robustas no pós-guerra. Dias após o encontro entre as delegações russa e norte-americana no Alasca, vários líderes europeus acompanharam o chefe de Estado ucraniano à Casa Branca para tentar equilibrar os pratos da balança e evitar que o Presidente dos EUA ficasse cativado pela versão de uma paz russa.

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▲ Estragos que sofreu a delegação da UE em Kiev

AFP via Getty Images

Entre estes dois polos, Donald Trump vai oscilando. Por um lado, tem mantido o tom crítico contra Moscovo — ainda esta segunda-feira ameaçou começar uma “guerra económica” contra a Rússia se o país não se mostrar interessado num acordo de paz que leve a um cessar-fogo. Por outro, o Presidente norte-americano manifesta resistência em aplicar sanções secundárias contra o Kremlin (apoiadas por uma grande maioria do espetro político norte-americano), adiando sucessivamente a aplicação das mesmas.

A Rússia tem interesse em quebrar a unidade e intimidar os países europeus e evitar que se intrometam nas negociações de paz, de forma a negociar diretamente com Donald Trump. Além disso, tem-se falado na possibilidade de que tropas de países europeus (como francesas ou britânicas) assegurem o cumprimento de um cessar-fogo em território ucraniano, algo a que a Rússia se opõe. Este ataque será, assim, também um “tiro de aviso” aos exércitos europeus, de modo a entender os riscos que correm caso sejam mobilizados para a Ucrânia.

Rússia alega que atingiu apenas alvos militares e diz que continua interessada em negociações de paz

Oficialmente, o Ministério da Defesa da Rússia não fez quaisquer comentários sobre o ataque à sede da delegação da União Europeia em Kiev e ao edifício do British Council. Mas reivindicou um “ataque aéreo em larga escala” esta madrugada, usando “armas de alta precisão de longo alcance” contra território ucraniano. O Kremlin sublinhou também que os alvos foram apenas “empresas do complexo militar-industrial e bases aéreas militares na Ucrânia”.

▲ Destroços dos ataques russos a Kiev desta madrugada

Getty Images

Em declarações à imprensa, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, também deixou claro que a “operação militar especial continua”. “As Forças Armadas russas estão a cumprir os seus objetivos. Como já ficou estabelecido, continuam a atacar as instalações de infraestrutura militar e paramilitar do regime de Kiev”, declarou, sem nunca mencionar o ataque à delegação da União Europeia.

Porém, o responsável da presidência russa confirmou que a Rússia continua interessada em encetar negociações e que estes ataques aéreos não devem travá-las. Ainda assim, deixou uma ressalva sobre o processo negocial: “O interesse mantém-se”, mas só se “atingir os objetivos” que Moscovo diz querer alcançar por “meios políticos e diplomáticos”.

As declarações de Dmitry Peskov revelam que a Rússia pretende manter a inflexibilidade em certos pontos das negociações e que não vai aceitar um acordo de paz que lhe seja desfavorável. O chavão usado pelo Kremlin consiste em “resolver as causas da crise ucraniana”, o que, dito doutro modo, significa a cedência de vários territórios (em particular o Donbass) e a sua anexação de jure na Federação Russa, a desmilitarização da Ucrânia e a manutenção da neutralidade do país, impossibilitando a adesão à NATO.

epa12192791 Kremlin spokesman Dmitry Peskov looks on while waiting for the beginning of the talks between the Russian president and the interim president of the Republic of Mali at the Kremlin in Moscow, Russia, 23 June 2025.  EPA/PAVEL BEDNYAKOV / POOL

▲ Porta-voz do Kremlin diz que, apesar dos ataques, a Rússia continua interessada em negociações

PAVEL BEDNYAKOV / POOL/EPA

Tropas ocidentais na Ucrânia. A linha vermelha na Rússia

Depois da reunião do Alasca entre Donald Trump e Vladimir Putin, a delegação norte-americana enfatizou uma cedência do lado russo: o Kremlin teria concordado com garantias de segurança “robustas” para a Ucrânia depois de um cessar-fogo. O enviado especial, Steve Witkoff, disse à CNN internacional que Moscovo teria mesmo concordado com uma espécie de artigo 5.º da NATO (que estipula que um ataque a um Estado-membro é um ataque a todos). Isto não significaria que Kiev aderisse à Aliança Atlântica; apenas que, se a Ucrânia fosse atacada novamente, tropas transatlânticas defenderiam o país.

Neste sentido, as tropas de países ocidentais seriam enviadas para território ucraniano após ser assinado um acordo de paz, de forma a garantir o cessar-fogo. Essa hipótese tem sido apoiada pelos Estados Unidos, ainda que a administração Trump tenha determinado que não seriam enviadas tropas do país para terreno — o apoio seria apenas logístico. Essa ideia terá sido discutida na cimeira do Alasca e a delegação norte-americana terá assinalado aos aliados que o lado russo terá feito algumas “concessões” a esse respeito.

Porém, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergei Lavrov, veio, nos últimos dias, deitar por terra a possibilidade de a Rússia aceitar tropas ocidentais na Ucrânia. “Completamente inaceitável”, classificou o líder da diplomacia russa, no que seria visto por Moscovo como uma “intervenção militar estrangeira”na Ucrânia, algo impensável à luz da sua doutrina militar.

▲ Consequências dos ataques desta madrugada a Kiev

Getty Images

O porta-voz do Kremlin veio, esta quarta-feira, reiterar a posição, vincando a “atitude negativa” do Kremlin em redor desse ponto das negociações. “De facto, desde o início, podemos atribuir o avanço da infraestrutura militar da NATO e a infiltração da infraestrutura militar da NATO na Ucrânia como causas que levaram à situação do conflito que temos agora”, clarificou Dmitry Peskov, que reagia a uma notícia do Financial Times, publicada na terça-feira, que detalhava algumas ideias dos países ocidentais para a colocação de tropas em território ucraniano — como o facto de os Estados Unidos oferecerem às mesmas a partilha de informações confidenciais e um escudo aéreo.

Para aceitar um cessar-fogo, o Presidente ucraniano tem exigido precisamente garantias de segurança robustas, de que faria parte a deslocação de tropas ocidentais para a Ucrânia. Os Estados Unidos terão acedido a este pedido — o que terá frustrado os dirigentes russos. Assim sendo, o ataque à delegação da União Europeia em Kiev poderá ter sido também uma forma da Rússia de amedrontar e intimidar os países europeus, caso o plano avance.

Em declarações ao Observador, Henrique Burnay, consultor de assuntos europeus, lembra também a reunião informal dos ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia em Copenhaga, que começa esta quinta-feira — e em que se vão discutir as garantias de segurança para a Ucrânia. “Nas vésperas de os europeus discutirem sobre que garantias de segurança estão disponíveis para dar, a Rússia diz ‘Não se metam nisso’. ‘Se vocês se metem aqui, correm o risco de se meterem na lei da guerra'”, salienta, considerando que este é “um tiro de aviso” do Kremlin.

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Europa une-se contra ataques (à exceção da Hungria)

Um coro de críticas formou-se após ter sido revelado que o edifício da delegação da União Europeia tinha sido atacado. O presidente do Conselho Europeu, António Costa, denunciou o “ataque deliberado russo” e garantiu que a UE “não será intimidada”. “A agressão da Rússia apenas aumenta a nossa determinação em ajudar a Ucrânia e o seu povo”, disse.

A UE "não será intimidada". "A agressão da Rússia apenas aumenta a nossa determinação em ajudar a Ucrânia e o seu povo."
António Costa, presidente do Conselho Europeu

A chefe da diplomacia da União Europeia, uma das vozes mais críticas da Rússia na UE, foi mais longe — e acusou o Kremlin de “ridicularizar os esforços de paz”. “Enquanto o mundo procura um caminho para a paz, a Rússia responde com mísseis. O ataque de madrugada a Kiev mostra uma escolha deliberada de escalada. A Rússia deve parar com a matança e negociar”, afirmou Kaja Kallas, que falou por videoconferência com os membros da delegação em Kiev — e decidiu depois convocar o embaixador russo na UE.

Ninguém ficou ferido na sequência do ataque russo à delegação europeia em Kiev. Contudo, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, alertou para a provocação do Kremlin: “Dois mísseis caíram a cerca de 50 metros da delegação em menos de 20 segundos. É um lembrete sombrio do que está em causa. O Kremlin não vai parar de aterrorizar a Ucrânia, matando indiscriminadamente civis — homens, mulheres e crianças, e até atingindo a União Europeia.”  

Para o Presidente francês, Emmanuel Macron, um dos líderes europeus mais céticos neste momento em relação às intenções russas, o ataque a Kiev revela qual é a “ideia de paz” para o Kremlin: “Terror e barbárie”. “França condena estes ataques cruéis e sem sentido nos termos mais fortes”, escreveu no X. No mesmo sentido, o chanceler alemão notou que a Rússia “mostrou a sua verdadeira faceta”. “O facto de que a representação da UE também esteve debaixo de fogo testemunha a desumanidade crescente do regime russo”, considerou Friedrich Merz.

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▲ Ataques desta madrugada fizeram vários feridos em Kiev

Global Images Ukraine via Getty

O Reino Unido também criticou o ataque. O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, disse que a Rússia estava a “sabotar a esperança de paz”. Já o Ministério dos Negócios Estrangeiros foi mais duro e assinalou que se trata de uma “escalada da guerra”. “Queremos deixar claro para os russos que essas ações apenas vão endurecer a determinação britânica e ocidental para apoiar a Ucrânia e acabar esta guerra injustificada”, refere o executivo britânico, que convocou o embaixador russo em Londres para prestar esclarecimentos.

O Presidente da Ucrânia  considera “crucial” que o mundo responda firmemente à Rússia, que deve parar a “guerra que começou e que continua”. No entanto, Volodymyr Zelensky, no X, não deixou de reparar em como um Estado-membro da UE se manteve em silêncio: a Hungria de Viktor Órban. O líder ucraniano recordou que “ouve todos os dias acusações da Hungria” — país que não reage nem condena os ataques russos: “Nunca houve simpatia pela morte do nosso povo.”

O que pode a União Europeia fazer? Impor sanções e falar com Trump

A União Europeia prometeu uma resposta firme e “pressão máxima” aos ataques russos desta madrugada. Na conferência de imprensa que fez esta quinta-feira, Ursula von der Leyen adiantou que a UE vai “reforçar o regime sancionatório” que aplicou à Rússia desde o início da guerra. “Vamos apresentar o nosso 19.º pacote de sanções pesadas em breve.”

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▲ Ursula von der Leyen na conferência de imprensa desta quinta-feira

AFP via Getty Images

Para além disso, Ursula von der Leyen assegurou que a União Europeia vai “continuar a avançar” na questão dos “ativos russos congelados, para contribuir para a defesa e para a reconstrução da Ucrânia”. A presidente da Comissão Europeia reafirmou o “apoio forte inabalável à Ucrânia”, que definiu como “vizinha, parceira e amiga” — e também “futuro membro”, numa alusão à adesão de Kiev ao bloco comunitário.

O 19.º pacote de sanções não deverá, ainda assim, alterar a posição da Rússia nesta guerra, que tem conseguido contorná-las. “Já se percebeu, ao fim de 18 pacotes de sanções, que as mesmas não travam tanto a Rússia quanto, por exemplo, trava a força militar ucraniana. O que tem impedido os russos de avançarem mais não são as sanções, mas a força militar ucraniana no terreno”, constata Henrique Burnay.

Os dirigentes europeus podem usar este ataque, contudo, para mostrar a Donald Trump como o Kremlin não estará interessando num acordo de cessar-fogo — e, na melhor das hipóteses, levar o Presidente norte-americano a tomar medidas contra Moscovo e a pressionar Vladimir Putin, nomeadamente através das sanções secundárias que afetariam a economia russa.

"Putin deve sentar-se à mesa das negociações. Devemos assegurar uma paz justa e duradoura na Ucrânia, com garantias de segurança credíveis que tornarão o país num porco-espinho de aço. A Europa fará a sua parte."
Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen

A presidente da Comissão Europeia foi rápida a falar com Donald Trump ao telefone. No X, Ursula von der Leyen indicou, ao início da tarde desta quinta-feira, que primeiro ligou a Volodymyr Zelensky e depois ligou ao Presidente norte-americano. “Putin deve sentar-se à mesa das negociações. Devemos assegurar uma paz justa e duradoura na Ucrânia com garantias de segurança credíveis que tornarão o país num porco-espinho de aço. A Europa fará a sua parte”, salientou a dirigente comunitária.

Até à hora de publicação deste artigo, o Presidente norte-americano ainda não se tinha pronunciado sobre o ataque, nem dado detalhes sobre o tema da conversa com a presidente da Comissão Europeia — mas remeteu esclarecimentos para mais tarde. A porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, apenas referiu que Donald Trump “não ficou satisfeito”, mas também “não ficou surpreendido”. Na Europa, ainda assim, os líderes mais próximos de Donald Trump — como a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, ou o Presidente da Finlândia, Alexander Stubb —, demonstraram desagrado com o ataque russo.

A líder de Itália condenou os “ataques intensos em Kiev” que “revelam quem está do lado da paz e quem não tem intenção de acreditar no caminho das negociações”. Por sua vez, o chefe de Estado finlandês escreveu no X que a “única coisa que o Presidente Putin entende” é a linguagem do “poder”. “A única coisa que o poder trazer à mesa das negociações é pressão”, disse. Para isso, Alexander Stubb promete que Helsínquia “vai continuar a apoiar a Ucrânia nos esforços diplomáticos, financeiros e militares”.

epa12308693 (L-R) EU Commission President Ursula von der Leyen, British Prime Minister Keir Starmer, Finland’s President Alexander Stubb, Ukraine’s President Volodymyr Zelensky, United States President Donald J Trump, French President Emmanuel Macron, Italian Prime Minister Giorgia Meloni, German Chancellor Friedrich Merz and NATO Secretary General Mark Rutte pose for a ‘family photo’ in the Cross Hall of the White House in Washington, DC, USA during a Multilateral Meeting with European Leaders in the East Room of the White House in Washington, DC, USA, 18 August 2025.  European Leaders are at the White House in support of President Zelenskyy following President Trump’s meeting with President Vladimir Putin of Russia in Anchorage, Alaska, USA, on August 15, 2025.  EPA/AARON SCHWARTZ / POOL

▲ Europeus esperam pressionar Trump para aplicar sanções à Rússia

AARON SCHWARTZ / POOL/EPA

Desagradada com o que vê como interferência e com a possibilidade de tropas europeias serem mobilizadas para o território ucraniano, a Rússia quis demonstrar a sua força e o seu poderio aéreo aos europeus, enviando um recado. Perante isto, os europeus avançam com novas sanções — e esperam que Donald Trump os acompanhe e finalmente entenda que precisa de adotar uma abordagem mais dura com Vladimir Putin.

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