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Gamma-Keystone via Getty Images

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Romance, biografia, capitalismo e contrarrevoluções: estes 35 livros vão chegar até ao final do ano

Esta é uma lista de sugestões literárias, de diferentes géneros e origens, com outros tantos estilos e formas, a partir dos lançamentos que o mercado editorial programou até dezembro. Boas leituras.

Aviso: esta não é uma lista de todos os livros a publicar até ao final de 2025 (aliás, alguns deles já chegaram às livrarias, outros estão a caminho). É, isso sim, uma seleção que abrange diferentes formatos e estéticas literárias. Ficção e não ficção, biografia e ensaio, romance e memórias, política, sociedade ou economia. Há um pouco de tudo para todos, na habitual corrida até ao Natal à qual as editoras se lançam com alguns dos títulos mais esperados do ano. E mesmo após o final desta lista de sugestões, a boa notícia é que há muito mais para ler.

SETEMBRO

O Segredo dos Segredos
Dan Brown
(Planeta)

Robert Langdon está de regresso. Oito anos após a sua última aventura, o professor de simbologia volta a protagonizar um policial de Dan Brown, autor norte-americano que com este académico construiu um império literário. De visita a Praga, Langdon vê-se novamente no epicentro de uma trama de proporções planetárias, tudo porque a sua nova cara-metade, a cientista Katherine Solomon, encontra-se prestes a publicar um livro que desafia noções pré-concebidas sobre a consciência humana quando desaparece, ao mesmo tempo que um brutal assassinato ocorre. A fórmula é conhecida — mortes, conspirações e conceitos científicos explicados ao leitor — , e o sucesso também. Brown pode não ser o mais consensual dos escritores, mas cada lançamento é um evento literário.

Lynch sobre Lynch
Chris Rodley
(Sr. Teste)

Lançado originalmente em 1997 mas inédito em Portugal, este trata-se de um volume de entrevistas dadas por David Lynch, o lendário cineasta e artista multifacetado que nos deixou no início do ano. Conduzidas pelo autor e também realizador Chris Rodley, nestas conversas Lynch versa não só sobre todos os seus filmes realizados até à data — a maior omissão é, portanto, Mulholland Drive —, mas também sobre o seu trabalho com o compositor Angelo Badalamenti, os seus projetos televisivos e a sua relação com outras artes.

Mata Doce
Luciany Aparecida
(Particular Editora)

Ambientado numa localidade do interior rural do estado da Bahia, este romance acompanha Maria Teresa, uma mulher que está prestes a casar-se quando a violência lhe bate à porta, arruinando-lhe as bodas iminentes e virando a sua vida ao contrário. É com esta premissa que Luciany Aparecida conta uma história sobre o Brasil profundo e os contrastes e injustiças que ainda perduraram desde que se fez país, empregando uma prosa poética e uma estrutura não-linear. Foi esse arrojo que valeu à autora — já com experiência passada de publicação, mas só aqui tendo assinado com o próprio nome — o Prémio São Paulo de Literatura de 2024 e uma posição de finalista no Jabuti do mesmo ano.

Águalisa
Anne Carson
(Não Edições)

Desde 2017, quando editou Autobiografia do Vermelho, que a Não Edições tem levado a cabo a meritória tarefa de trazer a obra da canadiana Anne Carson — uma das mais importantes poetas vivas e eterna proto-candidata ao Nobel — para o nosso país. Este ano, esse esforço salda-se com esta coleção de prosa e poesia, originalmente lançada em 1995 e que roça o inclassificável — vai de pequenos textos de um parágrafo apenas a uma entrevista imaginada a um poeta do século VII a.C ou a um longo poema que gira à volta de uma conferência de fenomenologia em Itália.

Vítimas Perfeitas — A Condição Palestiniana
Mohammed El-Kurd
(Edições 70)

Arrastando-se há décadas como um dos mais bicudos problemas geopolíticos do mundo, a situação da Palestina (especialmente com o genocídio em Gaza) tornou-se nos últimos anos numa espécie de teste moral, onde reivindicações legítimas são contrariadas com acusações de cedência ao terrorismo e as linhas entre ativismo, genuína preocupação e fetichização do sofrimento alheio se esbatem. Mohammed El-Kurd, jornalista, poeta e ativista palestiniano a residir em Jerusalém, pede com este livro que se ignore o ruído e se olhe para o problema com uma premissa simples: porque não haverão os palestinianos de ser encarados como pessoas, e porque precisam de provar a sua humanidade para ter esse direito? É assim que, sob este prisma, exige que cessem tanto narrativas de vilanização como de vitimização do seu povo, pedindo apenas dignidade.

Heróis Sem Glória
Ferdia Lennon
(Clube do Autor)

Ao longo da história da humanidade, nunca faltou quem não tentasse lucrar com as suas circunstâncias — até mesmo no longínquo século V antes de Cristo, durante as Guerras do Peloponeso que colocaram Atenas e Esparta (e respetivas cidades-estado aliadas) frente a frente. No caso de Gelon e Lampo, dois oleiros modestos de Siracusa, o som de moedas a tilintar chega-lhes aos ouvidos ao descobrir que entre os milhares de atenienses a penar nas pedreiras depois de uma tentativa de invasão falhada há quem recite versos de Eurípides de cor a troco de pão e azeitonas. Sabendo que se pode odiar o invasor e amar a sua arte, têm a ideia de organizar uma peça de Medeia à base de prisioneiros, com todas as atribulações que isso significa. A premissa estrambólica — aliada à decisão de escrever com linguagem e calão contemporâneos — fez deste romance de estreia de Ferdia Lennon um sucesso não só na sua Irlanda natal, como no mundo anglo-saxónico.

Por Dentro do Chega — A face oculta da extrema-direita em Portugal
Miguel Carvalho
(Objectiva)

Tendo-se tornado presença quotidiana nos meios de comunicação, permanentemente a disputar a atenção mediática, talvez leve alguém a perguntar “mas o que é que ainda falta conhecer quanto ao Chega?” Muito, a avaliar pelas mais de 700 páginas de investigação jornalística produzidas por Miguel Carvalho. De projeto minoritário a segunda maior força na Assembleia da República bastaram seis anos, e o multi-premiado jornalista dedica-se aqui a investigar a sua ascensão, o seu financiamento e como opera. Para tal, recorreu não só a documentação inédita, como a entrevistas com todo o tipo de figuras ligadas ao partido, dos fundadores a atuais dirigentes — causando, inclusive, ondas de choque que já causaram mossa nesta força partidária.

O Que Podemos Saber
Ian McEwan
(Gradiva)

Um dos grandes destaques desta reta final do ano, o novo romance de Ian McEwan tem sido descrito pelo próprio vencedor do Booker como um livro de ficção científica “sem a ciência”. Tal deve-se à sua premissa: no ano de 2119, com o mundo parcialmente submerso devido a um acidente nuclear, um detetive literário lança-se em busca de um poema lido em público numa festa em 2014 e desaparecido desde então. Esses tempos do início do século XXI são descritos pelos habitantes deste período distópico como “o delírio”, por crerem que as pessoas estavam cientes do desastre iminente causado pelas alterações climáticas e nada fizeram. Essa é apenas uma das reflexões filosóficas de um livro descrito como estando repleto delas, de mãos dadas com uma história onde a violência e a desesperança também convivem com a busca pelo amor e com a imaginação de um mundo melhor.

Meu Abrigo, Minha Tempestade
Arundhati Roy
(ASA)

Conhecida tanto pelo cariz expansivo dos seus romances O Deus das Pequenas Coisas (que venceu o Booker em 1997) e O Ministério da Felicidade Suprema como pela acutilância e coragem dos seus ensaios, o que a escritora indiana aqui nos traz não é uma coisa nem outra, mas talvez as duas juntas. Trata-se de um livro de memórias, o seu primeiro, centrado particularmente na difícil relação com Mary Roy, a sua mãe “gangster”, por si descrita como o título desta obra na tradução portuguesa — o original, “Mother Mary Comes to Me”, é uma óbvia referência à sempiterna canção dos Beatles.

A Existência da Vida
Iida Turpeinen
(Livros do Brasil)

Talvez o nome “vaca-marinha-de-steller” não lhe diga nada, mas este mamífero marinho — primo dos dugongos e dos manatins — teve o triste fado de se extinguir no final do século XVIII, menos de um século após ser identificado pelo naturalista alemão Georg Steller, em 1741. Este homem e a expedição falhada onde fez a descoberta são um de três momentos históricos onde se passa este romance; nos outros, um governador do Alasca no século XIX ordena que se procure o esqueleto deste animal e, um século depois, um restaurador de um museu é incumbido de tratar desses restos mortais. Esta é a estreia da finlandesa Iida Turpeinen, que além de escritora é uma académica interessada nas interseções entre a exploração científica e a literatura. Esta história é reflexo disso, debruçando-se sobre a relação do homem com o mundo natural, do que a sua incúria fez perder e do que se tentou resgatar.

A Mulher e a Medicina
Elinor Cleghorn
(Alma dos Livros)

Um dos vários paradoxos em que assenta a nossa realidade social e científica é que as mulheres, que têm a tarefa biológica da gestação da vida humana, são as mesmas que historicamente têm vindo a sofrer de uma medicina feita por homens que tantas vezes interpretou erroneamente ou ignorou os seus problemas de saúde. Elinor Cleghorn sabe-o bem, já que a historiadora cultural britânica descobriu sofrer de doença crónica após anos de diagnósticos errados. Desde a ideia do “útero errante” criada na Grécia Antiga até ao conceito de histeria como diagnóstico aplicado amiúde, esta é uma história que pretende desconstruir mitos e explicar como o preconceito toldou as práticas médicas e como estas têm vindo a evoluir desde então.

A chuva que lança a areia do Saara
Ana Margarida de Carvalho
(Companhia das Letras)

Num outono de regressos, um dos mais significativos é certamente o de Ana Margarida de Carvalho ao romance, seis anos após O Gesto que Fazemos para Proteger a Cabeça e numa nova casa editorial. Com o título retirado de um verso de Caetano Veloso em Reconvexo, canção tornada famosa pela sua irmã, Maria Bethânia, esta é uma história que acompanha um homem feito prisioneiro, condenado a trabalhos forçados numa pedreira do Portugal profundo para sacar o material para criar a estátua de um anjo. A par deste infeliz, monta-se uma galeria de personagens sui generis que vão de uma mulher sem nariz a um par de gémeas siamesas.

Construtoras de Impérios — Vozes de Mulheres na Expansão Portuguesa
Amélia Polónia (coordenação)
(Temas e Debates)

Nos últimos anos, o processo da expansão marítima portuguesa e o império colonial a que deu lugar têm vindo a ser alvo de novas leituras por parte da historiografia, causando essa releitura a controvérsia que se esperava com novos e intensos debates. Este grande volume de investigação assume esse mesmo objetivo, desafiando a noção calcificada da gesta lusitana pelos mares como feita apenas de homens valorosos, apontando o papel que as mulheres tiveram também — tanto as portugueses, na metrópole e a bordo, como as autóctones dos lugares encontrados. Sob a coordenação de Amélia Polónia e com os préstimos de Amândio Barros, Rosa Capelão e António Manuel Hespanha — que deixa aqui o seu derradeiro contributo após a sua morte.

Dei-te Olhos e Viste as Trevas
Irene Solà
(Cavalo de Ferro)

Com Eu Canto e a Montanha Dança, a escritora e poeta catalã Irene Solà tomou o mundo literário de assalto com um estilo lírico e oral, misturando folclore com modernidade, violência com beleza, valendo-lhe elogios da crítica e o Prémio da União Europeia para a Literatura. Este seu novo romance assume iguais desígnios, passando-se novamente nos Pirenéus catalães, “num lugar povoado por caçadores de lobos, bandidos, fantasmas, bruxas e demónios”. A história começa com Bernadeta, uma idosa no leito de morte, acompanhada de mulheres marginais e amaldiçoadas desde que a primeira da sua linhagem ousou fazer e desfazer um pacto com o diabo para arranjar marido.

OUTUBRO

Um Século Rampa Acima: uma história popular e política do ciclismo
Ramon Usall
(Fora de Jogo)

Se há poucos desportos que almejam beliscar sequer a popularidade do futebol em Portugal, o ciclismo é um deles — basta pensar no estatuto que João Almeida tem vindo a conquistar como herói nacional. Não é surpreendente, tendo em conta a penetração que este desporto teve desde o início do século XX junto das massas, sendo esse o tema que o investigador catalão Ramon Usall se propõe a abordar neste livro, encarando o ciclismo não só como fenómeno desportivo, mas como um espelho político e social dos últimos 100 anos — desde as origens da Volta à França a como as corridas a duas rodas se relacionaram com a queda do Muro de Berlim. Reforçando ainda mais esse cariz popular, a editora Fora de Jogo vai lançar esta edição portuguesa durante a “Subida da Rampa do Vale de Santo António”, icónica prova organizada em Lisboa, e em colaboração com Mirantense Futebol Clube e a Associação Desportiva Recreativa “O Relâmpago”.

Aquilo em Que Preferia não Pensar
Jente Posthuma
(Dom Quixote)

Se um de dois irmãos gémeos decide tirar a própria vida, onde fica o outro — especialmente se sentir que perde a mais importante parte de si? Esta é a premissa deste romance da neerlandesa Jente Posthuma, finalista do Booker Internacional de 2024 e do Prémio da União Europeia para a Literatura. A história é contada da perpetiva de uma mulher cujo irmão se suicidou, tentando encontrar sentido na desgraça e fazendo o luto ao recordar a infância dos dois através de curtas vinhetas.

Cicatrizes
Dino D’Santiago
(Arena)

Dino D’Santiago pode ter-se tornado num dos artistas de maior destaque e projeção no panorama cultural português nos últimos anos, mas esse percurso fez-se de poucas ou nenhumas facilidades. O título desta sua estreia na escrita, uma autobiografia que surgiu de forma orgânica e febril com pequenos textos que foi escrevendo de madrugada após o nascimento da filha, alude a essas mesmas marcas. São prometidas reflexões sobre o crescimento no Bairro dos Pescadores, em Quarteira, a paternidade, o seu papel ao fundar a associação Mundu Nôbu, referindo-se em antecipação a este lançamento como um “caminhar sobre as minhas cicatrizes e um fechar de feridas abertas na infância”.

A Montanha
José Luís Peixoto
(Quetzal)

De regresso ao romance após Almoço de Domingo, José Luís Peixoto volta a beber inspiração a uma experiência real — desta vez, conviver com pacientes oncológicos do IPO do Porto — para enfabular a sua história. No pouco que ainda se sabe sobre esta narrativa do prémio Saramago, surgem personagens de várias proveniências e contextos — da Venezuela a Ponte de Lima — que têm de enfrentar a ameaça de morte de frente e fazer da sua vulnerabilidade força.

Encruzilhada de Corvos
Andrzej Sapkowski
(Saída de Emergência)

É possível que já tenha visto esta figura em algum lado — semblante carregado, cabelo branco, de físico imponente e com duas espadas às costas. Trata-se de Geralt de Rivia, personagem principal de The Witcher, uma das mais bem sucedidas e celebradas sagas modernas de fantasia — tanto a nível literário como nas suas adaptações para videojogo e série televisiva —, distinta pelo seu cariz sombrio e a inspiração do folclore eslavo. O seu autor, o polaco Andrzej Sapkowski, regressa a este universo 11 anos depois com uma prequela, onde Geralt começa a dar os primeiros passos como um bruxo caçador de monstros e a tentar encontrar o seu lugar no mundo.

As Várias Vidas de Anne Frank
Ruth Franklin
(Casa das Letras)

Depois de dedicar-se à tarefa monumental (mas bem sucedida) de biografar a escritora Shirley Jackson, Ruth Franklin quis escalar uma montanha ainda maior: Anne Frank. A sua figura, e o seu diário, são tão omnipresentes e icónicos na nossa cultura que acabam por obscurecer quem foi a adolescente judia por trás, com as mitificações a prejudicar a tarefa de tentar representar uma pessoa de carne e osso. Neste trabalho, a crítica literária e jornalista explora não só quem foi Frank, mas tenta compreender como foi a sua vida em reclusão a escrever o diário e como a sua imagem tem sido instrumentalizada politicamente desde então.

Ramonera
Elvis Guerra
(Orfeu Negro)

Elvis Guerra não se identifica nem como homem nem como mulher, mas como muxe, um terceiro género assente no não-binarismo há muito reconhecido na sociedade indígena zapoteca, no México — o que, de resto, também prova que ideias de não-conformidade de género existem desde sempre e não são, como às vezes se quer fazer parecer, um conceito moderno. É a partir dessa lente que Guerra escreve os poemas de Ramonera, refletindo de dentro para fora da sua comunidade a dissidência de género e a etnicidade e fazendo uma crítica quanto à exclusão e a violência exercidas sobre corpos como seu. Esta edição não só é bilíngue, mantendo o texto original zapoteca, como conta com um posfácio do poeta e artista plástico André Tecedeiro.

O Desfufador — Volume 1: Contágio
Valério Romão
(Tinta da China)

Há sete anos arredado do romance — pelo meio manteve-se particularmente ocupado com o trabalho de tradução — o poeta e escritor Valério Romão mudou de casa literária e, com isso, começou a edificar um projeto de vários volumes narrativos. Este primeiro, descrito como uma “sátira impiedosa sobre masculinidade, turistificação, teorias da conspiração, clima, tecnologia, o mundo académico e mais algumas coisas difíceis de listar”, acompanha Alejandro, homem nascido em Miami que dá por si a ir parar a Lisboa num cruzeiro após um evento apocalíptico onde todos os sistemas eletrónicos do mundo se desligaram durante meia hora. É na capital lisboeta onde encontra uma galeria de personagens tão excêntrica quanto a premissa desta história.

Na Casa dos Sonhos
Carmen Maria Machado
(Alfaguara)

Depois da pedrada no charco que foi o livro de contos O Corpo Dela e Outras Partes, a escritora norte-americana Carmen Maria Machado voltou a abanar as águas com este livro de memórias. Mantendo a metáfora do corpo como um espaço de mudança e combate, aqui torna-se numa casa assombrada onde os fantasmas são os da violência doméstica — não tanto da física, mas da psicológica e de como esta se manifesta no corpo e transforma as vítimas. Recebido com pompa e circunstância pela imprensa norte-americana, este livro não só propõe um relato dilacerante do amor tóxico, como fá-lo de forma invulgar recorrendo à segunda pessoa do singular para tratar-se a si mesma, a vítima, por “tu”.

O Círculo dos Dias
Ken Follett
(Editorial Presença)

Tendo vindo a tornar-se um dos mais prolíficos (e populares) autores contemporâneos desde que começou a publicar nos anos 70, é difícil apontar períodos históricos que não tenham sido abordados por Ken Follett. Neste romance, porém, o escritor vai muito além da Inglaterra medieval que o afamou em Os Pilares da Terra, indo até aos primórdios da humanidade, ao Neolítico, centrando a trama na construção do tão antigo quanto misterioso Stonehenge e numa história de amor que tenta sobreviver a um período de convulsão e desconfiança motivado pela seca e a fome.

Rei das Cinzas
S.A. Cosby
(Kathartika)

Esta é a história de Roman Carruthers, um consultor financeiro afastado da sua família e do seu negócio de cremações até que recebe um telefonema para regressar porque o seu pai foi atropelado e está em coma. Ao chegar, descobre que não só a irmã Neveah está nos arames a tentar manter a família única como têm criminosos perigosos à perna devido à imprudência do seu irmão Dante — e que o que aconteceu ao pai pode não ter sido acidente. Se esta lhe parece a sinopse de um thriller, é porque é. O seu autor, S.A. Cosby, têm-se assumido como uma das figuras do policial de pendor mais literário, tendo tanto sucesso comercial quanto boa crítica por aliar enredos propulsivos à exploração das causas do crime contemporâneo e à criação de personagens realistas e ambíguas.

O Louco de Deus no Fim do Mundo
Javier Cercas
(Porto Editora)

“Sou ateu. Sou anticlerical. Sou um laicista militante, um racionalista obstinado, um ímpio rigoroso. Mas aqui estou eu, a voar para a Mongólia com o idoso vigário de Cristo na terra, pronto para o interrogar sobre a ressurreição da carne e a vida eterna. Foi por isso que entrei neste avião: para perguntar ao Papa Francisco se a minha mãe verá o meu pai depois da morte, e para levar à minha mãe a sua resposta. Aqui está um louco sem Deus a perseguir o louco de Deus até ao fim do mundo”. É desta forma que o mais recente livro do afamado escritor espanhol Javier Cercas começa, um misto de ensaio, crónica, livro de viagens e autobiografia resultante de ter aceitado um desafio do Vaticano, procurando compreender os mistérios da fé dos outros e do que esperar no além quando não se crê em mais nada.

Os Periquitos Somos Nós
Alex Couto
(Suma de Letras)

Depois de descrever a sua Setúbal natal sob a lente irónica de um grupo de jovens que inicia uma start-up para vender cannabis em Sinais de Fumo, o jovem escritor Alex Couto vira agora a mira para a capital portuguesa, descrevendo-a numa sátira que escarnece do aparelho mediático atual que faz da arte mera moeda de troca e dos mecanismos de especulação que perpetuam a crise habitacional. No cerne está um presidente de câmara diminuto — a comparação é pouco subtil — que “quer vender Lisboa aos ricos”. Uma das formas é através da criação de um reality show, Capital da Arte, onde se pretende quer eleger o melhor artista português, premiando-o com um dos ateliés dos Coruchéus, no bairro de Alvalade. O que esta iniciativa esconde, porém, é bastante mais sinistro, sendo o mote para uma crítica social e política.

NOVEMBRO

Heart Lamp
Banu Mushtaq
(Relógio D’Água)

Ainda sem título em português, este trata-se do vencedor do Booker Internacional deste ano, um livro de contos da escritora, ativista e advogada indiana Banu Mushtaq. Tendo feito história por ser o primeiro livro escrito integralmente em canarês a vencer este prestigiado prémio, esta obra agrupa 12 contos, publicados entre 1990 e 2023, que retratam o dia a dia das mulheres e raparigas nas comunidades muçulmanas do sul da Índia, dos seus combates pelos seus direitos e contra a injustiça religiosa e de castas na sua região do país, Carnataca. Apesar de parecerem estar enraizadas numa realidade hiperespecífica, estas foram consideradas pelo presidente do júri, Max Porter, como “histórias bonitas, cheias e de afirmação da vida”, que não caem nas armadilhas do ativismo, sendo antes “belos relatos da vida quotidiana e, em particular, da vida das mulheres”.

Simplicissimus
Hans Jakob von Grimmelshausen
(E-Primatur)

Uma das missões assumidas pela editora E-Primatur, que trabalha em regime parcial de crowdfunding, tem sido a de recuperar ou reeditar clássicos fundacionais da literatura mundial através de traduções integrais e cuidadas. Entre outros exemplos, fê-lo com os Contos de Cantuária, com Gargântua & Pantagruel, com Canção de Rolando e com Paraíso Perdido. E fá-lo novamente com Simplicissimus, de Hans Jakob Christoffel von Grimmelshausen, romance picaresco de 1668 que está para a Alemanha como o Dom Quixote está para Espanha. A história acompanha a vida errante de Simplicius, um jovem a tentar sobreviver à Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), numa narrativa que escalpeliza a sociedade da época e carrega a centelha da sátira social que faria escola nos séculos vindouros — basta recordar Tyll, romance de 2017 de Daniel Kehlmann.

Os Bosques da Via Láctea
Vários Autores
(Editorial Divergência)

Por força da invasão que sofreu por parte da Rússia, a Ucrânia tem estado no centro da discussão nos últimos anos daquilo que se entende por “solidariedade europeia”. Se é certo que o fornecimento de armamento e o estreitar de relações estão no topo das prioridades, não são as únicas opções. No campo da cultura, esse gesto consiste em promover e dar representatividade a um povo a batalhar contra a extinção da sua língua. É nesse contexto que se sublinha o projeto IndieSpec, co-financiado pela União Europeia e destinado a traduzir e editar obras de ficção especulativa dos três países que fazem parte dessa aliança: Portugal, Finlândia e Ucrânia. Por cá, entre outras obras, a Editorial Divergência vai publicar esta coletânea de contos de autores ucranianos, tanto em português como na sua língua materna. Nesta antologia surgem histórias como a de um campo de trigo que mata aqueles que sobreviveram à fome ou de feijões que congeminam os seus próprios planos para o futuro.

Correu Bem, Miúdo
Anthony Hopkins
(Lua de Papel)

Tendo vindo a tornar-se num dos mais importantes atores do nosso tempo, alvo dos mais importantes prémios do cinema e do teatro e responsável por personagens eternas como o serial killer canibal Hannibal Lecter, o mordomo James Stevens ou (mais recentemente) o pai demente de The Father, pode afirmar-se com segurança que o título deste livro de memórias de Sir Anthony Hopkins constata o óbvio. Nem por isso, porém, deixa de ser uma história que valha a pena contar. O lendário ator promete nestas páginas um olhar com franqueza tanto os tempos de uma infância de pobrezas e traumas no País de Gales — onde foi salvo ao descobrir o teatro — como o seu percurso ilustre ou a sua batalha com o alcoolismo.

A História da Contrarrevolução — Do 25 de Novembro de 1975 aos nossos dias
Raquel Varela e Adriano Zilhão
(Bertrand)

Por conta dos 50 anos do 25 de Novembro e da sua importância para pôr fim ao processo revolucionário e encaminhar Portugal para a democracia representativa parlamentar que hoje continua a ser, há vários livros a sair neste trimestre para explicar a data, o seu contexto e as suas consequências. A historiadora Raquel Varela e o economista Adriano Zilhão, porém, propõem uma abordagem talvez mais audaz: não deixando de assinalar o golpe à luz de nova documentação — alguma dela encontrada nos antigos arquivos soviéticos — e de testemunhos inéditos dos seus protagonistas, os dois pretendem aqui demonstrar que impacto este acontecimento teve a nível internacional e que efeitos teve para reconfigurar o papel do povo — mais afastado das decisões de poder — no panorama político português e europeu que lhe seguiu.

John & Paul — Uma história de amor feita de canções
Ian Leslie
(Zigurate)

Sendo os Beatles uma das bandas mais populares e estudadas do mundo, seria sempre uma tarefa ingrata tentar encontrar novos ângulos sobre temas discutidos até à exaustão. É aqui que entra o background do escritor e jornalista Ian Leslie, especializado nas interseções entre psicologia humana e criatividade. Focando-se na relação de amizade e de produção criativa de John Lennon e Paul McCartney — tão plena de cumplicidade e carinho quanto de competição e inveja —, Leslie traça assim um perfil dos dois a partir do seu cancioneiro, e de como este abriu as portas para a música pop moderna.

Capitalismo Canibal
Nancy Fraser
(Antígona)

Discutir quanto aos préstimos, os malefícios, as virtudes e os desafios do capitalismo tem sido não apenas um dos temas mais consistentemente discutidos dos últimos séculos, como também o combustível do motor da história que nos trouxe até aqui. Do lado crítico, mais do que enumerar queixas de cariz moral, importa hoje entender onde a atual fase do capitalismo nos pode levar. O que a filósofa e investigadora norte-americana Nancy Fraser acredita, é de que entrou num estágio de voracidade desabrida fadado a consumir tudo, desde o mundo natural afetado pelas alterações climáticas até às relações sociais entre os cidadãos. O seu alerta é para que não permitamos que esta fome esgote a capacidade política de lutar pelo bem-estar comum.

Última Confissão
Ozzy Osbourne
(Marcador)

De jovem marginalizado a tentar sobreviver numa Birmingham tão industrializada quanto cruel à consagração como deus do heavy metal, Ozzy Osbourne viveu uma vida tão repleta de altos e baixos que seria impossível de descrever num só livro. É por isso que a voz original dos Black Sabbath precisou de dois. Depois de Eu Sou Ozzy, de 2009, o artista ainda foi a tempo de preparar este segundo volume antes de morrer em julho deste ano. Aqui o foco está principalmente na reavaliação do seu legado e das decisões que tomou na reta final da sua vida, dos problemas de saúde que o levaram ao inferno mas também das pazes que soube fazer com amigos e ex-companheiros de banda e que resultaram no derradeiro concerto “Back to the Beginning”.

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