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The Washington Post/Getty Images

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Rudy Giuliani: o homem que limpa os erros que Trump quer esconder /premium

Por detrás do caso que levou ao impeachment a Trump está um homem: Giuliani. É seu amigo desde os anos 80 e, por mais problemas que isso lhe traga, diz com orgulho: "Sou o advogado do Presidente".

Donald Trump era um homem morto.

A um mês das eleições presidenciais de 2016, o Washington Post divulgou uma gravação de som, feita em 2005, em que Trump, sem saber que estava a ser ouvido, se gabava de agarrar mulheres pelos genitais sem consentimento. “Nem sequer espero. E, quando és uma estrela, elas deixam-te. Podes fazer o que quiseres.”

Para a campanha do magnata, tudo aquilo era um desastre. O candidato republicano apressou-se a fazer um vídeo a explicar a situação, referindo que era apenas “conversa de balneário” e pediu desculpa à família. No dia seguinte, Melania Trump emitiu um comunicado onde dizia que as palavras do seu marido eram “inaceitáveis e ofensivas” e que não representavam o homem com quem se casara — por isso, aceitou as suas desculpas.

“Ele tem falhas, eu tenho as minhas, e se calhar há poucas pessoas perfeitas, mas, na minha opinião, só houve uma até agora, e essa pessoa foi Jesus Cristo."
Rudolph Giuliani, depois de ser divulgada gravação em que Donald Trump se gabava de agressões sexuais

De resto, silêncio. Na campanha de Donald Trump e entre os próximos do candidato, toda a gente se recusou a mostrar a cara na televisão e fazer aquilo que compete em qualquer crise: spin: Todos, menos um: Rudolph Giuliani, o ex-mayor de Nova Iorque que é hoje o advogado pessoal de Donald Trump e uma das pessoas em que o Presidente dos EUA mais confia.

Nessa noite, Giuliani fez o pleno: apareceu em cinco canais de notícias por cabo para defender o que muitos tomavam já por indefensável. “Falar e agir são duas coisas muito diferentes”, disse à MSNBC. “Isto já está para trás, ele agora tem 14 meses de campanha presidencial e, como sabe, concorrer à presidência muda uma pessoa”, explicou na ABC. “O homem que sai de uma campanha depois de um ano e meio é outro, é um homem que ouve as preocupações e os problemas do povo americano”, garantiu na CNN. Na Fox News, insistiu nessa ideia: “As campanhas tornam-nos pessoas diferentes. Depois do 11 de setembro, e depois de concorrer à presidência, eu passei a ser uma pessoa diferente”. E, para finalizar o pleno, na CBS foi mais ambicioso: “Ele tem falhas, eu tenho as minhas, e se calhar há poucas pessoas perfeitas, mas na minha opinião só houve uma até agora, e essa pessoa foi Jesus Cristo”.

Rudolph Giuliani e Donald Trump conhecem-se desde a década de 1980

Sara D. Davis/Getty Images

Desde este momento, já passaram praticamente três anos e, de lá para cá, Donald Trump já viveu um mundo: foi eleito Presidente, mudou profundamente a posição dos EUA no mundo e procurou apagar várias políticas do seu antecessor; despertou paixões entre os que o adoram e os que o odeiam; sobreviveu, alguns dirão intacto e outros pensam que ferido de morte, à investigação do alegado conluio da Rússia; e agora está a ser sujeito aos primeiros passos de um processo de impeachment, depois de ser conhecido o relatório de um ex-agente da CIA que o acusa de pôr em causa a segurança nacional dos EUA ao pedir ajuda à Ucrânia para prejudicar um dos seus maiores rivais nas eleições de 2020.

Durante todo este período, o grupo de pessoas que tem rodeado Donald Trump tem vivido uma autêntica roda viva. Até agora, já teve três chefes de gabinete, dois secretários de Estado, três porta-vozes, quatro conselheiros de Segurança Nacional, entre os quais Michael Flynn, que está na lista de pessoas de confiança de Trump que foram condenadas e presas, como o ex-diretor de campanha Paul Manafort ou o seu antigo advogado Michael Cohen.

Desde então, uma das poucas constantes na vida de Donald Trump tem sido a família — a Primeira-Dama, Melania Trump, além da Primeira-Filha (Ivanka Trump) ou do Primeiro-Genro (Jared Kushner). E também a família que escolheu, os amigos. Neste caso, ninguém se destaca tanto quanto Rudolph Giuliani — o Primeiro-Amigo.

Foi ele, aliás, o segundo alvo das diligências do processo de impeachment, que segue a grande velocidade na Câmara dos Representantes. Depois de, na semana passada, a câmara baixa do Congresso ter notificado o secretário de Estado, Mike Pompeo, para entregar documentos e indicar testemunhas, os presidentes de três comissões ordenaram a Rudolph Giuliani, esta segunda-feira, que entregasse documentos relacionados com o caso, sublinhando que o próprio Rudy admitiu, na televisão, que pediu ao presidente ucraniano para investigar Joe Biden e o filho. O “Primeiro-Amigo” volta a ser fundamental.

“O mayor da América”

Donald Trump e Rudolph Giuliani conheceram-se algures na década de 1980. Para cada um deles, já foi há uma vida: à altura, Donald Trump era um herdeiro e magnata do imobiliário em Nova Iorque, com gosto por aparecer nas revistas; Rudolph Giuliani era um procurador prestes a dar o salto para a política, mais propriamente para a câmara de Nova Iorque. Após um desentendimento com o autarca nova-iorquino, Ed Koch, Donald Trump passou a apoiar a campanha de Rudolph Giuliani, em 1989, ela própria apoiada pelo Partido Republicano. À primeira, falhou — mas, à segunda, acertou. Em 1994, Rudolph Giuliani tomou posse como presidente da câmara de Nova Iorque e, a partir daí, a cidade nunca mais foi a mesma. 

Quando Rudolph Giuliani pegou em Nova Iorque, aquela era uma das cidades mais perigosas dos EUA. Entre 1994 e 2001, os anos em que esteve no cargo, os número de homicídios caiu 52%, os roubos desceram 51% e o crime violento perdeu 44,1%. Embora os mecanismos por trás destes números sejam ainda hoje debatidos (esta tendência foi, além de registada em Nova Iorque, uma tendência a nível nacional), certo é que Rudolph Giuliani ficou com os louros aos olhos de muitos, por ter tornado Nova Iorque uma cidade mais segura.

Ainda assim, nem tudo foram rosas. Apoiante em toda a linha dos agentes da polícia da cidade, mesmo em casos que levantaram dúvidas quanto à proporcionalidade dos meios utilizados, o estilo espampanante das suas intervenções levou a que, em 2000, tivesse uma taxa de aprovação de apenas 36%. Também não ajudou que os seus casos extraconjugais fossem notícia recorrente — tal como não jogou a seu favor ter anunciado numa conferência de imprensa o divórcio da sua segunda mulher, Donna Hanover, que foi apanhada de surpresa pela notícia.

“Amanhã, Nova Iorque vai continuar aqui”, disse. “E nós vamos reconstruir, e vamos estar mais fortes do que antes… E quero que o povo de Nova Iorque seja um exemplo para o resto do país, e para o resto do mundo, que diga que o terrorismo não nos pode parar.”
Rudolph Giuliani, a 11 de setembro de 2001

Houve, porém, um acontecimento que levou Rudolph Giuliani de ser conhecido a ser respeitado em praticamente todas as casas dos EUA, fossem democratas, republicanas ou sem filiação política: os atentados de 11 de setembro de 2001. Naquele dia em que tanto mudou tão depressa, o presidente da câmara de Nova Iorque apressou-se a ir para o local dos atentados. Chegou à zona World Trade Center pouco depois de o segundo avião ter chocado contra uma das torres.

Numa altura em que George W. Bush estava em parte incerta, a bordo do Air Force One, Giuliani estava com os pés na zona da tragédia. “Amanhã, Nova Iorque vai continuar aqui”, disse. “E nós vamos reconstruir, e vamos estar mais fortes do que antes… E quero que o povo de Nova Iorque seja um exemplo para o resto do país, e para o resto do mundo, que diga que o terrorismo não nos pode parar.”

Rudolph Giuliani, à altura mayor de Nova Iorque, nas imediações do World Trade Center, no dia seguinte aos ataques

ROBERT F. BUKATY/AFP/Getty Images

Numa cerimónia no estádio dos Yankees, a apresentadora Oprah Winfrey cunhou aquela que viria a ser a sua alcunha: “O mayor da América”. Assim seria conhecido durante largos anos.

“O meu Rudy”

Depois do 11 de setembro, Rudolph Giuliani entregou-se aos negócios. Montou a Giuliani Partners, uma consultora da área da segurança e investimentos, viajou pelo mundo inteiro a fazer discursos e, acima de tudo, fez muito dinheiro. No final do seu mandato como presidente da câmara de Nova Iorque, declarou ter 2 milhões de dólares. Seis anos depois, em 2007, quando chegou a tentar concorrer às eleições primárias republicanas, a sua declaração de rendimentos apontava para 30 milhões de dólares.

Nessa sua tentativa presidencial, tal como já tinha acontecido nas três campanhas que Rudolph Giuliani teve para a câmara de Nova Iorque, Donald Trump esteve sempre ao seu lado, dando dinheiro para a sua campanha. Porém, recorda a revista New Yorker, a relação entre os dois homens estreitou-se só depois de Donald Trump ficar próximo de outro Giuliani: Andrew, o filho do “mayor da América”.

De acordo com o que o próprio Andrew Giuliani disse àquela revista, o período em que Rudolph Giuliani se divorciou da sua mãe (Donna Hanover, a tal que soube numa conferência de imprensa que o seu casamento acabara) não foi fácil. A relação entre pai e filho esfriou e foi Donald Trump quem passou a desempenhar as tarefas de pai, mesmo que emprestado.

Donald Trump foi como um segundo pai para o filho de Rudolph Giuliani, Andrew, quando os dois estavam desavindos. Andrew e o "tio" Trump passavam muito tempo a jogar golfe

Ian MacNicol/Getty Images

“Houve uma altura na minha vida em que o meu pai e eu tivemos um ponto baixo na minha relação e o Presidente estava sempre a convencer-me para manter as linhas de comunicação abertas”, contou à New Yorker Andrew Giuliani, homem de 33 anos que é, desde março de 2017, assistente de relações públicas da Casa Branca. “Desde então, olho para ele como uma figura paterna, como um tio, e tenho tido a oportunidade de ver o lado afetuoso dele que muitas pessoas não veem ou escolhem não ver.”

Depois, veio a política a sério — para Donald Trump, claro. E quando a política passou a ser mesmo um assunto sério para aquele homem que, até então, era apenas um magnata do imobiliário conhecido por ter um reality-show, ele não se esqueceu de ligar a um dos melhores e mais próximos contactos que tinha na política: o seu amigo Rudy, claro.

Em 2015, já Donald Trump tinha anunciado a sua candidatura, mas, numa altura em que ainda eram poucos os que a levavam a sério ou achavam que ela tinha pernas para andar, Giuliani apontou como favoritos a vencer as primárias do Partido Republicano nomes como Jeb Bush, Chris Christie ou Rick Perry. Tudo gente da política — respetivamente, um ex-governador da Flórida; um ex-governador de Nova Jérsia; e um ex-governador do Texas. Donald Trump viu o seu amigo na televisão, ligou-lhe de imediato e perguntou-lhe porque é que não tinha dito o seu nome. “Então e o teu amigo?”, disse Trump, falando de si mesmo. Rudy respondeu-lhe que pensava que era tudo uma brincadeira e uma manobra publicitária. A resposta foi honesta: “Desta vez é a sério. E eu quero que me ponhas naquela lista”. A partir daí, Rudolph Giuliani passou a dizer o nome de Donald Trump — e ele foi ganhando dimensão.

Rudolph Giuliani foi um dos poucos republicanos de renome a apoiar abertamente a campanha de Donald Trump em 2016

Sarah Rice/Getty Images

Fast-forward para 19 de julho de 2016. Aquele era o dia de Donald Trump, a confirmação de que não, não era a brincar, era mesmo a sério. Naquele dia, Donald Trump aceitou a nomeação do Partido Republicano como candidato às eleições presidenciais, depois de vencer um por um todos os seus adversários dentro de um partido que ainda não estava bem a perceber o que se tinha passado. Isso era bem visível na lista dos oradores daquela convenção, repleta de nomes pouco conhecidos. Além disso, nenhum ex-Presidente republicano ou ex-candidato, além de Bob Dole, aceitou sequer estar presente.

Mas estava lá o “mayor da América”. Foi um dos discursos mais marcantes da convenção. Dias antes, um atirador matou cinco polícias, em Dallas, e outro tirou a vida três agentes, em Baton Rouge, no Louisiana. Numa campanha em que o slogan “Black Lives Matter” (As Vidas dos Negros Importam) foi confrontado com o “All Lives Matter” (Todas as Vidas Importam) ou até “Blue Lives Matter” (As Vidas Azuis Importam, em referência à cor dos uniformes policiais), Giuliani fez um discurso em que puxou dos galões obtidos no combate ao crime em Nova Iorque e se colocou ao lado da polícia.

“O papel dele na campanha acabou por ser o de Primeiro-Amigo. Eles conhecem-se desde sempre, respeitam-se muito um ao outro. O Rudy tornou-se no tipo com quem o Donald se sentava no avião e de quem ouvia avaliações e críticas. Em termos geracionais, ele era o tipo com quem o Donald tinha mais proximidade. O Rudolph tornou-se num parceiro com quem o Donald podia contar e falar, além de passar um bom bocado.”
Chris Christie, sobre Rudolph Giuliani na campanha de Donald Trump

“Nós conhecemos o risco por que vocês [polícias] passam e agradecemos a todos os polícias e agentes da autoridade que estão esta noite a proteger-nos — negros, brancos, latinos”, disse. “De todas as raças, cores, fé, orientação sexual… Quando nos vêm salvar a vida, eles não nos perguntam se somos negros ou brancos. Eles simplesmente vêm salvar-nos!”

E, ao contrário de alguns que foram àquele palco, foi claro a apoiar Donald Trump: “O que eu fiz por Nova Iorque, Donald Trump vai fazer pela América”.

Rudolph Giuliani estava dentro. Embora Donald Trump estivesse rodeado de várias pessoas — com grande destaque para o estratega Steve Bannon —, o ex-mayor de Nova Iorque era dos que tinha uma relação de maior proximidade com o então candidato republicano.

“O papel dele na campanha acabou por ser o de Primeiro-Amigo”, disse à New Yorker Chris Christie, ex-governador de Nova Jérsia e antigo aliado de Donald Trump. “Eles conhecem-se desde sempre, respeitam-se muito um ao outro. O Rudy tornou-se no tipo com quem o Donald se sentava no avião e de quem ouvia avaliações e críticas. Em termos geracionais, ele era o tipo com quem o Donald tinha mais proximidade. O Rudolph tornou-se num parceiro com quem o Donald podia contar e falar, além de passar um bom bocado.”

Trump já deu provas de que nem sempre consegue rir de si próprio e não levar-se a sério, mas com Rudolph Giuliani parece ser diferente — pelo menos é isso que sugere um vídeo de 2000. Naquela altura em que, politicamente, quem mais tinha a perder era Giuliani, os dois fizeram um vídeo para uma ação de caridade em que o então mayor se vestiu de mulher e, nessa qualidade, era apalpado por Donald Trump.

Se houvesse essa possibilidade na língua inglesa, certamente tratar-se-iam por “tu”. À falta disso, o apreço de Donald Trump pelo seu amigo é expressado quando lhe chama, como o ex-mayor já disse, “my Rudy” — “o meu Rudy”.

Na televisão, na Ucrânia e onde for preciso: “A verdade não é a verdade”

Quando Donald Trump foi eleito, Rudolph Giuliani passou a fazer parte da sua equipa de transição. Nessa altura, era o jogo das cadeiras — mais propriamente, da distribuição de cadeiras. O ex-mayor de Nova Iorque queria a Secretaria de Estado: “Sempre achei que sabia muito mais sobre política internacional do que toda a gente”. Mas esse cargo não chegou — acabou por ser entregue a Rex Tillerson, homem do petróleo e de boas relações com a Rússia. Ainda assim, Donald Trump chegou a oferecer-se a procuradoria-geral — oferta que foi recusada, tal como a Secretaria de Segurança Interna.

Sem emprego nem funções na Casa Branca, Rudolph Giuliani foi-se mantendo na órbita de Donald Trump, mantendo-se sempre como conselheiro a nível informal. Ao mesmo tempo, dedicou-se à sua vida profissional (manteve a sua consultora) e também aos prazeres da vida: adora charutos, tanto que é um dos diretores do Grand Havana Room, um clube exclusivo de apreciadores que se reúne no último andar do número 666 da 5ª Avenida, em Nova Iorque.

É frequente ver Rudolph Giuliani a defender Donald Trump na televisão — nos momentos mais altos e também nos mais baixos

Roy Rochlin/Getty Images

Porém, em abril de 2018, Rudolph Giuliani saltou do relativo conforto em que estava para assumir a liderança da equipa de advogados de defesa de Donald Trump — a título pessoal e, por isso, sem vínculo à Casa Branca. A entrada de Giuliani para a equipa de advogados de Trump deu-se ao mesmo tempo que o homem responsável pelos casos do Presidente, Michael Cohen, começava a ser ligado a várias irregularidades — tendo mais tarde admitido que pagou, sob ordens de Donald Trump, 130 mil dólares a uma atriz pornográfica, Stormy Daniels, de maneira a que esta não revelasse que tinha tido relações sexuais com ele.

Mais do que a equipa de comunicações da Casa Branca, Rudolph Giuliani passou a ser a cara de Donald Trump perante os media norte-americanos. As questões eram várias e o Presidente, pouco aberto a entrevistas que não sejam a órgãos mais favoráveis, como é a Fox News, escusava-se a responder sobre elas horas a fio. Para isso, serviu-se de Rudy, o seu fiel amigo.

“A verdade não é a verdade."
Rudolph Giuliani

Foi muita coisa ao mesmo tempo. Muito mais do que o caso com Stormy Daniels, Donald Trump esteve debaixo de fogo durante grande parte do seu mandato por causa da investigação em torno do alegado conluio da sua campanha com a Rússia. Numa altura em que as pessoas à sua volta pareciam cair umas atrás das outras (Michael Flynn e Michael Cohen eram presos na sequência do caso da Rússia, além de Paul Manafort, que foi condenado por razões laterais), Rudolph Giuliani foi um seu acérrimo defensor.

Como seu advogado, defendeu — e conseguiu — que ele não depusesse perante o procurador especial, Robert Mueller, para não cair na “armadilha do perjúrio”. Em agosto de 2018, quando o jornalista da NBC Chuck Todd insistiu sobre as razões de este não querer que Trump fosse interrogado por Robert Mueller, Giuliani deu uma resposta tão emblemática que passou a ser impressa em canecas, tshirts e outros artigos.

“Quando me diz que, enfim, ele devia depor porque vai dizer a verdade e, por isso, não se deve preocupar, bom, isso é uma parvoíce, porque seria a versão que uma pessoa tem da verdade. Não é a verdade”, disse Rudolph Giuliani.

O jornalista insistiu: “A verdade é a verdade”.

E Rudolph Giuliani respondeu-lhe que “não, não é verdade”. E, depois, a frase que passou a ser artigo de merchandising: “A verdade não é a verdade”.

É longa a lista dos momentos em que Rudolph Giuliani deu a cara por Donald Trump, dos momentos mais baixos aos mais altos, sempre num tom de desafio e muito exaltação. Porém, no meio de todo aquele espetáculo em que o ex-mayor de Nova Iorque se assemelha a um comboio prestes a descarrilar, convém prestar atenção ao que ele tenta transmitir. E, desde maio deste ano, Giuliani aproveitava todos os momentos que conseguia nas entrevistas, fossem elas dóceis ou confrontacionais, para falar de um tema em particular: a passagem do filho de Joe Biden pela Ucrânia.

Tudo começou a 7 de abril, na Fox News. A conversa partiu de um sítio completamente diferente daquele onde acabou por chegar.

O tema era Joe Biden, que, à altura, era tido como nome certo para as eleições de 2020 (a 25 de abril, terminou o mistério e anunciou que era candidato) e estava envolto num escândalo porque surgiram mulheres que disseram que ele as tinha tocado ao ponto de causar desconforto. Rudolph Giuliani começou por dizer que gosta de dar abraços (“Repara, eu sou de uma família italiana e tenho familiares que adoram dar abraços”), mas logo atalhou para o que queria: Ucrânia.

O jornalista, Howard Kurtz, nem falou da Ucrânia, mas Giuliani agiu como se o tivesse feito.

“Pois…”, atalhou Rudolph Giuliani. “E eu sinto-me muito mal sobre o envolvimento dele nesta coisa da Ucrânia. Deixe-me explicar-lhe o meu interesse nesse assunto. Eu recebi informação há cerca de três ou quatro meses sobre como esta investigação falsa na Ucrânia começou.”

E, a partir daí, explicou aquilo que passou a fazer nos meses que se seguiram, de cada vez que era chamado para falar na televisão: que Joe Biden, enquanto vice-Presidente, tinha feito pressão sobre a Ucrânia em 2016, instando aquele país a demitir o procurador-geral, Viktor Shokin. A razão, apontou Rudy, era o filho de Biden, Hunter, que estaria a ser investigado por lavagem de dinheiro durante a sua passagem pela empresa energética ucraniana Burisma.

Durante este tempo, Rudolph Giuliani passou de advogado pessoal de Donald Trump a ponta-de-lança da equipa informal de investigação do Presidente, tendo em vista as eleições de 2020. De acordo com o próprio, esteve reunido cerca de cinco vezes com Andriy Yermak, amigo e conselheiro do Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky. Um desses encontros foi em Madrid, onde, de acordo com o que Giuliani chegou a dizer ao The New York Times, insistiu com o conselheiro do líder ucraniano que “investigasse o raio daquelas coisas”.

Este foi um trabalho feito por Rudolph Giuliani às claras, mas, ainda assim, com vários pontos por esclarecer.

A 9 de maio, disse ao The New York Times que o Presidente estava a par das suas investigações em torno de Joe Biden (“basicamente, [Donald Trump] sabe o que estou a fazer, claro, enquanto seu advogado”). No dia seguinte, o Politico publicava uma entrevista com Donald Trump onde o próprio reconhecia que o seu amigo e advogado estava a investigar a passagem do filho de Joe Biden pela Ucrânia.

Porém, já a 19 de setembro, depois de se saber que a Casa Branca estava a tentar impedir que fosse divulgada a queixa do denunciante divulgada na semana passada, Giuliani disse à CNN que fez a investigação sem o conhecimento do Presidente. “Não… Fiz tudo por mim e depois contei-lhe”, assegurou. Ainda assim, quatro dias depois, já dizia à Fox News que só falou com “executivos do governo ucraniano” depois de lhe pedirem que o fizesse no Departamento de Estado — algo que necessitaria, pelo menos, do conhecimento e aprovação do secretário de Estado, Mike Pompeo.

Desde então, aquela que promete ser a crise das crises de Donald Trump, e que levou a que os democratas iniciassem, de uma vez, o processo de impeachment na Câmara dos Representantes, está a tomar todo o espaço mediático nos EUA. E, sem surpresa, porque ele é mesmo assim, Rudolph Giuliani tem sido, mais uma vez, uma das poucas caras dispostas a falar.

Numa dessas entrevistas, na Fox News, foi confrontado por uma notícia do The New York Times que dizia que o secretário de Estado estava chateado com ele por ter dito que investigou Joe Biden na Ucrânia com o beneplácito da Secretaria de Estado.

“Não sei se ele está chateado comigo ou não”, disse. “E, sinceramente, nem quero saber. Eu sou o advogado do Presidente.”

Drew Angerer/Getty Images

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