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Terramoto de 1755: a tragédia que arrasou Lisboa e também mudou o mundo

O sismo que há poucos dias teve epicentro na zona de Arraiolos relançou a questão: e se Lisboa voltar a tremer? Carlos Maria Bobone escreve sobre a tragédia que mudou a cidade mas também a filosofia.

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A descrição do martírio de Santo Estêvão, nos Actos dos Apóstolos, pode servir de contrapeso. Se, com o primeiro mártir, se abriram os céus, naquele fatídico dia de todos os Santos foi a Terra que se abriu. Se um caso era o maior esplendor da glória, o outro foi a maior tragédia da era moderna.

Nenhuma catástrofe chocou tanto o mundo como o terramoto de Lisboa, em 1755. O desastre monumental inspirou poetas, interessou filósofos, irou profetas e motivou políticos. O epicentro do Império Português era reduzido à insignificância da obra humana: num sopro, num movimento preguiçoso das placas subterrâneas, todas as maravilhas da técnica e do progresso civilizacional aluíam como construções de crianças.

Os desastres vinham uns depois dos outros, o gigantesco maremoto seguiu-se ao chocalhar da terra, e nem a fúria do rio revolto apagava os incêndios que persistiam pela cidade. Todos os elementos conluiavam contra a cidade, castigada com todo o arsenal da Natureza.

Qual é o plano especial da Proteção Civil para um grande sismo em Lisboa?

Percebe-se o choro e ranger de dentes dos sobreviventes, a toada alarmista do Padre Malagrida e seus sucedâneos, percebe-se o desespero de uma monarquia que vê os seus tesouros arruinados, de uma nação que vê a sua História reduzida a escombros e das famílias, decepadas brutalmente de vários ramos das suas árvores genealógicas de uma assentada. Tudo isto se percebe. Ainda assim, a importância do terramoto ultrapassa largamente as tragédias emocionais em larga escala.

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A sucessão dos dias, repleta de feitos heroicos, está bem explicada na crónica da época, impressionada sobretudo com a dimensão apocalíptica das desgraças em catadupa.

É, não apenas o drama familiar ou a perda patrimonial, mas um marco revolucionário, à maneira de um 11 de Setembro setecentista. Isto porque o sismo vem mostrar, não apenas o poderio da natureza, mas o equilíbrio instável de uma sociedade suspensa sobre modelos filosóficos e políticos concorrentes e em disputa muda. De alguma forma, o terramoto destapa os fundamentos e aquilo que se vê é aterrador: a corrosão e o cansaço de velhos alicerces, bichados por uma filosofia que se prepara para escorar um mundo completamente diferente. Não que seja o sismo a provocar o confronto: esse já existe há muito; mas as reacções ao terramoto mostram como a sociedade vivia em mundos tão diferentes, sem vergonha de se mostrarem diante da tragédia. O terramoto é o acontecimento limite que não permite mais a coexistência pacífica e o confronto velado. A discussão filosófica e política salta dos salões eruditos para o quotidiano, e revela-se tão confusa quanto a cidade devastada.

Miséria, violência e milagres

Do terramoto propriamente dito e da História política que se lhe seguiu, há muita informação e, desde há muito, bastante organizada. Um Oratoriano do Convento da Rua Nova do Almada, o Padre Manuel Portal, escreveu logo na altura uma História da Ruína de Lisboa muito informativa. A documentação coeva dá ideia de algum do património artístico perdido, das misérias e da violência, mas também dá conta da proliferação de episódios milagrosos, conta os episódios pios de assistência, os exemplos de abnegação a reerguer a cidade, o papel de algumas casas sobreviventes, como o Palácio Almada, por exemplo, na assistência aos trabalhadores e aos feridos, alojados aos milhares nas arcadas daquele que é hoje o palácio da Independência, entre milhares de outros episódios. A sucessão dos dias, repleta de feitos heroicos, está bem explicada na crónica da época, impressionada sobretudo com a dimensão apocalíptica das desgraças em catadupa.

Quanto ao património, entre os exageros fabulosos e os tesouros que nunca ninguém inventariou, é de facto difícil saber o que se perdeu. O património régio está razoavelmente documentado, as alterações mais significativas na paisagem também, mas a história portuguesa é de facto impiedosamente mutilada com a tragédia. Numa tese muito interessante de 2012, Pedro Madureira dá conta dos palácios que existiam antes do terramoto. Só os palácios são suficientes para se perceber a dimensão das perdas: Pedro Madureira explica que ruíram completamente pelo menos 43 palácios de Lisboa.

Ilustração da destruição provocada pelo terramoto

Claro que, no cenário de devastação que o terramoto provocou, também surgiram milhares de oportunidades. Além da consagração do poderio do Marquês de Pombal, o terramoto permitiu, provavelmente pela primeira vez na Europa, a instauração de uma arquitectura cartesiana, pensada a partir da cidade e não do indivíduo. A compreensão da cidade como um todo e como uma espécie de oportunidade para o a construção social de um Homem novo, que têm sido copiosamente estudadas por José-Augusto França são, como é óbvio, um dos legados mais interessantes do terramoto. A arquitectura da cidade é, pela primeira vez, conscientemente desenhada de acordo com um princípio filosófico aplicado a uma arte prática. E se, nesta matéria, o princípio é firme e uniforme, noutras o caso torna-se muito mais complicado. O terramoto transforma-se, rapidamente, no epicentro de uma grande controvérsia filosófica.

A ira divina e a corrupção da sociedade

Habitualmente, a influência filosófica do terramoto é ensinado como se o terramoto fosse uma espécie de machadada final nas concepções providencialistas do mundo.

Recriações do terramoto de 1755

A condenação do Padre Malagrida seria o exemplo mais óbvio. Malagrida, que clamava pelo arrependimento do povo e da monarquia, que tomava o terramoto como sintoma da ira divina contra a corrupção da sociedade, não seria condenado por um qualquer despeito da monarquia contra uma voz influente que os acusava de má conduta, nem por verdadeiras heresias clericais. A condenação do Padre Malagrida seria, antes de mais, um sinal da pouca tolerância em relação às interpretações místicas e providencialistas, uma forma de cortar os alarmismos escatológicos e de indicar o caminho: a interpretação necessária é uma interpretação positiva (passe o anacronismo), centrada no natural e na capacidade da técnica para prevenir futuras tragédias deste jaez.

Se Lisboa abanar, cai como Amatrice?

Ora, a grande discussão filosófica, porém, a discussão que anima Voltaire e Kant, por exemplo, não se centra bem nestes pontos. É fácil perceber porquê: em primeiro lugar, se o terramoto exigia uma tomada de posição em relação à técnica, seria de grande cepticismo. O terramoto era precisamente o exemplo da vanidade da técnica humana diante do poderio da Natureza. Além disso, o desastre é, à época, precisamente o ponto sensível numa interpretação natural dos fenómenos físicos. O desastre é a excepção, a refutação do princípio mecânico de que os seres se comportam sempre da mesma maneira.

A desgraça do terramoto é, assim, um argumento capital para mostrar como este não pode ser o melhor dos mundos possíveis. É facilmente imaginável um mundo sem terramoto, e seria decerto um mundo melhor.

O primeiro alvo filosófico do terramoto é, assim, precisamente uma interpretação racionalista e excessivamente natural da história. A teodiceia de Leibniz (embora truncada e caricaturada, como é habitual no método de Voltaire) é permanentemente confrontada pela existência do terramoto. Para o Leibniz que Voltaire caricaturou, Deus não precisa de milagres nem de actuações excepcionais porque a sua bondade cria a lógica do mundo de tal forma que ele segue naturalmente o seu curso. E se foi este o mundo que criou, este seria naturalmente o melhor dos mundos possíveis: não é possível que um Deus bom pudesse criar um mundo melhor e não o criasse. A desgraça do terramoto é, assim, um argumento capital para mostrar como este não pode ser o melhor dos mundos possíveis. É facilmente imaginável um mundo sem terramoto, e seria decerto um mundo melhor.

A terra tremeu e o mundo mudou

O que Voltaire faz, então, é materializar a acção divina. Na concepção de Leibniz, como é óbvio, aquilo a que se chama o mal natural não é um verdadeiro mal. O mal é sempre moral, pelo que depende da maneira como o Homem reage à desgraça, a desgraça em si não é um mal. Voltaire, porém, com o terramoto, materializa o mal. Voltaire não é, ao contrário do que é costume afirmar, um verdadeiro ateu; ele vê, isso sim, um pouco à maneira de Espinosa, a obra de Deus como a manifestação d’Ele mesmo. É isso que permite olhar para o mundo de um ponto de vista Natural: não é preciso olhar para o mundo à procura de intenções ocultas, de causas finais ou de desígnios divinos. Não porque eles não existam, mas porque a própria Natureza é sinal deles.

Ruínas da igreja de São Nicolau (Jacques Philippe LeBas)

O grande confronto não é, assim, entre aqueles que vêem no terramoto um sinal claro da providência e aqueles que vêem nela uma prova da inexistência da Providência. Entre os vários grupos místicos que se formam e o iluminismo mais “esclarecido”, o inimigo comum parece ser, antes de mais a concepção racionalista da história, atacada por lados opostos. Essa, mais do que qualquer outra, foi a grande discussão que ficou do terramoto, e que fez dele um ponto central também da História da filosofia. Passados os tempos áureos dos conimbricenses e mais do que a geração pombalina de Verney e Teodoro de Almeida, este foi o nosso grande contributo para a filosofia moderna: aquele fatídico 1 de Novembro em que a terra tremeu.

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