Uma nota prévia: cada vez que se trata de preparar uma antevisão das exposições nos museus públicos portugueses, é certo e sabido que a informação a conceder pelo Ministério da Cultura não está organizada e que os serviços de comunicação da Direcção-Geral do Património Cultural vão demorar a recolhê-la e a certificá-la. Desta vez, é ainda pior. Com a anunciada — em finais de junho — extinção da DGPC e a criação duma nova tutela, os diretores dos museus e monumentos nacionais foram notificados para nada revelarem da sua programação para 2024, aguardando as deliberações do novo organismo, em plenas funções a partir de 2 de janeiro. Mas como essa transição está a ser feita sobre o joelho e no mais descabelado deus-dará — como nas Comemorações Camonianas, o ministro Pedro Adão e Silva esteve uma vez mais irresponsavelmente distraído, sem chamar a si o controlo do bom andamento desse processo reestruturante, que é, todavia, uma das suas principais “bandeiras” —, as incertezas quanto ao futuro próximo sucedem-se umas às outras, com um efeito de dominó rápido que fará derrubar ainda mais a confiança dos caturras mal pagos que quotidianamente dão a cara pelas instituições que dirigem, sem autonomia financeira e outra, e do público em geral, sobretudo aquele que acompanha o dinamismo europeu e internacional que faz de excelentes exposições temporárias nos grandes museus um reconhecido fator de curiosidade e ilustração, estrangeira e nacional, e traz benefícios diretos para as respetivas comunidades escolares.

A verdade é que, três semanas depois de instaurado o novo organismo tutelar e de ter sido posto no éter o seu website (visualmente simpático, não há que duvidar, tanto mais que o da DGPC não deixa saudades…), nele não consta — ainda — uma única informação sobre quaisquer exposições de 2024, em 38 entidades tuteladas. Do mesmo modo, a programação expositiva das comemorações da Revolução de 1974 — que certamente marcarão o ano — tão-pouco foi ainda dada a conhecer, e tudo o que se sabe é à boca pequena, por contacto pessoal com artistas e outros envolvidos. E estamos já a escassos três meses da data histórica…

Entretanto, convém ter em mente que uma exposição temporária é sempre, qualquer que seja, um processo complexo e demorado (implica investigação, curadoria, mecenato — quando há —, contratos, pessoas, transportes, museografia, montagem, edição e impressão dum catálogo, etc.), algo, portanto, que não se faz do pé para a mão e merece respeito, pelo que esta rédea curta imposta lá de cima é a completa negação de instituições verdadeiramente maduras e ágeis, capazes de se afirmarem como protagonistas da cena cultural e de manterem círculos de visitantes fiéis, atentos e curiosos. Oito anos de drásticas cativações orçamentais que não podem ser tornadas públicas mas delapidam em contínuo os meios e os modos dos museus e monumentos nacionais, são — continuam a ser — uma tenaz muito apertada para instituições a que cumpre dar prova do nosso património cultural ou da nossa criação artística moderna e contemporânea. Boa parte do que se faz depende em exclusivo de apoios mecenáticos, aliás circunscritos a meia dúzia de instituições. Em fevereiro e março, durante a campanha eleitoral, a inoperância funcional do Ministério da Cultura estará mais do que nunca à vista de todos, pelo que a denúncia deste indigente estado das coisas não deixará de ser feita nesse contexto, desde que alguém se disponha a dar-lhe a devida importância…

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